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#Verificamos: E-mails de Fauci não comprovam teoria da conspiração envolvendo Gates e Zuckerberg, nem ‘danos’ causados por máscaras

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
07.jun.2021 | 18h41 |

Circula pelo WhatsApp um vídeo em que um homem afirma que e-mails obtidos por ele comprovam que o vírus SARS-CoV-2 foi criado em laboratório. De acordo com o relato, o médico conselheiro da Casa Branca, Anthony Fauci, seria o “investidor” desse experimento. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

Mais de 3,4 mil páginas de e-mail — eu tenho todas, muita gente tem já. Troca de e-mail entre laboratório de Wuhan, Anthony Fauci, Bill Gates, Mark Zuckerberg, agência de fact-checking e outros agentes, virologistas… estão comprovados (sic) que esse vírus foi criado em laboratório. E que o doutor Fauci foi investidor para o ganho de função. O que é isso? O vírus tem um potencial destruidor natural. O ganho de função é o financiamento que ele fez pra tornar o potencial do vírus ofensivo para a humanidade.”

Trecho de vídeo que circula em grupos de WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Os e-mails que o homem no vídeo diz que “ele e muita gente já tem” são, na verdade, mais de 3.200 páginas de e-mail de Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, obtidas pelo BuzzFeed News via Freedom of Information Act (equivalente à Lei de Acesso à Informação brasileira). O site publicou todos os e-mails na internet e, portanto, qualquer pessoa pode ter acesso. O conteúdo foi integralmente divulgado no site e abrange os meses de janeiro a junho de 2020 — ou seja, apenas os primeiros meses da pandemia no país. 

Não há nenhum e-mail que comprove, ou mesmo que insinue, que Fauci, Bill Gates, Mark Zuckerberg tenham envolvimento com a suposta criação do vírus SARS-Cov-2 — cuja origem ainda não foi comprovada. O que existe, na verdade, são algumas conversas de Fauci com cientistas que acreditam que o vírus poderia ter sido desenvolvido em laboratório.  À época, os cientistas tentavam descobrir as origens do vírus, e Fauci discute algumas possibilidades com colegas.

Um exemplo é um e-mail enviado a Fauci pelo imunologista Kristian G. Andersen em 31 de janeiro de 2020. No contato, Andersen comenta uma reportagem que discute o trabalho desenvolvido por cientistas para descobrir a origem da Covid-19. Ele diz a Fauci que havia indícios de que uma pequena parte do genoma do vírus poderia ter sido manipulada em laboratório, mas que seria necessária uma análise mais detalhada para confirmar essa impressão. Fauci responde apenas “obrigado, conversarei com você em breve em uma chamada”. Meses depois da troca de e-mail, Andersen publicou artigo na revista Nature Medicine dizendo que as evidências atuais não apontavam para a manipulação genética. Essa conversa já foi usada como evidência em outro boato verificado pela Lupa.

Até hoje, a comunidade científica não tem uma resposta final sobre o assunto. No mês passado, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, deu 90 dias para que serviços de inteligência esclareçam se o coronavírus teve origem natural ou escapou de laboratório na China.

A teoria da origem natural é a mais aceita entre os cientistas, mas a hipótese de acidente ganhou força depois que o The Wall Street Journal divulgou um suposto relatório da inteligência norte-americana que afirmaria que três pesquisadores do Instituto de Virologia de Wuhan procuraram atendimento médico em novembro de 2019, um mês antes dos primeiros casos oficiais de Covid-19.

Uma das pesquisadoras do instituto, Shi Zhengli, esteve envolvida em pesquisas que buscavam manipular geneticamente novos vírus para potencializar sua força. Esse experimento, chamado de “ganho de função”, é uma forma de desenvolver pesquisas para prever e combater novas doenças. Entre os financiadores de projetos do Instituto de Virologia de Wuhan estão os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos. Em depoimento ao Congresso, Fauci negou que os recursos foram destinados a experimentos de ganho de função. O governo chinês nega que o vírus tenha escapado de laboratório.


 

“A máscara que você e eu utilizamos por um ano, danificando nosso próprio organismo, nunca resolveu nada. Mas não sou eu que estou dizendo. É o próprio e-mail do doutor Fauci com todo mundo. Ou seja, fomos condicionados, participamos como cobaias de um grande experimento.”

Trecho de vídeo que circula em grupos de WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O homem no vídeo distorce o conteúdo de um e-mail enviado por Anthony Fauci em 5 de fevereiro de 2020, ou seja, quando ainda havia poucas informações sobre as formas de infecção da Covid-19. Na época, o governo americano, assim como o Brasil e a Organização Mundial de Saúde (OMS), recomendavam o uso somente para profissionais de saúde e pessoas infectadas. Não há, nem nunca houve, nenhuma evidência científica de que o uso de máscaras “danifica o organismo”.

Em um dos e-mails divulgados pelo BuzzFeed News, Fauci conversa com outra pessoa sobre o uso de máscaras. Ele diz: “Máscaras são mais para pessoas infectadas evitarem espalhar a infecção do que para proteger pessoas de adquirirem a infecção. A máscara comum que você compra na farmácia não é realmente eficiente para evitar o vírus, que é pequeno o suficiente para passar pelo material. De qualquer forma, ela pode dar um pequeno benefício protegendo de partículas de saliva maiores, caso alguém tussa ou espirre em você. Eu não recomendo que você use máscara, particularmente porque você vai para um local de muito baixo risco”.

Fauci fez a mesma afirmação publicamente em outras ocasiões. Em fevereiro de 2020, a orientação do governo dos Estados Unidos ainda era de que as máscaras deveriam ser usadas somente por pessoas infectadas e profissionais de saúde. Naquele momento, temia-se a falta do equipamento para as equipes que estivessem na linha de frente do enfrentamento à pandemia. Essa posição mudou em 3 de abril de 2020, quando o governo passou a recomendar o uso de máscaras de pano a todos os norte-americanos. 

O Ministério da Saúde brasileiro mudou de orientação dias antes, em 1º de abril de 2020, passando a indicar o uso de máscaras para “qualquer pessoa”. A Organização Mundial da Saúde (OMS) só oficializou a mudança de posição em 5 de junho de 2020, quando anunciou que estudos atestaram a importância do uso de máscaras. Até então, a entidade afirmava que não havia evidências suficientes para recomendar seu uso entre pessoas saudáveis.

Ao longo da pandemia, circularam boatos de que o uso prolongado de máscara poderia causar um quadro clínico de insuficiência de oxigênio no sangue, ou que o gás carbônico respirado ao usar a proteção seria prejudicial à saúde. Ambas as informações foram checadas pela Lupa e são falsas. Não há evidências científicas que confirmem o “dano” ao organismo. Por outro lado, estudos comprovam que as máscaras são eficazes para conter a propagação do coronavírus — a proteção chega a 98%, no caso das máscaras PFF2. O Ministério da Saúde mantém a recomendação do uso de máscaras como forma de se proteger da Covid-19.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Chico Marés

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