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#Verificamos: ‘Estudo’ da prefeitura de Sorocaba não comprovou ‘eficácia de 99%’ do ‘tratamento precoce’

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
16.abr.2021 | 17h04 |

Circula pelas redes sociais que a prefeitura de Sorocaba, município no interior de São Paulo, realizou um estudo sobre “tratamento precoce” em pacientes com Covid-19. O resultado foi que 99,19% das pessoas monitoradas se recuperaram da doença — o que comprovaria a eficácia de medicamentos como ivermectina e azitromicina. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Prefeitura de Sorocaba anuncia eficácia de 99,19% de recuperados da covid com o tratamento precoce”

Post que circula no Facebook que, até as 11h30 de 16 de abril de 2021, tinha mais de 1,4 mil compartilhamentos

EXAGERADO

A informação analisada pela Lupa é exagerada. Embora a secretaria de Saúde de Sorocaba tenha acompanhado 123 pessoas com suspeita de Covid-19 medicadas com azitromicina e ivermectina, esse levantamento não prova que o tratamento foi responsável pela cura de 99% dos casos observados. Essa ação da prefeitura não seguiu uma metodologia científica adequada, e sequer pode ser considerada um estudo. Vale pontuar, ainda, que a ampla maioria dos casos de Covid-19 não evolui para quadros graves, com ou sem medicação.

Na última quarta-feira (14), a prefeitura de Sorocaba publicou um comunicado dizendo que monitorou 123 casos suspeitos de Covid-19 que foram tratados com ivermectina e azitromicina. Segundo o relato, que viralizou nas redes sociais e foi noticiado em sites como o Gazeta Brasil, o grupo de pessoas respondeu, por telefone, a um questionário sobre quais medicamentos usou, fatores de risco, melhora clínica com o “tratamento” e se teve necessidade de internação ou de serviço de urgência. Parte dos casos nem sequer foi confirmada como Covid-19.

Dentre as 123 pessoas observadas, uma morreu — de acordo com a prefeitura, ela “tinha tomado um comprimido das medicações e já era um caso moderado quando procurou a unidade de saúde”. Com base nessas informações, a secretaria de Saúde chegou ao resultado de “99%” de eficácia do tratamento.

No primeiro comunicado, publicado na quarta-feira, a prefeitura de Sorocaba se referiu ao levantamento como um “estudo”. Posteriormente, alterou a palavra para “levantamento”. Por fim, deletou o conteúdo do site.

Medicina baseada em evidências

Segundo o professor de Medicina Baseada em Evidências, o cardiologista José Alencar, a nota da prefeitura não tem valor científico e não serve como argumento de que o ‘tratamento precoce’ funciona. “Há diversos fundamentos da Medicina Baseada em Evidências e das boas práticas em pesquisa clínica que não foram observadas neste caso”, explicou, pelo WhatsApp.

“Não se pode excluir a possibilidade de um viés de seleção, que ocorre quando o pesquisador seleciona [um grupo de] indivíduos não compatíveis com [a distribuição demográfica] a vida real. Ou seja, eram muito jovens? Tinham PCR positivo ou apenas sorologia? Tinham comorbidades? Esse dado é o mínimo que devemos saber para interpretar o resultado”, diz. 

Mesmo que esse levantamento venha a ser publicado após revisão por pares em revista científica, Alencar afirmou que, ainda assim, não teria poder confirmatório suficiente para atestar benefício. “Isso porque estudos do tipo ‘observacionais’, como esse (se for publicado) são considerados apenas ‘geradores de hipóteses’ e não ‘confirmadores’, exatamente pelo risco elevado de viés e de manipulação”, disse. 

Casos graves são minoria

A maioria das pessoas infectadas pelo novo coronavírus desenvolve apenas sintomas leves. Aproximadamente 15% podem desenvolver sintomas graves, que requerem suporte de oxigênio, e cerca de 5% podem apresentar a forma crítica, com complicações como falência respiratória, por exemplo. No Brasil, a taxa de letalidade dos casos confirmados é atualmente de 2,7%. “Eu costumo usar o exemplo das bolinhas em uma urna. É como colocar a mão em uma urna com 1000 bolinhas, onde 975 são azuis e 25 vermelhas. Se pegar uma vermelha, morre. É um risco individualmente baixo. Mas, em termos populacionais é uma tragédia”, exemplificou Alencar.

Em entrevista à Lupa, a professora do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Ana Paula Herrmann, explicou que a maioria das pessoas infectadas melhora em até 48 horas. “A Covid-19 é uma infecção viral aguda que se resolve espontaneamente na maioria dos casos, embora em alguns possa ser fatal. A melhora espontânea já é esperada para a maioria dos pacientes.”

Isso significa que pessoas que tomam medicamentos como ivermectina ou hidroxicloroquina tem uma alta probabilidade de se recuperarem da Covid-19, caso contraiam a doença — não porque os remédios são eficazes, mas porque, na maioria dos casos, o paciente se cura sem medicação.

Prefeitura

Procurada pela Lupa, a prefeitura de Sorocaba informou, por e-mail, que o que foi divulgado não foi um estudo e, sim, um “monitoramento telefônico realizado pela secretaria da Saúde com pacientes com sintomas da Covid-19, após 10 dias do início do tratamento”. Segundo a nota, participaram da amostra 123 pacientes de diferentes características, gêneros e idades e, em comum, tiveram receitados os medicamentos que compõem o “tratamento precoce”. Desde 19 de março, Sorocaba adotou essa medida e moradores podem retirar o chamado “kit covid”, composto pelos medicamentos ivermectina, azitromicina, paracetamol e dipirona, nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) da cidade.

Até o momento, não existem evidências conclusivas de que a ivermectina e a azitromicina sejam eficazes como profilaxia ou como tratamento precoce e tardio da doença.  Sobre o antiparasitário, a última atualização da Organização Mundial da Saúde (OMS) acerca das opções terapêuticas contra a Covid indica que ainda existem “incertezas sobre os benefícios e danos potenciais” do antiparasitário e que “mais pesquisas são necessárias” (pág. 10). Já sobre o antibiótico, o relatório da OMS apontou que “provavelmente não reduz a mortalidade e nem o tempo de resolução dos sintomas” (pág. 25).

Esse conteúdo também foi verificado pelo Aos Fatos e pelo Estadão Verifica.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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