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#Verificamos: É falso que Chapecó zerou internações de infectados com Covid-19

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
06.abr.2021 | 17h09 |

Circula pelas redes sociais que o município de Chapecó, em Santa Catarina, teria esvaziado os leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) após a utilização do chamado “tratamento precoce” nos hospitais. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Chapecó esvazia leitos de UTIs com tratamento precoce”
Texto de imagem que, até às 14h do dia 6 de abril de 2021, tinha sido compartilhada por 600 pessoas no Facebook 

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Diferente do que afirma a imagem compartilhada no Facebook, o município de Chapecó, em Santa Catarina, não esvaziou os leitos de UTI.  Divulgado nesta terça-feira (6), o boletim epidemiológico indica que 187 pessoas com Covid-19 estavam internadas na cidade, sendo que 121 estavam em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e 63 estavam em enfermarias. 

O número de internações na cidade, de fato, caiu. Desde o dia 4 de abril, não há pacientes no Centro Avançado de Atendimento Covid (CAAC), um “local improvisado” criado em 24 de fevereiro com o objetivo de desafogar a falta de leitos nos hospitais. No final de março, o estabelecimento contava com 50 camas hospitalares para atender pacientes infectados. 

Contudo, não existe nenhum indício de que a queda no número de casos tenha qualquer relação com o chamado “tratamento precoce”. Pelo contrário: o número de casos aumentou significativamente depois da adoção dessa prática. Em 5 de janeiro, o prefeito da cidade, João Rodrigues (PSD), determinou o fornecimento desses medicamentos, e também relaxou medidas que visavam a restrição da circulação na cidade. Na época, a cidade tinha 645 casos ativos. Em 21 de fevereiro, a cidade atingiu 3.677 casos ativos. 

Os casos começaram a diminuir após a instituição de medidas de isolamento social. Em 22 de fevereiro, a prefeitura ampliou as restrições ao comércio e à circulação de pessoas. Essas restrições foram ampliadas no dia 26, após decreto estadual. Após atingir mais de 5 mil, o número de casos ativos começou a cair a partir do dia 5 de março.

No final do mês, a prefeitura voltou a flexibilizar alguns serviços em Chapecó. Um novo decreto permitia, por exemplo, o funcionamento dos centros comerciais e galerias comerciais das 8h00 até às 20h00. 

Na última segunda-feira (5), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou que, com o “tratamento precoce”, Chapecó seria um “modelo a ser seguido” por outros municípios brasileiros. Ele disse que pretende visitar a cidade ainda nesta semana para poder analisar como está o combate da pandemia na região. 

O prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), no último domingo (4), fez afirmação semelhante. Na ocasião, ele afirmou que o município estava com o volume de internações por Covid-19 “próximo de zero” e que os número de casos da doenças estavam em queda na cidade. Assim como a imagem que circula pelas redes sociais, ele atribuiu esses dados ao uso do tratamento precoce. 

Tratamento precoce

Não há evidência científica que comprove a eficácia do chamado “tratamento precoce” contra a Covid-19. Na realidade, estudos publicados até o momento mostram que o uso de hidroxicloroquina, ivermectina e outros medicamentos não teve benefícios no tratamento ou na prevenção de casos leves, moderados ou graves da Covid-19. 

Em julho do ano passado, cientistas brasileiros publicaram um artigo no The New England Journal of Medicine (NEJM) mostrando que hidroxicloroquina, combinada ou não com azitromicina, não trouxe qualquer benefício para pacientes leves ou moderados com Covid-19 — ou seja, a doença se desenvolveu da mesma forma para os que tomaram o remédio e para os que receberam placebo. A droga foi administrada quatro dias depois de essas pessoas serem expostas ao vírus, de modo randomizado e com duplo-cego. Foram recrutados 667 participantes em 55 hospitais.

Um estudo mais recente, publicado em novembro pela revista The Lancet, chegou à mesma conclusão. Pesquisadores do Qatar, do Reino Unido e da Austrália analisaram os efeitos da hidroxicloroquina, com ou sem azitromicina, em pacientes não graves com Covid-19. Ao todo, 456 participantes dividiram-se em três grupos, com randomização e duplo-cego. Não houve diferença entre os resultados obtidos para cada um deles, mostrando que os remédios não trouxeram benefícios.

Outra pesquisa publicada no NEJM, em junho, por cientistas norte-americanos, mostrou que tomar hidroxicloroquina preventivamente não evitou a contaminação pelo SARS-CoV-2. O estudo também foi randomizado e duplo-cego e contou com 821 participantes nos Estados Unidos e no Canadá. Em fevereiro de 2021, a NEJM publicou uma pesquisa feita na Espanha, na qual os pesquisadores receitaram o medicamento para pessoas que tiveram contato com pacientes diagnosticados com Covid-19. Novamente, os testes mostraram que a droga não foi eficaz como profilaxia.

Essa informação também foi verificada pelo Aos Fatos e o Boatos.org.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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