A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Foto: CDC/Pexels
Foto: CDC/Pexels

#Verificamos: Aumento de casos de hepatite não tem ligação com nova cepa do coronavírus

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
12.abr.2021 | 14h04 |

Circula nas redes sociais uma entrevista em que um médico afirma que as novas variantes do coronavírus estariam provocando hepatite em pacientes. Em sua fala, ele nega que o sintoma seja efeito adverso ao uso de medicamentos sem eficácia comprovada para o tratamento da Covid-19. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

_novas_cepas_coronavirus_invermectina

 

“Então são esses os três principais sintomas da nova cepa: garganta arranhando, espirrando e dor de cabeça”

Trecho de vídeo que circula no WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. De acordo com publicação do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), órgão que corresponde à Anvisa nos EUA, ainda não é possível afirmar “o que acontece com as pessoas infectadas pelas novas variantes”. Também não há no repositório de pesquisas sobre a Covid-19 da Organização Mundial de Saúde (OMS), estudo que evidencie alguma alteração no quadro de sintomas das pessoas infectadas pelas novas cepas. 

Em entrevista à Lupa, Carolina Voloch, professora do Departamento de Genética da UFRJ, disse que não é possível apontar formas de manifestação da doença que sejam mais comuns do que outras. “Não há nenhuma evidência de mudança de sintomas. Desde o início da pandemia existe uma variação enorme na sintomatologia apresentada pelos infectados: de pessoas assintomáticas até aquelas com sintomas muito severos”, diz. 

Gustavo Cabral, pesquisador do Departamento de Imunologia da USP, vai na mesma direção. “Ele [o médico do vídeo] não disse nada com nada”, critica Cabral. Segundo o pesquisador, não houve mudança significativa nos sintomas das novas cepas em relação às antigas. “A característica da nova cepa é, basicamente, a capacidade de proliferação, que é muito maior”, diz. “Elas têm uma característica que deixa os receptores mais expostos, então eles se conectam com as nossas células de uma forma muito mais eficiente”. 


“O fígado, que é a usina de depuração das medicações, começa a cair a sua função, gera uma hepatite que, aparentemente é medicamentosa, por isso os médicos estão confundindo. (…) Estão chegando com hepatite por causa da nova cepa, aí eles estão dizendo que é a ivermectina”

Trecho de vídeo que circula no WhatsApp

FALSO

A Covid-19, independentemente da cepa, pode afetar o fígado. Contudo, isso não significa que os médicos estejam “confundindo” hepatite medicamentosa com os efeitos da própria doença. Por telefone, Raquel Stucchi, infectologista da Unicamp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), explica que a biópsia realizada nos pacientes é capaz de evidenciar quando os sintomas são causados pela doença ou pelos remédios. 

 “A Covid-19 é uma doença que afeta todos os órgãos, ela pode dar problema cardíaco, pode acometer o rim,  o pulmão  — que a gente já sabe que é mais frequente  —,  o sistema nervoso central e também o fígado”, diz. “O que nós temos visto muito [em relação às crises hepáticas] é a biópsia mostrando inflamação pela medicação que não tem ação contra a Covid-19”, explica a médica.

A infectologista explica que o uso da ivermectina pode sim provocar hepatite medicamentosa e ressalta que ela “não tem nenhum papel nem na prevenção, nem no tratamento da Covid-19”. “Infelizmente, todos os trabalhos científicos randomizados  — que podem definir se uma medicação faz efeito ou não — mostram que [a ivermectina] não tem nenhum efeito. Nenhuma medicação consegue atuar na prevenção ou no tratamento das formas leves”, afirma. 

O uso de ivermectina não está entre as recomendações da OMS para a prevenção à Covid-19, tampouco para o seu tratamento. A OMS informou, em nota divulgada no último dia 21, que os estudos sobre a administração do medicamento são inconclusivos. É orientado que o remédio somente seja usado em ensaios clínicos e é dito que o seu uso como prevenção “está fora do escopo das diretrizes atuais”.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

A Lupa está infringindo esse código? Clique aqui e fale com a IFCN

 

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo