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#Verificamos: É falso que o medicamento flutamida cura a Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
09.abr.2021 | 18h57 |

Circula por grupos de WhatsApp um vídeo em que um médico da cidade de São Gabriel (RS) declarou ter “vencido a Covid-19” ao tratar pacientes com flutamida, medicamento normalmente indicado para tratar câncer de próstata. De acordo com o profissional, ao ser tratado com o fármaco, em 24 ou 48 horas “o paciente deixa de avançar em direção ao fundo do poço”. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“(…) A Covid -19 está vencida. A Covid-19 como nós conhecemos hoje acabou (…).  Os pacientes estavam indo para o tubo e todos, sem exceção, [estão] se recuperando. Agora só nos resta preparar a logística para a distribuição (…). Essa medicação é a flutamida, de 250 mg, dada a cada oito horas durante sete a 14 dias, dependendo da evolução do paciente. Essa é a vitória sobre a Covid-19.

(…) A impressão  que dá é que os receptores de androgênio participam de uma maneira muito grande sobre a gênese dessa doença e das reações. E o bloqueio desses receptores de androgênio causam uma reviravolta assombrosa nos casos. Em 24, 48 horas, o paciente deixa de avançar em direção ao fundo do poço, em direção ao tubo”

Vídeo que circula em grupos de WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não existem evidências científicas que comprovem que a flutamida cure a Covid-19. Esse medicamento sequer consta na lista de testes sobre as potenciais opções terapêuticas contra a doença, documento atualizado periodicamente pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O relato do médico gaúcho não tem registro em nenhuma base nacional ou internacional de pesquisas. Na plataforma ClinicalTrials.gov, um dos principais repositórios de ensaios clínicos do mundo, não há, até o momento, nenhum estudo em curso que relacione esse fármaco e a Covid. A Plataforma Brasil, base nacional de registros de pesquisas envolvendo seres humanos, também não tem nenhum projeto relacionando essa droga com o SARS-CoV-2.

A flutamida é indicada para tratar pacientes com câncer de próstata em estágio avançado. De acordo com a professora do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Ana Paula Herrmann, o mau uso da droga pode provocar efeitos adversos no fígado. “O uso da flutamida pode causar dano hepático e em algumas pessoas pode ser fatal. Como não há benefício comprovado, entende-se que na ausência de benefícios tudo o que sobra são os riscos”, alertou por meio de áudio no WhatsApp. Em 2004, por exemplo, a Agência Brasileira de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta sobre a ocorrência de hepatite fulminante associada ao uso desta droga. Na época, quatro mulheres que usavam o remédio para fins dermatológicos morreram.

Para o cardiologista e professor de Medicina Baseada em Evidências, José Alencar Dante, apenas a observação de um médico ou de um grupo de médicos com um ou mais pacientes não tem força científica suficiente para afirmar ou negar eficácia de um medicamento. “Sem controlar, sem realizar os cálculos probabilísticos, nossa simples observação não serve. É por isso que existe a Medicina Baseada em Evidências, para reduzir ao mínimo possível a quantidade e a força de vieses em pesquisas”, disse, por WhatsApp. “A observação dele [do médico gaúcho] não só é infundada como é infantil (ou irresponsável, charlatão). Não há comprovação de que antiandrogênicos funcionem para Covid-19”, concluiu.

Em nota, o Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremesc) classificou o conteúdo do vídeo como falso. A entidade também abriu sindicância para investigar a atuação do profissional de São Gabriel e acionou o Ministério Público para que tome providências imediatas para interromper a propaganda do tratamento. A Santa Casa de São Gabriel, hospital onde o médico atua, informou em março que não reconhece o tratamento lançado pelo funcionário “pois não há comprovação científica de que a medicação cure a doença e também não há informações de que o médico tenha curado algum de seus pacientes, nas dependências da Santa Casa”.

Medicamento antiandrogênico

A flutamida é um fármaco antiandrogênico. Isso significa que ele bloqueia a ação de certos andrógenos, hormônios esteróides que regulam as características masculinas no corpo — como a testosterona, por exemplo. Por causa disso, é indicado para alguns casos de câncer de próstata. De acordo com a doutora em farmacologia Ana Paula Herrmann, a ideia de usar fármacos antiandrogênicos surgiu da observação de que pacientes carecas eram mais prevalentes em UTIs com um quadro grave de Covid-19 em comparação a pacientes com cabelo. “Como a calvície está relacionada à ação excessiva de hormônios androgênicos, se pensou nessa possível conexão de fármacos antiandrogênicos protegendo contra a doença grave”, explicou.

No entanto, a calvície também está relacionada com a idade, e a idade, por sua vez, também está relacionada com a possibilidade de se desenvolver um quadro da doença. “Tem-se aí um fator de confusão muito grande que invalida qualquer raciocínio mecanicista com base nos hormônios androgênicos. Além disso, mulheres também têm Covid e elas também morrem por causa do vírus. Isso já invalida esse raciocínio simplista. É muito perigoso sair usando flutamida, principalmente em mulheres”, disse.

A pesquisadora também ressaltou que a observação do médico de que vários pacientes melhoraram em até 48 horas não tem validade científica. “Vários pacientes melhoram nesse prazo. A Covid-19 é uma infecção viral aguda que se resolve espontaneamente na maioria dos casos, embora em alguns possa ser fatal. A melhora espontânea já é esperada para a maioria dos pacientes.”

Em entrevista à Lupa, a presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) e professora de pneumologia da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Irma de Godoy, também afirmou que a maioria das pessoas reage bem ao novo coronavírus. “É a minoria que vai mal”, disse.

Esse conteúdo também foi verificado pelo Aos Fatos, Boatos.org e Estadão Verifica.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Chico Marés

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