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Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado
Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Na CPI da Covid, Queiroga cita dados falsos sobre infectados no Brasileirão e reuniões com Bolsonaro

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
09.jun.2021 | 18h00 |

Ministro da Saúde desde 23 de março, Marcelo Queiroga prestou um segundo depoimento à CPI da Covid no Senado nesta terça-feira (8). Ele reafirmou que a solução para acabar com a pandemia da Covid-19 é a vacinação e reforçou a importância de medidas de isolamento social e uso de máscaras. No entanto, evitou criticar atitudes do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ao causar aglomerações.

Diferentemente do depoimento anterior, quando evitou opinar sobre a eficácia da hidroxicloroquina contra a Covid-19, o ministro disse acreditar que o medicamento seja ineficaz, assim como a ivermectina. No entanto, pontuou que há polêmica sobre o assunto entre os médicos e que, por isso, submeteu o tema à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec). O ministro também defendeu a realização da Copa América no Brasil, dizendo que o risco é baixo desde que seguidos os protocolos.

Já foram ouvidos pela CPI a médica Nise Yamaguchi, o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, e os ex-ministros da Saúde Eduardo Pazuello, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. O ex-chanceler Ernesto Araújo também prestou depoimento, entre outros.

A Lupa verificou algumas das declarações de Marcelo Queiroga em seu segundo depoimento à CPI da Covid no Senado. A reportagem contatou a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde a respeito das checagens e irá atualizar essa reportagem assim que tiver respostas. Confira a seguir o trabalho de verificação:

“O Campeonato Brasileiro de Futebol aconteceu com mais de 100 partidas, dentro de um ambiente controlado, sem público nos estádios e houve apenas um caso positivo”
Marcelo Queiroga, ministro da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 8 de junho de 2021

FALSO

Ao menos 302 jogadores da série A do Campeonato Brasileiro 2020 foram infectados pela Covid-19, aponta um levantamento realizado por pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O número representa 48,3% dos atletas. O estudo não leva em conta membros da comissão técnica, da arbitragem e demais funcionários envolvidos nas partidas.

De acordo com o levantamento, o grupo apresentou um índice de infecção 13 vezes maior que a população em geral. Na avaliação do estudo, os clubes atuam como “centros superdisseminadores”. Dos 20 times na disputa, 7 tiveram ao menos 20 atletas infectados por Covid-19: Fluminense (26), Vasco (26), Palmeiras (24), Santos (22), Flamengo (21), Goiás (21) e Athletico-PR (20).

Em março, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) apresentou um relatório com resultados do protocolo sanitário implementado pela entidade em 2020 para realização das competições nacionais. A entidade concluiu que não houve evidências de contaminação cruzada em campo. Atletas e treinadores foram testados, em média, 72 horas antes das partidas. O secretário-geral da CBF, Walter Feldman, afirmou que o futebol é um ambiente “seguro, controlado, responsável e tem todas as condições de continuar”.


“[Falo] Diretamente com o presidente, despacho sempre com ele (…)”
Marcelo Queiroga, ministro da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 8 de junho de 2021

FALSO

Desde que assumiu o Ministério da Saúde, em 23 de março, ou seja, nos últimos 78 dias, Marcelo Queiroga teve apenas quatro reuniões diretas com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), de acordo com a agenda da presidência. Em duas delas (em 18 de maio e 4 de maio), não consta a participação de outras pessoas. Em 5 de abril, também esteve presente o secretário executivo do Ministério da Saúde, Rodrigo Cruz. No encontro de 26 de março, também participaram o ministro-chefe substituto da Casa Civil, Sérgio José Pereira; o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos; e o subchefe para Assuntos Jurídicos da Secretaria-Geral da Presidência, Pedro Cesar Sousa.

Nota-se também que fazia praticamente um mês que Queiroga não despachava com Bolsonaro quando se reuniu com ele no dia 4 de maio, antevéspera de seu primeiro depoimento à CPI da Covid no Senado, em 6 de maio.

Foram consideradas reuniões marcadas na agenda do presidente nas quais o ministro é citado diretamente na pauta. Não foram levados em conta, por exemplo, reuniões de gabinete, ou participação em eventos.


“(…) Pelo menos uma vez por semana eu estou com o presidente, especificamente para tratar sobre saúde ou em reuniões do ministério, que acontecem com certa frequência”
Marcelo Queiroga, ministro da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 8 de junho de 2021

EXAGERADO

Queiroga não participou de eventos com Bolsonaro em todas as semanas desde que assumiu o ministério. Na semana entre os dias 10 e 14 de maio, não há registro na agenda presidencial de qualquer evento com a participação dos dois. Em outras seis semanas, ele participou de apenas um encontro, alguns deles sem nenhuma relação com a área da saúde. Entre 19 e 23 de abril, por exemplo, o único encontro foi uma videoconferência com o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, em 20 de abril

Desde o dia 23 de março, quando assumiu o Ministério da Saúde, Queiroga teve 19 encontros de todo tipo com o presidente. Esse número inclui as cinco reuniões do Comitê de Coordenação Nacional para Enfrentamento da Pandemia da Covid-19. A primeira aconteceu em 31 de março, uma semana após a nomeação de Queiroga. A quinta reunião foi realizada em 2 de junho, semana passada.


“O Brasil no ranking mundial da Our World in Data é o terceiro país que mais aplicou a primeira dose de vacinas. Estados Unidos, Índia e Brasil”
Marcelo Queiroga, ministro da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 8 de junho de 2021

VERDADEIRO, MAS

De acordo com o ranking do Our World in Data, site da Universidade de Oxford que contabiliza diversos tipos de informação, inclusive sobre a vacinação contra a Covid-19, o Brasil é o terceiro país que mais aplicou ao menos a primeira dose do imunizante. O site não contabiliza os dados da China, o que faria o Brasil cair para a quarta posição. Além disso, o ranking citado fala em números absolutos. Quando considerados os números proporcionais à população, o Brasil cai para a 78ª colocação.

O país que aparece em primeiro lugar na lista do Our World in Data com mais pessoas que receberam ao menos a primeira dose é a Índia, com 185,5 milhões de pessoas. Na segunda posição ficam os Estados Unidos, com 171,31 milhões. O Brasil aparece em terceiro, com 48,8 milhões. Os dados da Índia e dos Estados Unidos são do dia 7 de junho e os do Brasil, do dia 6. No entanto, a China foi o país que mais aplicou doses da vacina no mundo, com 634,1 milhões em 8 de junho, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Contudo, não há detalhamento de quantas pessoas receberam apenas a primeira dose e quantas receberam a segunda. Assim, o país não foi listado pelo Our World in Data, pois não é possível saber quantas pessoas receberam alguma dose.

Mas nada disso significa que o Brasil tenha a quarta melhor cobertura vacinal do mundo, já que é também um dos países mais populosos do planeta. Levando-se em consideração o número de pessoas vacinadas em relação à população total, o Brasil cai dezenas de posições no ranking de imunização.

Dos mais de 200 países e territórios cujas informações foram coletadas pelo Our World in Data, o Brasil ocupava a 78ª posição no ranking de pessoas que receberam ao menos uma dose proporcionalmente à população até 6 de junho. O Brasil já aplicou pelo menos uma dose da vacina contra a Covid-19 em 22,96% da população, segundo o Our World in Data. O percentual cai para 10,77% da população que já recebeu as duas doses e está completamente vacinada.


“82% dos indígenas tomaram a primeira dose e 71% dos indígenas tomaram a segunda dose”
Marcelo Queiroga, ministro da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 8 de junho de 2021

VERDADEIRO

De acordo com informações do Ministério da Saúde de 7 de junho, 82% da população indígena recebeu ao menos a primeira dose da vacina contra a Covid-19 e 71% recebeu as duas doses necessárias para a imunização completa. Com isso, 333.391 indígenas já receberam ao menos uma dose da vacina. Já estão com a imunização completa 288.892 indígenas, de uma população total de 408.232.


“Os exames RT-PCR que são requeridos para a entrada de cidadãos desses países da Copa América ocorrem normalmente, independente de futebol. Qualquer cidadão da Argentina, do Equador e dos países da Copa América entra no Brasil com o exame de RT-PCR”
Marcelo Queiroga, ministro da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 8 de junho de 2021

VERDADEIRO, MAS

A Portaria nº 654/2021, publicada pelo governo federal em 28 de maio de 2021, determina que todo viajante internacional, brasileiro ou estrangeiro, deve possuir um teste RT-PCR negativo realizado até 72 horas antes do momento do embarque. No entanto, especialistas alertam que o RT-PCR pode falhar nas fases iniciais de infecção, mesmo com a alta sensibilidade do teste. Na chamada fase de incubação do vírus, que antecede os sintomas, a taxa de falsos negativos chega a 68%, segundo a Fiocruz.

A portaria editada pelo governo federal exige que o teste seja apresentado à companhia aérea e esteja nos idiomas português, espanhol ou inglês. Crianças e tripulantes estão dispensados dessa regra em alguns casos. Portarias sobre esse tema vêm sendo editadas desde o início da pandemia, mas o trecho que exige o teste RT-PCR negativo só foi incluído em dezembro, após recomendação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

A mesma portaria proíbe estrangeiros de ingressar no país por meios terrestres e aquaviários, exceto pela fronteira com o Paraguai. Neste caso, o teste RT-PCR não é exigido.


“Nós já temos resultados [da vacinação]: redução de mortes dos idosos”
Marcelo Queiroga, ministro da Saúde, em depoimento na CPI da Covid no Senado no dia 8 de junho de 2021

VERDADEIRO

Um estudo preliminar realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) identificou que a proporção de mortes de pessoas de 80 anos ou mais caiu pela metade após o início da vacinação no Brasil. O levantamento, divulgado na plataforma medRxiv, considerou dados do Ministério da Saúde de 3 de janeiro a 22 de abril.

De acordo com os pesquisadores, a queda brusca da proporção de mortes, mesmo em meio à alta do número de casos no período analisado, está associada à escalada da vacinação entre a faixa etária pesquisada. Profissionais da saúde e idosos foram os primeiros grupos a serem imunizados contra a Covid-19 no Brasil.

Durante o ano de 2020, as mortes de pessoas de 80 anos ou mais se mantiveram no patamar de 25% a 30% das registradas por Covid-19 no país. No fim de abril, esse percentual já havia recuado para 13,1% — a menor taxa já registrada para esse grupo durante toda a pandemia, segundo o estudo.

Ainda segundo o cálculo dos pesquisadores, apenas no período analisado, a vacinação teria evitado a morte de 13,8 mil brasileiros de 80 anos ou mais.

Editado por: Chico Marés

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