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Mayra Pinheiro (Leopoldo Silva/Agência Senado)
Mayra Pinheiro (Leopoldo Silva/Agência Senado)

Em CPI, secretária erra ao defender aplicativo que recomendava uso de cloroquina; veja checagem

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
26.maio.2021 | 18h01 |

A secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, depôs na CPI da Covid nesta terça-feira (25). Ela obteve um habeas corpus que lhe deu o direito de permanecer em silêncio sobre os fatos ocorridos entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021, durante o colapso do sistema de saúde de Manaus. Mesmo assim, respondeu quando questionada sobre esses temas, buscando tirar qualquer responsabilidade do Ministério de Saúde pela crise de Manaus. Pinheiro defendeu na CPI, também, o uso da hidroxicloroquina no tratamento inicial da doença.

Já foram ouvidos pela CPI os ex-ministros da Saúde Eduardo Pazuello, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, além do atual ministro, Marcelo Queiroga. O ex-chanceler Ernesto Araújo também prestou depoimento.

A Lupa verificou algumas das declarações de Mayra Pinheiro. A reportagem contatou o Ministério da Saúde a respeito das verificações e irá atualizar essa reportagem assim que tiver respostas. Confira a seguir o trabalho de verificação:

“Ele [TrateCov] não foi colocado no ar”
Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no dia 25 de maio de 2021

FALSO

Diferentemente do que afirma a secretária Mayra Pinheiro, o aplicativo piloto TrateCov foi colocado no ar para auxiliar médicos de Manaus, no Amazonas, no diagnóstico de pacientes com Covid-19, como mostra uma reportagem da TV Brasil do dia 19 de janeiro. A plataforma foi lançada em 11 de janeiro no município e a previsão do Ministério da Saúde era expandir para outras regiões. Na reportagem, um médico afirma estar usando o produto.

A partir do dia 19, reportagens mostraram que o aplicativo indicava a prescrição de remédios sem comprovação de eficácia contra a doença em qualquer caso que houvesse dois ou mais sintomas da doença, incluindo sintomas não específicos como diarreia e fadiga. Na época, a Lupa acessou o aplicativo, hospedado em página do próprio ministério, e simulou diversos cenários.

Poucos dias após o seu lançamento, em 21 de janeiro, o Conselho Federal de Medicina (CFM) solicitou que o TrateCov fosse retirado do ar ― medida que foi acatada pelo Ministério da Saúde. Após as críticas, a pasta informou, em nota, que a plataforma não estava funcionando oficialmente, “apenas como um simulador”, o que não é verdade, e que o “sistema foi invadido e ativado indevidamente”.


O que foi feita foi uma extração indevida [do código do TrateCov], na madrugada do dia 20, por um jornalista [Rodrigo Menegat, citado posteriormente]. Ele [Menegat] fez uma cópia da capa inicial dessa plataforma, abrigou nas redes sociais dele e começou a fazer simulações fora de qualquer contexto epidemiológico”
Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no dia 25 de maio de 2021

FALSO

Não houve “extração indevida” do site por parte do jornalista Rodrigo Menegat. O código do TrateCov estava acessível a qualquer pessoa que entrasse no link do Ministério da Saúde onde a plataforma estava hospedada. Vários veículos da imprensa acessaram o aplicativo e fizeram matérias sobre ele. Tanto a Folha de S.Paulo como a Lupa publicaram matérias mostrando como funcionava o TrateCov no dia 20 de janeiro, mesma data em que Mayra Pinheiro acusa o jornalista de ter extraído os dados de forma indevida.

O que Menegat fez foi inspecionar a página (algo que pode ser feito por qualquer pessoa clicando no botão direito do mouse), copiar o código e arquivar no GitHub (plataforma usada por programadores para, entre outras coisas, guardar códigos-fonte). Não há nenhuma ilegalidade nesse processo, que pode ser feito em qualquer site na internet e costuma ser usado para fins didáticos em aulas introdutórias sobre programação.

O TrateCov não está mais no ar pelo link do Ministério da Saúde, mas é possível acessá-lo através do Wayback Machine, um site que arquiva versões antigas de páginas na internet. A página segue funcional, e é possível realizar as mesmas simulações feitas por jornalistas na época. É possível reparar também que a página estava hospedada dentro do site do ministério, e não nas redes sociais de um jornalista.


“A OMS retirou a orientação desses medicamentos [cloroquina e hidroxicloroquina] para tratamento da Covid baseada em estudos que foram feitos com qualidade metodológica questionável, usando o uso das medicações na fase tardia da doença, onde todos nós já sabemos que não há benefício para os pacientes”
Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no dia 25 de maio de 2021

FALSO

A Organização Mundial da Saúde (OMS) nunca orientou o uso de cloroquina e hidroxicloroquina para tratamento da Covid-19 e, portanto, não “retirou” a orientação. Em 1º de março de 2021, a OMS se manifestou contra o uso desses medicamentos no tratamento da doença. Na data, um painel de especialistas da organização emitiu uma “forte recomendação” contra o uso de hidroxicloroquina como prevenção, ou seja, em pessoas que não estão contaminadas. Além disso, os estudos que sustentam a avaliação da OMS não foram feitos com “qualidade metodológica questionável”. Na verdade, ela está baseada nas evidências de seis ensaios clínicos randomizados de alta segurança, envolvendo mais de 6 mil voluntários.

A recomendação clara para que não se faça o uso desses medicamentos saiu apenas neste ano mas, em 2020, a OMS já havia descartado a eficácia da cloroquina no tratamento de Covid-19 em casos graves da doença. Em 4 de julho do ano passado, a OMS cancelou de forma definitiva ensaios clínicos com hidroxicloroquina no âmbito do Solidarity Trials — uma série de estudos em larga escala com o objetivo de testar diferentes medicamentos para casos graves de Covid-19. Cientistas que participavam dos ensaios verificaram que não havia nenhum benefício clínico no uso do remédio.

Além disso, em junho de 2020, a OMS já havia emitido alertas sobre efeitos colaterais e recomendava o uso apenas no contexto de estudos registrados, aprovados e eticamente aceitáveis.


“Nós garantimos o suporte do oxigênio quando foi necessário”
Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no dia 25 de maio de 2021

FALSO

Embora o Ministério da Saúde tenha enviado cilindros de oxigênio e outros equipamentos para o Amazonas, isso não foi o suficiente para impedir o óbito de brasileiros pelo desabastecimento do insumo. Somente no dia 14 de janeiro, 19 pessoas morreram por falta de oxigênio em Manaus, segundo a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. A Defensoria Pública do Amazonas contabilizou também 30 mortes no interior do estado. Na época, a grave situação motivou celebridades a doarem cilindros para hospitais amazonenses.

O governo federal foi avisado no dia 8 de janeiro de 2021 que o sistema de saúde de Manaus estava perto de sofrer com a falta de oxigênio. Na ocasião, a empresa White Martins, fabricante de gases medicinais que fornece a substância para hospitais do Amazonas, entrou em contato com o governo para avisar que a procura por oxigênio no estado estava aumentando. Por essa razão, a empresa sugeriu a contratação de uma segunda empresa para fornecer mais cilindros, o que evitaria a falta do insumo.

No dia 10 de janeiro, Pazuello foi até Manaus para analisar a situação no município. Na ocasião, o Ministério da Saúde já afirmava que o governo federal já estava disponibilizando o transporte de 1,5 mil cilindros de oxigênio para a região. No dia 15, a pasta disse ter encaminhado 5 mil metros cúbicos de oxigênio líquido para o estado. Contudo, a ação do governo não foi suficiente para evitar mortes no estado.


“A própria Organização Mundial de Saúde, que recomendou o lockdown, hoje diz que ele pode ser responsável pela fome e pela miséria”
Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no dia 25 de maio de 2021

FALSO

A OMS continua a defender o lockdown como uma das medidas necessárias para o enfrentamento da Covid-19. Não houve mudança de posição da entidade desde o início da pandemia sobre esse tema. Em entrevista coletiva em 30 de março de 2020, o diretor-geral da instituição, Tedros Adhanom Ghebreyesus, já reconhecia que a população pobre pode ser prejudicada por ficar sem renda durante o isolamento. Ele afirmou, na ocasião, que os governos deveriam criar políticas públicas que garantissem uma remuneração a essas pessoas enquanto perdurasse a restrição. 

Na mesma entrevista, o diretor-executivo do Programa para Emergências em Saúde da OMS, o irlandês Michael Ryan, também disse que políticas de lockdown podem ser necessárias, dependendo da gravidade da epidemia no local. Ele não defendeu o relaxamento dessas medidas, embora tenha reconhecido que podem causar problemas para uma parte da população. Essa informação falsa começou a circular um dia depois da coletiva de Ghebreyesus e foi desmentida pela Lupa na época.

Em texto publicado no dia 31 de dezembro em seu site, a OMS reafirmou o seu posicionamento favorável ao isolamento social. “Medidas em larga escala de distanciamento físico e restrições de movimentação, frequentemente chamadas de lockdowns, podem reduzir a transmissão da Covid-19 ao limitarem o contato entre as pessoas”, diz a entidade. Há somente a ressalva de que isso pode ter um impacto negativo nos indivíduos ― especialmente a população pobre, migrantes e refugiados ― por paralisar a economia. “Os governos devem aproveitar o máximo do tempo extra garantido pelas medidas de lockdown”, destacou o texto.


“A nova variante P.1 comportou-se quase como uma outra doença do ponto de vista clínico e de desfechos, e precisávamos de todas as medidas seguras para poder reduzir o caos que ali estava instalado”
Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no dia 25 de maio de 2021

AINDA É CEDO PARA DIZER

Até o momento, não existem estudos que comprovem que a variante brasileira P.1, originária do Amazonas, se comporte como “uma outra doença”, como afirma a secretária Mayra Pinheiro. O que as pesquisas indicam, atualmente, é que ele é mais fácil de ser transmitido, infectando mais pessoas com a doença. Em abril, um estudo internacional divulgado na revista Science, com participação do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), mostrou que a variante P.1 pode ser de 1,7 a 2,4 vezes mais transmissível do que outras variantes do novo coronavírus. Contudo, o estudo não cita nenhuma diferença em relação aos sintomas, à progressão ou à gravidade da doença.

A nota técnica da Fiocruz Amazônia indica que, em dezembro de 2020, os pesquisadores identificaram um possível caso de reinfecção de Covid-19. Eles realizaram o sequenciamento e no dia 13 de janeiro veio a confirmação de que o vírus analisado na amostra era uma nova variante, que foi denominada como P.1. Em março, um levantamento da Fiocruz afirmou que, de oito estados avaliados pela entidade, apenas dois não tiveram prevalência do P.1 superior a 50%. 


“A decisão da OMS em [23 de] janeiro foi de que não se decretasse uma situação de emergência de interesse internacional”
Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no dia 25 de maio de 2021

VERDADEIRO

Em 23 de janeiro do ano passado, a OMS anunciou que o novo coronavírus não era, naquele momento, uma emergência de saúde global. Na ocasião, o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que a situação era uma emergência na China, mas não no resto do mundo. Somente uma semana depois, no dia 30, a instituição considerou que a situação era uma emergência global.

Editado por: Chico Marés

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EXAGERADO
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