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Foto: Anderson Riedel/PR
Foto: Anderson Riedel/PR

Em pronunciamento, Bolsonaro distorce dados de vacinação no país e erra sobre BR-163

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
02.jun.2021 | 23h15 |

Em pronunciamento na noite desta quarta-feira (2), o presidente da República, Jair Bolsonaro, voltou a falar sobre ações do governo durante a pandemia de Covid-19, como o desenvolvimento e distribuição de vacinas, o auxílio-emergencial e a destinação de recursos a estados e municípios. Também falou sobre medidas aprovadas pelo Congresso Nacional e sobre realizações de seu governo na área de infraestrutura. A Lupa checou algumas das frases ditas pelo presidente. O Palácio do Planalto foi procurado para comentar, mas não respondeu até a publicação da checagem. 

“Hoje, alcançamos a marca de 100 milhões de doses de vacinas distribuídas a estados e municípios”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em pronunciamento na TV no dia 2 de junho de 2021

VERDADEIRO

Até 2 de junho, o Ministério da Saúde distribuiu 102.915.464 doses de vacinas para os estados. Nem todas essas doses já foram aplicadas. De acordo com informações do Localiza SUS, que reúne dados sobre a campanha de imunização contra a Covid no país, 68,9 milhões de doses foram aplicadas, sendo que 46,4 milhões correspondem à primeira dose. No total, 22,4 milhões de pessoas já foram vacinadas com as duas doses.


O Brasil é o quarto país que mais vacina no planeta”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em pronunciamento na TV no dia 2 de junho de 2021

VERDADEIRO, MAS

O Brasil é o quarto país do mundo em número de pessoas que receberam ao menos uma dose de vacina contra a Covid-19. Mas isso não quer dizer que o Brasil tenha a quarta melhor cobertura vacinal do mundo, já que é também um dos países mais populosos do planeta. Levando-se em consideração o número de pessoas vacinadas em relação à população total, o Brasil cai dezenas de posições no ranking de imunização.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a China tem 388,3 milhões de pessoas vacinadas — mas não há informações detalhadas sobre quantas receberam a vacinação completa. Segundo a plataforma Our World in Data, da Universidade de Oxford (que não contabiliza a China), a Índia e os Estados Unidos vacinaram 169,6 milhões e 168,5 milhões respectivamente. Em 1º de junho de 2021 (data da última atualização), o Brasil aparecia na lista com 45,94 milhões de pessoas que receberam ao menos uma dose de vacina.

Dos mais de 200 países e territórios cujas informações foram coletadas pelo Our World in Data, o Brasil ocupava a 79ª posição no ranking de pessoas que receberam ao menos uma dose proporcionalmente à população até 1º de junho. O Brasil já aplicou pelo menos uma dose da vacina contra a Covid-19 em 21,61% da população, segundo o Our World in Data. O percentual cai para 10,49% da população que já recebeu as duas doses.


“Ontem assinamos acordo de transferência de tecnologia para produção de vacinas no Brasil entre a AstraZeneca e a FioCruz (…)”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em pronunciamento na TV no dia 2 de junho de 2021

VERDADEIRO

Na última terça-feira (1º), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) assinou um acordo com a farmacêutica AstraZeneca para a transferência de tecnologia para a produção do  Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), insumo utilizado para a produção de vacinas contra a Covid-19. Assim, a instituição conseguirá produzir um imunizante contra o novo coronavírus sem depender da importação do IFA.

O processo de transferência de tecnologia está em andamento. Nesta quarta-feira (2), a Fiocruz recebeu materiais para a produção do IFA, e a equipe segue sendo treinada para realizar o trabalho. A previsão, segundo a Fiocruz, é de que as entregas comecem apenas em outubro.


“(…) Com isso [produção de IFA pela Fiocruz], passamos a integrar a elite de apenas cinco países que produzem vacina contra o Covid no mundo”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em pronunciamento na TV no dia 2 de junho de 2021

FALSO

Não são apenas quatro países que produzem, atualmente, vacinas contra Covid-19. Segundo a Unicef, atualmente, 37 países produzem vacinas localmente contra a doença, entre eles, o Brasil. 

O que a Fiocruz anunciou é que conseguirá produzir o IFA da vacina AstraZeneca no país, ou seja, o Brasil não dependerá da importação desses insumos para produzir esse imunizante, especificamente. Segundo reportagem do jornal O Estado de S.Paulo, apenas Rússia, China, Índia e Estados Unidos, atualmente, são autossuficientes na produção da vacina. 

Além disso, a produção do IFA e da vacina 100% nacional não começará imediatamente. Segundo a própria Fiocruz, a expectativa é que isso ocorra somente em outubro. Até lá, o Brasil seguirá dependente da importação de IFAs para a produção de imunizantes. A capacidade de produção mensal será de 15 milhões de doses por mês, segundo a instituição.


“Destinamos, em 2020, R$ 320 bilhões para o auxílio emergencial”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em pronunciamento na TV no dia 2 de junho de 2021

VERDADEIRO, MAS

Em 2020, o governo federal destinou R$ 321,8 bilhões para o pagamento do auxílio emergencial, de acordo com o balanço dos gastos com as medidas de enfrentamento à Covid-19 apresentado pelo Ministério da Economia em dezembro. No entanto, os dados do Portal da Transparência mostram que, até janeiro de 2021, a União gastou R$ 293,9 bilhões com o pagamento do benefício — cerca de 8% a menos do que o citado por Bolsonaro. 

No ano passado, foram pagas nove parcelas do auxílio emergencial para quem conseguiu se cadastrar nas diferentes fases do programa e atendeu às exigências. Inicialmente, houve cinco depósitos de R$ 600 cada um. No final do ano, o valor foi reduzido: foram feitos quatro pagamentos de R$ 300

O benefício foi suspenso e retomado em abril deste ano, com quatro parcelas nos valores R$ 150, R$ 250 ou R$ 375, dependendo da família. O Congresso aprovou um gasto máximo de R$ 44 bilhões com a prorrogação do benefício em 2021.


“Somente nos primeiros quatro meses deste ano, o Brasil criou mais de 900 mil novos empregos”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em pronunciamento na TV no dia 2 de junho de 2021

VERDADEIRO, MAS

No primeiro quadrimestre de 2021, foram abertas 957.889 vagas com carteira assinada, segundo dados do novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). De janeiro a abril, houve 6.406.478 contratações e 5.448.589 demissões, o que representa um saldo de 957 mil empregos.

No entanto, desde janeiro de 2020 o levantamento do Caged passou a incluir dados de trabalhadores temporários, que não eram contabilizados antes. Além da pesquisa realizada mensalmente com os empregadores, agora, o sistema puxa dados do eSocial (sistema do governo federal para unificar a escrituração fiscal e contábil das empresas) e do Empregador Web (sistema no qual são registrados pedidos de seguro-desemprego). Assim, o resultado do saldo de emprego fica diferente do que era obtido antes dessa mudança, e a comparação é inadequada. 

Especialistas afirmam que essas mudanças na coleta de dados levam à interpretação equivocada de aumento nos empregos formais. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados e Tecnologia da Informação de São Paulo, as vagas temporárias são para períodos de tempo curtos e, portanto, podem ser extintas, mudando rapidamente o panorama do emprego no Brasil. 

Vale pontuar ainda que, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, o Brasil tinha 14,8 milhões de desocupados no primeiro trimestre de 2021. Esse é o valor mais alto da série histórica, iniciada em 2012.


“Na infraestrutura, o nosso governo [vem] (…) terminando obras paradas há décadas, como a BR-163 no Pará”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em pronunciamento na TV no dia 2 de junho de 2021

FALSO

As obras da BR-163 no Pará não estavam paradas há décadas. A pavimentação de um trecho de 65 quilômetros da rodovia marcado por atoleiros, entre o distrito de Moraes Almeida, em Itaituba (PA), e Novo Progresso (PA), começou em 2017, por meio de um convênio firmado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e o 8º Batalhão de Engenharia e Construção do Exército. Ou seja, a iniciativa para a realização da obra foi do governo do então presidente Michel Temer (MDB).  

Um vídeo divulgado pelo Comando Militar da Amazônia no YouTube em 31 de outubro de 2017 fala sobre a pavimentação, que tinha previsão de entrega em fevereiro de 2020. O cronograma não foi cumprido. Um trecho de 51 quilômetros – ou seja, 14 quilômetros a menos do que o previsto inicialmente – foi inaugurado em fevereiro de 2020 por Bolsonaro. A segunda fase da obra foi iniciada naquele mês, e tinha previsão de estar concluída em agosto do ano passado.

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

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