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Teich cita dado incorreto sobre OMS e cloroquina na CPI da Covid

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
06.maio.2021 | 18h31 |

O ex-ministro da Saúde Nelson Teich prestou depoimento na CPI da Covid no Senado nesta quarta-feira (5). Em uma breve apresentação, ele falou sobre as ações que desempenhou à frente da pasta, onde permaneceu menos de um mês, entre 17 de abril e 15 de maio de 2020. Parte de sua explanação e das perguntas dos senadores se concentrou no uso de cloroquina contra a Covid-19. As divergências sobre o tema entre Teich e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) levaram à sua saída do Ministério da Saúde.

Na terça-feira (4), o antecessor de Teich no Ministério da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, já havia prestado depoimento à CPI da Covid no Senado.

A Lupa verificou algumas das declarações de Teich. A reportagem contatou o ex-ministro a respeito das verificações, e irá atualizar essa reportagem assim que tiver respostas. Confira a seguir o trabalho de verificação:

A Organização Mundial de Saúde, em 5 de junho, coloca que a hidroxicloroquina e a cloroquina não deviam ser recomendadas.”
Nelson Teich, ex-ministro da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 5 de maio de 2021

FALSO

A Organização Mundial da Saúde (OMS) só publicou uma recomendação contrária ao uso de cloroquina e hidroxicloroquina contra a Covid-19 em 1º de março de 2021. A decisão foi tomada com base em seis estudos clínicos randomizados distintos, envolvendo mais de 6 mil voluntários. Antes disso, a OMS reiterou diversas vezes que não havia comprovação científica de que estes medicamentos são eficazes contra o novo coronavírus, mas também não disse, explicitamente, que eles eram ineficazes.

No período citado por Teich, a OMS suspendeu, retomou e, depois, cancelou de forma definitiva ensaios clínicos com hidroxicloroquina no âmbito do Solidarity Trials ― uma série de estudos em larga escala visando testar diferentes medicamentos para casos graves de Covid-19. Na época, a própria OMS ressaltou que a decisão não valia para casos leves ou moderados da doença, nem para profilaxia.

No dia 25 de maio de 2020, o braço da pesquisa que avaliava esse medicamento foi suspenso temporariamente pela OMS, após a divulgação de um estudo observacional no periódico The Lancet, que apontava para a ineficácia e insegurança do uso do remédio contra a Covid-19. No entanto, após a publicação, pesquisadores encontraram inconsistências nos dados utilizados no artigo. Por causa disso, os próprios autores decidiram remover a publicação da plataforma. Assim, a OMS retomou a pesquisa em 3 de junho.

Contudo, em 17 de junho, a instituição voltou a suspender os testes com hidroxicloroquina. Desta vez, a decisão foi tomada com base nos dados da própria pesquisa, assim como em dois outros estudos clínicos que estavam sendo realizados paralelamente. Os testes foram cancelados definitivamente em 4 de julho.


“Taiwan fez 23 mil testes por milhão. O Brasil fez 217 mil. Isso são dados de hoje, de ontem. Então esses lugares fizeram pouco teste. Então na verdade não é o teste que faz a diferença, é o programa de controle de transmissão, do qual o teste faz parte”
Nelson Teich, ex-ministro da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 5 de maio de 2021

VERDADEIRO, MAS

Os dados mencionados pelo ex-ministro Nelson Teich estão corretos e constam no Worldometers, base de dados criada a partir de informações fornecidas por órgãos oficiais dos países. Contudo, o país asiático, que tem 23,5 milhões de habitantes (o equivalente a cerca de 11% da população brasileira), confirmou 1.160 casos de Covid-19 desde o início da pandemia. Ou seja, os casos da doença registrados em Taiwan desde 21 de janeiro de 2020, data em que o primeiro caso foi registrado ilha, equivalem a 0,008% dos casos registrados no Brasil durante a pandemia, ou 1,5% dos casos registrados em solo brasileiro somente no dia 4 de maio de 2021. 

Desde o início da pandemia, Taiwan realizou 555.429 testes. Isso significa que, para cada caso confirmado da doença, foram realizados 479 testes. Já o Brasil fez 46,4 milhões de testes, e teve, desde o início da pandemia, 14,8 milhões de casos. Ou seja, para cada caso, foram realizados três testes.

O país asiático impôs medidas severas para barrar a disseminação do novo coronavírus. Antes mesmo da confirmação do primeiro caso, o país estabeleceu um rígido controle de fronteiras, inicialmente com a China continental, e posteriormente com outras áreas afetadas pela pandemia. Ao contrário do que sugere Teich, a orientação do governo do país foi de testar não só os casos suspeitos, mas também seus contatos. Pessoas com sintomas da doença foram obrigadas a ficar isoladas mesmo sem diagnóstico confirmado. Desde o início, foram tomadas também medidas de distanciamento social e higiene. As medidas tomadas pelo país foram bem sucedidas, como mostra o baixo número de casos, e a ilha se tornou um exemplo de boas práticas contra a Covid-19.


“Existia um entendimento diferente do presidente [sobre a eficácia e extensão do uso da cloroquina no tratamento da Covid-19], que era amparado na opinião de outros profissionais, até do Conselho Federal de Medicina, que naquele momento autorizou a extensão do uso”
Nelson Teich, ex-ministro da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 5 de maio de 2021

VERDADEIRO

Cinco dias depois de Nelson Teich deixar o Ministério da Saúde, o governo mudou o protocolo e autorizou o uso de hidroxicloroquina para casos leves de Covid-19, apesar da falta de comprovação científica de eficácia do medicamento. A nota informativa assinada pelo então ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, do dia 20 de maio de 2020, permitiu a aplicação do medicamento desde o primeiro dia dos sintomas.

Essa medida foi referendada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Em 16 de abril, o conselho publicou o parecer nº 04/2020, no qual diz que recomenda que o uso de cloroquina e hidroxicloroquina em casos leves e graves da doença seja “considerado” pelos médicos. Entretanto, o mesmo documento reconhece que “não existem evidências robustas”, e que outras instituições, como a Sociedade Americana de Doenças Infecciosas, recomendava o uso desses medicamentos somente sob protocolo clínico de pesquisa.

Em seu depoimento na CPI da Covid, Teich explicou o que levou à sua saída do cargo de ministro da Saúde. “As razões da minha saída do ministério são públicas. Elas se devem (…) à constatação de que eu não teria autonomia e liderança que imaginava indispensáveis ao exercício do cargo. Essa falta de autonomia ficou mais evidente em relação às divergências com o governo quanto à eficácia e extensão do uso do medicamento cloroquina no tratamento da Covid-19. Enquanto minha convicção pessoal, baseada nos estudos, é que naquele momento não existia evidência de eficácia para liberar.”


“Naquela semana, teve uma fala do presidente ali na saída do Alvorada. Ele fala que o ministro tem que estar afinado. Ele cita o meu nome especificamente.”
Nelson Teich, ex-ministro da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 5 de maio de 2021

VERDADEIRO

No dia 13 de maio, dias antes de Teich deixar o cargo no Ministério da Saúde, o presidente Jair Bolsonaro declarou que todos os seus ministros deveriam estar “afinados” com os seus posicionamentos. Essa fala surgiu após jornalistas mencionarem a opinião de Teich sobre o uso da cloroquina para tratar pacientes com Covid-19. Em sua declaração, Bolsonaro cita o então ministro da Saúde. “Olha só, todos os ministros, eu já sei qual é a pergunta, têm que estar afinados comigo. Todos os ministros são indicações políticas minhas e quando eu converso com os ministros eu quero eficácia na ponta. Nesse caso, não é gostar ou não do ministro Teich, é o que está acontecendo”, disse o presidente.


“Mesmo em um estudo clínico em geral, quando você tem o recrutamento das pessoas que vai fazer o estudo, aquelas pessoas com maior risco de ter complicação são excluídas. Então na prática você só consegue ter o teste real quando ele é usado em larga escala.”
Nelson Teich, ex-ministro da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 5 de maio de 2021

VERDADEIRO


Estudos clínicos devem ser testados em pessoas o mais saudáveis possível. De acordo com o professor e chefe do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Aguinaldo R. Pinto, esse padrão é adotado justamente porque em voluntários com mais possibilidade de complicações o perigo é maior. “E como existe risco, seria eticamente inaceitável corrê-lo. Além do mais, ter outras doenças pode ser um fator confundidor, um fator a mais que pode levar a confundir a interpretação dos resultados. Quanto mais homogêneo o grupo em que o teste é realizado, melhor”, disse.

No caso de testes de vacinas, o professor explicou, por WhatsApp, que “quando o imunizante vai para o mundo real, onde tem hipertensos, diabéticos, pessoas que tomam medicamentos etc, aí sim é que a ‘verdade’ aparece”.

“Eu vi um número que saiu na imprensa dizendo que 86% das pessoas não conseguem fazer home office, o que quer dizer que a maioria delas tem que interagir durante o dia, talvez indo para o trabalho”
Nelson Teich, ex-ministro da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 5 de maio de 2021

VERDADEIRO

Uma pesquisa realizada pela consultoria IDados em março deste ano mostrou que 86% do total de pessoas que estavam empregadas no final de 2019 não têm como trabalhar de casa. O levantamento levou em consideração as vagas de trabalho, formais e informais, que têm como característica o trabalho presencial, como garçons, vendedores de lojas, manicures e empregadas domésticas. Essas vagas somavam 79,7 milhões de trabalhadores, ou 86% do total de pessoas empregadas na época. 

O trabalho doméstico, por exemplo, foi um dos setores mais atingidos em 2020. Segundo o IBGE, só entre setembro de novembro do ano passado, 1,5 milhão de profissionais dessa área perderam o emprego.

Editado por: Chico Marés

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