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#Verificamos: Com vídeo de 2019, Bolsonaro mente sobre reportagem de jornal espanhol

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
27.abr.2021 | 16h20 |

Circula nas redes sociais um vídeo que sugere que a edição do El País no Brasil alterou a manchete de um texto publicado originalmente em espanhol para prejudicar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Segundo o autor do vídeo, o título do texto em espanhol dizia que o presidente brasileiro “animou” os investidores, enquanto a reportagem brasileira dizia que o presidente “decepcionou”. Na última segunda-feira (26 de abril de 2021), o próprio presidente publicou este vídeo em suas redes sociais, dizendo que quem lê jornal está “desinformado”. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“‘Bolsonaro anima os executivos de Davos a investir no Brasil’. Alicia González. Ou seja, uma manchete positiva sobre a participação dele. E aí eu fui ver a mesma publicação na parte brasileira do jornal: ‘O breve discurso de Bolsonaro decepciona em Davos’. Ou seja, o contrário do que está publicado na Espanha, a mesma repórter”
Trecho de vídeo publicado no Facebook que, em 26 de abril, contava com cerca de 150 compartilhamentos

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Animar, em espanhol, não tem exatamente o mesmo significado que em português, e a tradução feita no vídeo, portanto, é incorreta. Além disso, o vídeo em questão é de 2019. Bolsonaro nem sequer participou do Fórum Econômico Mundial em 2021. Por causa da pandemia, neste ano, o evento foi realizado online.

Em 2019, ano em que Bolsonaro fez sua primeira e, até o momento, única aparição em Davos, o jornal espanhol El País publicou a mesma reportagem, de autoria de Alicia González, com títulos diferentes em espanhol e português. Na versão espanhola, o texto era intitulado “Bolsonaro anima a los ejecutivos de Davos a invertir en el nuevo Brasil”, enquanto na versão brasileira o título era “O breve discurso de Bolsonaro decepciona em Davos”.

Em espanhol, contudo, animar significa “incitar alguém a tomar uma ação”. Dessa forma, difere-se do uso mais corrente no português brasileiro, que é relacionado a “transmitir ânimo”, “dar vida” ou “estimular”. 

Na ocasião, o filho de Bolsonaro, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), publicou este vídeo em suas redes sociais. A própria autora do texto explicou que a interpretação do vídeo estava equivocada. “Você está fazendo uma má tradução do espanhol, [é] um falso cognato. ‘Anima’ significa pedir [em espanhol], e não convencer”, disse. 

O conteúdo dos textos é similar nas edições brasileira e espanhola. Já no primeiro parágrafo a jornalista escreve que: “Havia expectativa no Fórum Econômico Mundial para assistir à estreia de Jair Bolsonaro em sua primeira viagem internacional desde que foi empossado, no dia 1º de janeiro passado, e se o que os investidores esperavam era alguma concretude em suas prometidas reformas, a decepção foi inevitável”.

“‘Você ouviu o Bolsonaro? Acho que foi péssimo’, comentou um executivo bancário com investimentos na América Latina. ‘Foi um pouco decepcionante que não houvesse muitos dados concretos sobre o que ele pensa fazer, mas a verdade é que as metas que fixou foram alentadoras’, avaliava, muito mais positivamente, o economista-chefe da seguradora de riscos IHS, Nariman Behravesh”, diz outro trecho do mesmo texto, em ambas as versões.

Algumas partes do texto em português não foram incluídas na versão espanhola, incluindo uma crítica do economista Robert Shiller, que disse que o Brasil “merece alguém melhor”, e um parágrafo sobre a reação do mercado à fala de Bolsonaro.

Dois anos depois de sua participação em Davos, Bolsonaro voltou a publicar o mesmo vídeo para atacar a imprensa, usando sua conta pessoal no Twitter. “Se você não lê jornal está sem informação, sê lê está desinformado”, comentou. Até esta terça (27), às 14h13, a publicação havia sido retuitada por mais de 25,5 mil pessoas. O Estadão Verifica também checou publicação semelhante.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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Os dados são mais graves do que a informação
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FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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