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#Verificamos: É falso vídeo que mostra ‘repressão da China comunista’ na pandemia

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
13.abr.2021 | 17h26 |

Circula pelas redes sociais um vídeo que mostra uma suposta repressão do governo chinês contra cidadãos do país durante a pandemia da Covid-19. Usando máscaras e vestindo roupas de proteção, três policiais aparecem ao lado de uma viatura. Em seguida, eles caminham armados por uma via, ao lado de edifícios. As imagens passam então a mostrar um grupo de pessoas em uma rua. Algumas são atendidas por médicos, ao mesmo tempo em que se ouvem barulhos semelhantes a tiros. Novas cenas exibem o que parece ser um cadáver sobre uma calçada, com muito sangue pelo chão. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“Essa é a ditadura chinesa. Lá, quem não toma vacina, é tratado dessa forma aqui (…) Pistolas 9 milímetros, olha aí (…) Ouçam os tiros no fundo. Inocentes sendo executados porque se recusam a aceitar as ordens do governo, da ditadura chinesa comunista!”

Trecho de narração em vídeo que circula pelo WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O vídeo circula pelo mundo desde fevereiro e já foi desmentido por pelo menos outras seis plataformas de checagem (Alt.news, Fact Crescendo, Boom, News Mobile, Factly e France 24 Observers). Trata-se de uma montagem que reúne pelo menos três gravações feitas em épocas e lugares diferentes, no início do ano passado. As imagens nada têm a ver com uma suposta repressão do governo chinês a pessoas que não obedecem a medidas de isolamento ou que se recusaram a tomar a vacina, como é sugerido pelo narrador. Na época em que foram gravados, não existia nenhum imunizante contra a Covid-19.

A primeira sequência de cenas, que mostra os três policiais ao lado de um carro da polícia com o número G1796 e, depois, caminhando em um bairro, circula no Twitter desde o dia 1º de fevereiro de 2020. O post mais antigo localizado diz que as imagens foram gravadas em Wuhan — cidade onde foram identificados os primeiros casos da Covid-19. Segundo o texto, três pessoas desconhecidas andam armadas e usando roupa de proteção. Não aparecem mais detalhes e não são mostrados os outros trechos do vídeo que circula pelo WhatsApp.

Uma busca no Google com o código G1796 escrito na viatura policial, no entanto, leva a uma reportagem da emissora China Global Television Network (CGTN) sobre o caso, que não ocorreu em Wuhan. O texto conta que a polícia da cidade de Yiwu, na província de Zhejiang, recebeu um pedido de ajuda às 11h37 do dia 1º de fevereiro de 2020 porque um cão raivoso estava atacando os moradores. Os três agentes foram até o lugar para resolver esse problema, segundo comunicado enviado pela polícia ao canal de TV. O cão acabou sendo abatido na ocasião, por representar uma ameaça às pessoas que viviam no local.

Na segunda sequência, médicos parecem atender pacientes no meio da rua, enquanto outras pessoas observam o que está acontecendo. Algumas delas não usam máscaras e há um barulho similar ao de tiros. A publicação mais antiga localizada no Twitter, de 26 de janeiro de 2020, comenta que moradores da área rural de Wuhan não conseguem ir a hospitais e acabam morrendo em casa. “Ao fundo, ouvem-se fogos de artifício disparados para celebrar o ano novo, enquanto os inocentes morrem!”, diz o post. A festividade foi celebrada em 25 de janeiro. No vídeo que circula no Twitter, o som lembra muito mais fogos de artifício do que disparos. Isso indica que houve edição no áudio do vídeo que circula no WhatsApp. A diferença pode ser percebida em uma comparação feita pelo site Fact Crescendo.

A última parte do vídeo, em que uma pessoa aparece morta, está na verdade relacionada a um acidente de moto na cidade de Wuzu, localizada na província de Hubei. Um adolescente de 15 anos resolveu pilotar a motocicleta levando o seu primo e acabou colidindo com a mureta de proteção de uma árvore, ao fazer uma manobra em alta velocidade. O jovem, que está de casaco amarelo, morreu no local. Essa sequência também circulou no início de fevereiro, sem os trechos anteriores do vídeo do WhatsApp, e foi desmentida pelo France 24 Observateurs na época.

Os checadores conseguiram ouvir um morador da cidade, que confirmou com testemunhas o que aconteceu. “Posso confirmar que a cena foi filmada em Wuzu, na frente da Escola Siyuan, em 29 de janeiro de 2020. Moro na casa ao lado e vários amigos meus passaram por lá na hora da tragédia. Mas, ao contrário do que dizem no Twitter, a pessoa que está no chão não é uma mulher, mas um jovem, e não foi morto pela polícia. Sofreu um acidente de moto”, disse Zhang W. Ele encaminhou também mensagens e vídeos da cena. A própria emissora CGTN gravou uma reportagem no local e entrevistou o primo da vítima, um policial e um dos médicos que atenderam a ocorrência..

O vídeo que circula pelo WhatsApp é narrado pelo “doutor Marcelo Frazão”, ex-candidato a prefeito de São Simão (SP) pelo Patriota. Ele teve um áudio sobre a pandemia desmentido em outubro do ano passado, com várias informações falsas sobre o novo coronavírus, o isolamento social e a vacinação. Procurado pela Lupa, ele afirmou, por telefone, que não interessa se o vídeo é verdadeiro ou não. “Se é montagem aquele vídeo especificamente, não interessa. O que interessa é que aquela é a realidade da ditadura comunista no mundo”, disse. “Se eu sou um professor e estou na sala de aula e eu preciso mostrar assassinatos que estão ocorrendo do outro lado do mundo, eu posso não ter a filmagem real daquele fato. Mas eu posso fazer um teatrinho na sala de aula para simular os assassinatos que a ditadura comunista comete.”

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Chico Marés

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