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#Verificamos: É falso ‘documento sigiloso’ da Rede Globo com orientações sobre cobertura da pandemia

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
27.abr.2021 | 17h18 |

Circula pelos grupos de WhatsApp uma imagem que mostraria uma “sinistra pauta da Covid-19” da Rede Globo. O suposto documento sigiloso, com data de abril de 2020, tem uma série de orientações que deveriam ser seguidas pelos telejornais da emissora durante a cobertura da pandemia. Entre as diretrizes está manter reportagens sobre a Covid-19 em 80% do tempo dos programas jornalísticos e mostrar a lentidão na compra e aplicação de vacinas. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“Vazou… Apresentador demitido pela Globolixo distribui a sinistra pauta da Covid 19. Vamos compartilhar nos grupos para todos saibam como esses facínoras agem”

Texto de mensagem que circula pelo WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Em nota publicada na página Boatos e Alertas, criada para desmentir publicações sobre a Globo e seus profissionais, a emissora afirmou não se tratar de uma imagem autêntica. “(…) [A Globo] reforça que é falso o documento supostamente vazado que está sendo compartilhado nas redes sociais com o que seriam recomendações de pauta sobre a Covid-19 assinadas pelo editor-chefe do Jornal Hoje, Claudio Marques”, diz o texto. A imagem que circula pelo WhatsApp também contém erros e inconsistências que permitem perceber se tratar de uma fraude. A maioria das orientações, por exemplo, não foi seguida. 

Embora em algumas edições dos telejornais o tempo dedicado à cobertura da pandemia foi de 80%, como no dia em que o Brasil ultrapassou as 300 mil mortes por Covid-19, isso nem sempre ocorreu. Em 13 de abril, por exemplo, o Jornal Nacional dedicou cerca de 65% do tempo a essa cobertura. Já em 19 de abril, o total caiu para aproximadamente 37%. Foram encontrados tempos de cobertura inferiores a 80%, em dias diferentes de abril, no Bom Dia Brasil, no Jornal Hoje e no Jornal da Globo

Não há entrevistas de pessoas recuperadas e de quem perdeu familiares a cada edição dos telejornais, com minutos de silêncio, como pede o item 6. Números sobre recuperação já foram noticiados (item 4), inclusive vindos de autoridades do governo federal (item 10), e mortes por outras doenças também (item 2). Ao contrário do que determina o item 5 do “documento sigiloso”, já houve reportagens sobre medicamentos promissores contra a Covid-19 e sobre a eficácia de vacinas quando ainda estavam em desenvolvimento

Os gráficos estatísticos, com os totais de mortos e contaminados (item 3), não eram usados ainda em abril do ano passado, quando o suposto documento teria sido redigido. Aquele mês começou com 244 mortes registradas e terminou com 6 mil. Alguns dos temas listados nos itens 8 e 9 também ainda não eram uma preocupação no início do ano passado, como a demora na compra e distribuição de vacinas ou as denúncias sobre falta de oxigênio hospitalar. Esses problemas começaram a ocorrer apenas neste ano, o que prova que o texto só foi escrito recentemente.

Existe ainda uma incoerência na nota que aparece no final do “documento sigiloso”. Apesar de o texto dizer que “Esta Diretoria acompanhará os respectivos editores”, quem assina é um editor (Editor-Chefe), não um diretor da empresa. Um profissional nesse cargo não poderia determinar o comportamento de toda a cobertura jornalística da Globo, afinal tem sob sua responsabilidade apenas um dos telejornais. Isso poderia ser feito, por exemplo, pelo diretor-geral de Jornalismo da TV, Ali Kamel, pela diretora de Jornalismo na época, Silvia Faria, ou pelo então diretor-executivo de jornalismo, Ricardo Vilella.

Mais um sinal da falsificação está no logotipo da emissora que aparece no canto superior esquerdo do “documento sigiloso”. Essa foi a marca visual adotada pela empresa entre 2008 e 2014, quando houve a sua substituição por uma imagem cujo design traz menos reflexos, além de cores distribuídas em linhas no fundo. O logotipo modernizado estava sendo adotado ainda em 2020 – a “pauta” teria sido distribuída em abril do ano passado – e, por isso, ilustraria qualquer documento oficial. Em janeiro deste ano, houve uma nova alteração da marca, que passou por uma simplificação.

Outro indício da fraude está na palavra “bolsonarista” grifada por um corretor ortográfico no final do item 10. Isso só ocorre quando se trata de um documento que pode ser editado e modificado em um editor de texto. Nenhuma orientação oficial de uma empresa seria enviada de forma que pudesse ser modificada pela pessoa que a recebe. Existem também descuidos na grafia de palavras, uma característica comum em documentos forjados. Termos como “presidente da república”, “ministro da saúde” e “ministério da saúde” aparecem com todas as palavras em letras minúsculas, o que está errado. E não há consistência nas referências à Covid-19, que aparece como “COVID 19”, em caixa alta, ou apenas “Covid”, em caixa alta e baixa, além de estar às vezes no masculino e às vezes no feminino.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Chico Marés

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