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Nise Yamaguchi (Jefferson Rudy/Agência Senado)
Nise Yamaguchi (Jefferson Rudy/Agência Senado)

Na CPI da Covid, Nise Yamaguchi acerta sobre protozoários e vírus e cita informações falsas sobre lockdown e mortalidade

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
02.jun.2021 | 18h00 |

A médica Nise Yamaguchi prestou depoimento à CPI da Covid no Senado nesta terça-feira (1º) na condição de convidada ― por isso, não corria o risco de punição por não falar a verdade. Logo na fala de abertura da médica, o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) sugeriu o encerramento do depoimento para que Yamaguchi fosse convocada como testemunha, mas foi mantida sua participação na condição de convidada.

Ao longo do depoimento, a médica defendeu o “tratamento precoce” com cloroquina e hidroxicloroquina contra a Covid-19 e esquivou-se de responder sobre posicionamentos feitos no ano passado sobre a imunidade de rebanho e vacinação. Também negou fazer parte de um gabinete paralelo de aconselhamento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sobre a condução da pandemia.

Já foram ouvidos pela CPI o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, e os ex-ministros da Saúde Eduardo Pazuello, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, além do atual ministro, Marcelo Queiroga. O ex-chanceler Ernesto Araújo também prestou depoimento, entre outros.

A Lupa verificou algumas das declarações de Nise Yamaguchi. A reportagem contatou a assessoria de imprensa da médica a respeito das checagens e irá atualizar essa reportagem assim que tiver respostas. Confira a seguir o trabalho de verificação:

Eu nunca tive encontros privados com o presidente Bolsonaro.”
Nise Yamaguchi, médica oncologista e imunologista, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 1º de junho de 2021

FALSO

A agenda do presidente Jair Bolsonaro mostra que a médica Nise Yamaguchi teve pelo menos um encontro privado com ele. Eles se reuniram no dia 15 de maio de 2020, entre 10h45 e 10h55. A data coincide com a saída de Nelson Teich do cargo de ministro da Saúde, período em que Nise chegou a ser cotada para o posto.

Antes disso, ela já havia frequentado o gabinete presidencial, mas não sozinha. Em 6 de abril de 2020, participou de encontro ao lado de diversos ministros naquele momento: Braga Netto, Ernesto Araújo, Jorge Antonio de Oliveira, Augusto Heleno e outros. No dia seguinte, 7 de abril de 2020, ela teve uma agenda de uma hora com Bolsonaro, Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo; e o deputado Vitor Hugo (PSL-GO).


“Foi somente aquela reunião [em 6 de abril de 2020] onde eu participei desse comitê de crise e depois não houve necessidade, eles não formalizaram. Fui uma colaboradora eventual”
Nise Yamaguchi, médica oncologista e imunologista, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 1º de junho de 2021

FALSO

Além do dia 6 de abril de 2020, Nise Yamaguchi participou de outra reunião no Palácio do Planalto no dia seguinte, 7 de abril de 2020. Ela também teve uma agenda individual com o presidente Jair Bolsonaro no dia 15 de maio de 2020. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo de 27 de maio deste ano, documentos do Planalto entregues à CPI revelaram 24 reuniões do chamado “ministério paralelo”, e que Nise teria participado de pelo menos quatro delas.

Em uma dessas reuniões, em abril do ano passado, tratou sobre hidroxicloroquina, remédio que não tem eficácia comprovada contra a Covid-19. O presidente chegou a fazer postagens sobre a médica nas redes sociais para falar sobre o medicamento.

Em maio do ano passado, Nise admitia publicamente em entrevistas que tinha contato constante com o presidente Jair Bolsonaro.

Em 8 de setembro de 2020, Nise Yamaguchi voltou a participar de um encontro com Bolsonaro, desta vez como parte de um grupo de médicos que apoiam o uso de cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19 ― eles inclusive posaram sem máscara para a foto.


“Eu não posso me vacinar, porque eu tenho uma doença autoimune [vasculite]”
Nise Yamaguchi, médica oncologista e imunologista, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 1º de junho de 2021

FALSO

A Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) indica exatamente o contrário: recomenda que pessoas com doenças autoimunes sejam vacinadas contra a Covid-19, ainda que pondere que o momento mais apropriado para a imunização deva ser debatido entre o paciente e seu médico. Isso inclui todas as vasculites, doença da qual Nise Yamaguchi é portadora.

Drante o depoimento da médica, a SRB emitiu uma nota de esclarecimento sobre a imunização contra a Covid-19 em pacientes de doenças reumáticas, incluindo doenças autoimunes como artrite reumatoide, espondiloartrites, artrite psoriásica, lúpus eritematoso sistêmico, esclerose sistêmica (esclerodermia), síndrome de Sjögren primária, miopatias inflamatórias e vasculites. De acordo com o texto, essas condições “não representam, por si só, contraindicação específica para receber qualquer vacina” contra a Covid-19. Ressalta ainda que “todas as vacinas para Covid-19 disponíveis e aprovadas atualmente no Brasil são vacinas que não contêm componentes vivos e que não transmitem a doença viral, nem alteram o material genético”.

De acordo com o presidente da SRB, Ricardo Xavier, pacientes reumáticos têm potencialmente maior predisposição para apresentar “as formas mais graves da Covid-19 e  precisam ser protegidos”.


“A própria Organização Mundial de Saúde não sabia se devia fazer lockdowns absolutos, lockdowns horizontais”
Nise Yamaguchi, médica oncologista e imunologista, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 1º de junho de 2021

FALSO

Em janeiro de 2020, um mês depois dos primeiros casos da doença, o comitê de emergência da Organização Mundial de Saúde (OMS) recomendou que países promovessem o distanciamento social como providência para conter a disseminação do vírus. Em abril do ano passado, a entidade produziu um documento com orientações técnicas para contenção da pandemia e destacou a eficácia de medidas como “fechamentos” e “lockdowns” em casos determinados, apesar dos potenciais perigos para a economia e para a sociedade.

Esse posicionamento não mudou desde então. Na última atualização da OMS sobre essa medida, a entidade reforça que o distanciamento físico e o lockdown podem, sim, retardar a transmissão do Sars-CoV-2. Contudo, a entidade também reconhece, desde o início da pandemia, que essas medidas podem ter um impacto negativo em indivíduos, comunidades e sociedades.

Em outubro de 2020, uma frase do médico David Nabarro, enviado especial da OMS, foi distorcida durante entrevista para a revista britânica The Spectator para dar a entender que a organização tinha mudado de opinião sobre o lockdown. Na verdade, Nabarro reconheceu os impactos econômicos e sociais negativos desse tipo de estratégia. Na mesma entrevista, porém, ele destacou que essa medida é justificada em momentos de crise, para reorganizar os sistemas de saúde e proteger os profissionais que estão na linha de frente do combate à doença. Antes disso, em março, uma fala do diretor-geral da instituição, Tedros Adhanom Ghebreysus, foi tirada de contexto para sustentar uma peça de desinformação sobre o posicionamento da entidade.


“Por exemplo, no Amapá, nós temos um dos menores índices do mundo de mortalidade”
Nise Yamaguchi, médica oncologista e imunologista, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 1º de junho de 2021

FALSO

O Amapá não tem um dos menores índices de mortalidade por Covid-19 do mundo. Segundo o Ministério da Saúde, ocorreram 1.696 mortes pela doença no estado. Considerando a população estimada pelo IBGE, 861 mil pessoas, isso significa que a taxa de mortalidade é de 1.968 mortes por milhão de habitantes. Se o Amapá fosse um país independente, teria a 15ª maior taxa de mortalidade por Covid-19 no mundo, segundo a plataforma Worldometers. A média brasileira é ligeiramente mais alta: 2.164 mortes por milhão de habitantes.

O índice de letalidade, tampouco, é extraordinariamente baixo. O estado teve 112.122 casos da doença registrados. Ou seja, 1,5% das pessoas que contraíram a doença no estado morreram. Embora seja menor do que a média brasileira (2,8%) e mundial (2%), a proporção de mortos em relação ao número de casos da doença no Amapá é maior do que em 111 países. Essa informação falsa circulou nas redes sociais em janeiro.


Finalmente, agora, houve a admissão de que é melhor que não se trate [com hidroxicloroquina] os pacientes com doenças moderadas e graves.”
Nise Yamaguchi, médica oncologista e imunologista, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 1º de junho de 2021

FALSO

Desde junho de 2020, ou seja, há quase um ano, pesquisas sobre o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina para tratar a Covid-19 mostraram que esses medicamentos não tinham benefícios contra a doença. A própria OMS reconheceu, ainda em julho do ano passado, que esses fármacos não resultaram na redução da mortalidade de pacientes hospitalizados  com quadros grave e suspendeu o braço de hidroxicloroquina do Estudo Solidariedade, série de pesquisas padronizadas lançado pela organização para encontrar um tratamento eficaz contra o novo coronavírus.  

Em novembro de 2020, na atualização daquele mês sobre as potenciais opções terapêuticas contra o SARS-CoV-2 reunidas pela OMS, a organização avaliava que não existiam benefícios do antimalárico. A partir da análise de 31 estudos, a entidade também já falava sobre possíveis reações adversas. Antes disso, em julho de 2020, a Food and Drug Administration (FDA), nos Estados Unidos, também alertava sobre os efeitos colaterais da cloroquina e hidroxicloroquina

Em março de 2021, especialistas do Grupo de Desenvolvimento de Diretrizes da OMS consideraram que, por não haver evidências de eficácia, o antimalárico não seria mais prioridade de pesquisa.


Houve um anúncio inclusive das universidades europeias de que nós teríamos milhões de mortes até abril do ano passado. E na época já estava utilizando nos protocolos do Ministério da Saúde, em vários serviços utilizavam na época.”
Nise Yamaguchi, médica oncologista e imunologista, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 1º de junho de 2021

FALSO

Em março de 2020, ainda começo da pandemia, pesquisadores da universidade britânica Imperial College London usaram fórmulas matemáticas para simular — e não prever ou anunciar — possíveis desfechos da pandemia em vários países, incluindo o Brasil, em diferentes cenários: sem  intervenção, com mitigação (proteger os idosos e restringir apenas 40% dos contatos do restante da população) e com supressão (testar e isolar os casos positivos, e estabelecer distanciamento social para toda a população). No pior cenário previsto dentre cinco diferentes possibilidades, o número de mortos no país poderia chegar a 1.152.223 milhão até o final de 2020, não só até abril do ano passado. Esse cenário, no entanto, levou em consideração a hipótese de nenhuma medida de distanciamento social — o que não aconteceu. Estados e municípios adotaram a chamada quarentena em diferentes níveis em todo o país. 

Outros quatro cenários foram calculados para o Brasil: 627.047 mortes com medidas brandas distanciamento social de toda a população, 529.779 óbitos com essas mesmas medidas e o isolamento idosos, 206.087 com supressão tardia, isso é, lockdown somente quando o número de mortes fosse praticamente alto e, por fim, 44.212 falecimentos se o país adotasse testes, isolamento dos casos positivos e distanciamento de todos. De acordo com a modelagem feita pelo grupo, isso significa que a eficácia do isolamento mais amplo, e não o tratamento precoce, seria uma forma de reduzir a quantidade de mortes. Em 2020, 194.976 morreram de Covid-19 no Brasil.

A Universidade de Oxford também publicou um um estudo preliminar em março de 2020 em que projetou 478 mil mortes por Covid-19 no Brasil. Naquela ocasião, a simulação relacionou a composição etária da população, indicando que quanto mais velha, mais riscos. Após analisar as taxas de disseminação e mortalidade do vírus em várias nações, os pesquisadores encontraram, no caso brasileiro, dois problemas: um percentual relativamente alto de idosos e serviços de saúde precários


O Sars-Cov-1 já tinha tentativas de vacinas e já teve também a imunidade mensurada 15 anos depois e estava presente.”
Nise Yamaguchi, médica oncologista e imunologista, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 1º de junho de 2021

VERDADEIRO

Antes da pandemia, diversas instituições de saúde pesquisavam vacinas para o Sars-Cov-1, vírus que causa a Sars (Síndrome Aguda Respiratória Severa) e é bastante similar ao Sars-Cov-2. Em 2002, depois que uma epidemia provocada por esse micro-organismo, vários laboratórios em todo o mundo começaram as pesquisas para uma vacina. Em dezembro de 2003, por exemplo, pesquisadores da farmacêutica chinesa Sinovac Biotech, empresa que desenvolveu a vacina CoronaVac em parceria com o Instituto Butantan contra a Covid-19, realizou os primeiros testes de um imunizante contra o vírus

Outro coronavírus, o Mers-Cov, responsável pela epidemia da Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), foi identificado em 2012. Pesquisadores também se debruçaram em pesquisas para encontrar uma fórmula capaz de proteger a população desse vírus. De acordo com um artigo de revisão publicado na revista Infectious Diseases and Therapy sobre os esforços para o desenvolvimento de vacinas para coronavírus, o desenvolvimento da vacina contra a Mers, na época, pode ter sido atrasado devido, entre outras razões, ao baixo interesse de investimento, já que a doença produziu um número de casos relativamente baixos — 681 casos e 204 óbitos relatados pela OMS —  e geograficamente centralizados (Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes e Jordânia).

Ao todo, a ciência conhece sete coronavírus que afetam seres humanos, incluindo o Sars-Cov-2. Essa família foi isolada pela primeira vez em 1937, e recebeu esse nome em 1965. Os outros quatro vírus da família causam apenas um resfriados comuns.


“Os protozoários são organismos celulares, e os vírus são organismos que têm um conteúdo de DNA ou RNA”
Nise Yamaguchi, médica oncologista e imunologista, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 1º de junho de 2021

VERDADEIRO, MAS

Embora tenha usado termos mais simples do que os do senador Otto Alencar (PSD-BA), responsável pelo questionamento que levou a essa resposta, a definição usada por Nise Yamaguchi durante o depoimento está correta. Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, a palavra “organismo” pode ser usada como sinônimo de “conjunto de elementos materiais ou ideais organizados e inter-relacionados; sistema”. Ao contestar a resposta da médica, Alencar também se referiu aos vírus da mesma forma. “Os vírus são organismos que têm uma proteção proteica, capsídeo”, disse o senador. Tecnicamente, contudo, “organismo” não deve ser aplicado para descrever os vírus, pois estes não contêm órgãos em seu interior.

Os vírus não são considerados seres vivos. Trata-se de estruturas formadas basicamente por um conteúdo genético, que pode ser DNA ou RNA, e proteínas. Em alguns deles, esse conteúdo está envolvido por um envelope lipoproteico. Os vírus são parasitas celulares obrigatórios, ou seja, precisam invadir e usar células para se replicarem. Como não têm as mesmas estruturas presentes em células, o seu código genético não é corrigido quando há erros nesse processo de cópia. Com isso, é mais suscetível a mutações, que podem gerar variantes mais transmissíveis.

Já os protozoários são, de fato, organismos vivos formados por apenas uma célula. Eles possuem o núcleo localizado dentro de uma membrana, a carioteca, o que os torna seres mais avançados (eucariontes) do que os que têm o conteúdo genético espalhado pelo citoplasma, como as bactérias (procariontes). Entre os mais conhecidos estão Trypanosoma cruzi (causador da doença de Chagas), Plasmodium vivax (malária), Leishmania braziliensis (leishmaniose), Entamoeba histolytica (amebíase) e Giardia lamblia (giardíase).

Correção no dia 2 de junho de 2021, às 12h: Inicialmente a checagem foi publicada na Folha e S. Paulo com a etiqueta “verdadeiro”. Leitores alertaram, contudo, que, do ponto de vista técnico, os vírus não poderiam ser chamados de organismos. Para contemplar essa questão, o selo foi alterado para “verdadeiro, mas” – significa que a informação está correta, mas merece mais explicações, segundo a metodologia da Lupa. O texto também foi ajustado para incorporar melhor a definição técnica de vírus.

Editado por: Chico Marés

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