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Após mudança de discurso do presidente, redes bolsonaristas elogiam vacinação

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
16.abr.2021 | 11h00 |

Neste início de ano, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) deu algumas declarações favoráveis à vacinação contra Covid-19. Embora pareça trivial em qualquer outro país, no Brasil isso representou uma mudança radical no discurso do presidente. Ao longo da pandemia, Bolsonaro questionou a eficácia, colocou em xeque a segurança e desestimulou o uso de imunizantes contra o novo coronavírus — além de recusar ofertas da  Pfizer e do Instituto Butantan. A Lupa analisou 10 páginas de apoio ao presidente no Facebook, além de perfis de pessoas públicas que o defendem, e concluiu que essa mudança repentina de posicionamento se refletiu nas publicações de seus apoiadores.

A Lupa analisou os conteúdos em 10 páginas bolsonaristas no Facebook, como por exemplo Bolsonaro Herói Nacional, Bolsonaro Presidente 2022 e Jair Bolsonaro #mito, entre outras, entre 1º de dezembro e 31 de março. Analisou também as publicações de políticos influentes entre apoiadores, como o deputado estadual Capitão Assumção (Patriota-ES), e de famosos que militam a favor do presidente, como o cantor Netinho.

Em 18 de janeiro, o presidente deu as primeiras declarações “favoráveis” à vacinação. Em encontro com apoiadores, criticou o governador de São Paulo João Doria (PSDB) e disse que a vacina não era “dele”, e sim “do Brasil”. Até então, Bolsonaro se referia à Coronavac, imunizante produzido no Instituto Butantan, como “vacina chinesa de João Doria”, como no tuíte abaixo.

Contudo, a guinada retórica se intensificou em março, horas depois de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ter criticado a gestão da pandemia feita pelo governo federal durante um discurso. Nesse dia, Bolsonaro apareceu em um evento usando máscara e afirmou que, até o final do ano, o país teria mais de 400 milhões de doses disponíveis. Dois dias depois, em 12 de março, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, publicou uma imagem do mascote Zé Gotinha segurando um fuzil em formato de seringa.

Nas 10 páginas de apoio ao presidente Jair Bolsonaro observadas pela reportagem, foram publicados 88 conteúdos sobre vacinas. Os posts passaram a enaltecer o governo brasileiro pelo suposto esforço de garantir imunizantes para a população brasileira a partir de 17 de janeiro, data em que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o uso das duas vacinas atualmente em uso no país. No mesmo dia, um dos perfis publicou que o governo Bolsonaro teria financiado a vacina do Butantan — o que não é verdade. Três dias antes, no entanto, essas páginas questionavam o tucano sobre a eficácia da fórmula desenvolvida pela chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan.

Em dezembro, essas mesmas páginas reverberavam uma declaração de Bolsonaro em que ele desestimulava o uso da vacina e questionava a obrigatoriedade da aplicação. Na época, ele disse “eu não vou tomar vacina e ponto final, problema é meu. As páginas Bolsonaro tem Razão e Bolsonaro 2022 – A última esperança da nação, por exemplo, somaram 2,9 mil compartilhamentos dessa frase.

Essa mesma mudança também pode ser observada nos perfis de autoridades e personalidades ligadas ao bolsonarismo. Assumção, por exemplo, compartilhou, em 5 de janeiro, que os próprios chineses recusaram essa vacina — o que não é verdade. Já em 22 de maio, mudou o tom e publicou uma foto do presidente cumprimentando o mascote Zé Gotinha acompanhada da legenda de que Bolsonaro tinha crescido em aprovação nas pesquisas.

Militante famoso de Jair Bolsonaro, Netinho também mudou de opinião sobre vacinas na medida em que o governo federal passou a buscar protagonismo nesse assunto. Até janeiro, o músico não só atacava João Doria e a CoronaVac como também questionava o porquê de a população de fato ter que tomar a vacina. Em março, ele passou a usar um discurso adotado por apoiadores, o de que Jair Bolsonaro nunca foi contra as vacinas.

Mudança de discurso

Segundo dados da agência Bites, consultoria especializada em análise de dados, a mudança de discurso é evidente. Até dezembro, a crítica era muito forte e em especial contra a CoronaVac, apelidada de VaChina pelos bolsonaristas, segundo o gerente André Eler. “E esse era o padrão, criticar e desconfiar”, observou. Mas a partir do momento que Doria vacinou a primeira pessoa, o governo federal começou a correr. “Esse discurso mudou para dar a impressão de que o governo sempre defendeu a vacina”, disse.

“Na redes, os apoiadores não falam mais que são contra, mas que nunca foram contra. Não é muito claro de onde isso saiu primeiro. Talvez venha de uma percepção de que o público viu na vacina uma esperança. Ele [Bolsonaro] é reativo às tensões nas redes. Quando vê que pode perder popularidade por algum tema, ele reage”, explicou Eler.

A Bites analisa periodicamente 3.541 perfis bolsonaristas. Esse grupo de usuários de redes sociais é formado pelos perfis mais influentes e responsáveis pela maioria dos replicamentos. Segundo a agência, desde o início do ano, o total de menções a vacinas, só no Twitter, foi de 799 mil entre esses perfis

Num levantamento feito pela consultoria de todos os posts que mencionam a palavra vacina entre 1º de janeiro e 13 de abril, é possível notar que até as duas primeiras semanas do ano, a disposição do governo com o tema era menor, quando Bolsonaro ainda falava que a vacinação não seria obrigatória. “O pico foi em 17 de janeiro. Como se vê pelas mensagens com mais retuítes, tem uma tentativa clara de mostrar que o governo tentou atuar, sim, para comprar vacinas”, pontuou Eler. Ainda de acordo com o gerente da Bites, o perfil da Secretaria de Comunicação do governo federal tentou formular uma narrativa sobre isso. 

Embora parte dos bolsonaristas tenham passado a defender a vacina, eles ainda têm outras pautas ‘queridas’, como o tratamento precoce, por exemplo. “A defesa da vacina ainda não é tão preponderante a ponto de fazer esses outros assuntos acabarem. E tem também a mudança — que deve se reforçar nas próximas semanas — relacionada à crítica aos governadores por causa dos repasses de verbas federais. Esses perfis começaram a cobrar isso para fugir do constrangimento de ter que defender a vacina”, afirmou. 

A mudança de posicionamento impacta a quantidade de desinformação sobre vacinas que circulou nas redes sociais. Um levantamento feito pela Lupa mostrou que, só em dezembro, foram desmentidos 18 conteúdos falsos sobre imunizantes. Em fevereiro e em março, esse número caiu para 11 e 10, respectivamente.

O tom também é outro. Se no final do ano passado viralizaram boatos sobre mortes provocadas por imunizantes e sobravam ataques à CoronaVac, em março as peças de desinformação diziam respeito a cronogramas falsos de vacinação. Já em abril, houve falsas acusações de que os governadores estariam deliberadamente atrasando a vacinação.

Procurados pela Lupa, o deputado Capitão Assumção e o cantor Netinho não responderam.

Editado por: Chico Marés

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