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#Verificamos: Vídeo distorce pesquisa sobre infância e pornografia publicada pela Unicef

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
11.jun.2021 | 17h51 |

Circula pelas redes sociais um vídeo em que um homem mostra uma pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) sobre o uso da internet por crianças. O autor lê e interpreta alguns trechos do documento e sugere que a Unicef teria afirmado que “pornografia não gera danos comprovados às crianças” e que “um pouco de pornografia faz bem”, entre outros pontos. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“UNICEF & PORNOGRAFIA

Nesse vídeo vou te mostrar os principais trechos do estudo que a Unicef tirou do ar para que NINGUÉM tivesse acesso (só que eu encontrei, li, analisei e salvei antes que eles deletassem) onde eles:
– informam que Pornografia não gera danos comprovados às Crianças.
– relativizam o conceito de Pornografia para defender a liberação do acesso a  mconteúdo sexual por crianças.
– divulgam estudos onde CRIANÇAS foram expostas a material PORNOGRÁFICO;
– querem retirar o controle eletrônico de acesso por crianças a conteúdo pornográfico;
– fomentam a autonomia das crianças em acessar conteúdo sexual na internet.

Veja esse absurdo com teus próprios olhos! (…)”

Vídeo que circula no Instagram que, até as 14h30 de 10 de junho de 2021, tinha mais de 228 mil visualizações 

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. As interpretações feitas pelo autor do vídeo distorcem trechos de um artigo publicado em abril deste ano pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). O texto aponta os efeitos nocivos da exposição de crianças a imagens sexuais, aborda segurança digital e, além da pornografia, discute também o acesso delas a jogos de azar, jogos online e redes sociais. Diferentemente do que sugere a gravação, em nenhum momento o artigo sugere que se deve deixar as crianças terem acesso a conteúdos pornográficos porque “não podem ter limitação” de acesso a conteúdos online; o texto tampouco afirma que “um pouco de pornografia faz bem”, como interpreta o autor da publicação. Em nota, a entidade informou que seu posicionamento é “inequívoco” e que “nenhuma criança deve ser exposta a conteúdo pornográfico nem a qualquer outro conteúdo nocivo online e offline”.

O vídeo destaca três partes do documento, nas páginas 32, 35 e 37, e apresenta interpretações equivocadas de cada uma delas. Ao citar, na página 32, um trecho do capítulo sobre “Quais são os riscos para as crianças que as ferramentas de garantia de idade podem ajudar a mitigar e quais as evidências de danos causados por esses riscos”, o autor conclui que a Unicef teria sugerido que, “na dúvida, deixe as crianças terem acesso a conteúdos pornográficos”. Mas não é isso que o artigo afirma. Na verdade, nessa página o texto menciona o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (ICCPR, na sigla em inglês), que defende a liberdade de expressão e que tanto crianças quanto adultos têm direito à proteção contra interferência arbitrária e ilegal de sua privacidade. Dessa forma, discute o texto, crianças não deveriam ser excluídas de qualquer ambiente online sem evidências de que isso seja necessário. 

Vale pontuar que nesse capítulo são alvos de discussão os jogos de azar, jogos online e redes sociais, além de pornografia. Os autores afirmam ainda que há pouca regulamentação ou consenso em todo o mundo sobre o que é realmente prejudicial para crianças no universo online, tampouco existem definições objetivas do que é e é não apropriado para crianças em diferentes contextos sobre conteúdo, jogo ou redes sociais. 

Ao ler um trecho da página 35, o autor diz que a Unicef quer “transformar pornografia em material de educação sexual”. O que também não procede. Em nenhum momento o documento faz essa afirmação. Nessa parte, o texto fala sobre as diferentes definições legais sobre pornografia em todo o mundo. Também cita que os conteúdos digitais sobre educação sexual mais acessados por crianças incluem canais no YouTube, aplicativos e sites e que “grande parte desses conteúdos pode ser classificado como ‘pornografia’ em certos contextos: se fosse restrito por idade, isso poderia negar às crianças o acesso a materiais educacionais sobre sexualidade”. Essa menção discute as diferentes formas de se entender educação sexual e pornografia ao redor do mundo. Não se trata, portanto, de um compromisso assumido pelo Fundo. 

No capitulo seguinte (página 37), o texto destaca que “existem vários tipos diferentes de riscos e danos que foram associados a exposição das crianças à pornografia, mas não há consenso sobre o grau de qual pornografia é prejudicial às crianças”. Em seguida, afirma que alguns estudiosos e defensores argumentam que o acesso à pornografia em uma idade jovem está ligada a problemas mentais, sexismo, objetificação e agressão sexual. Também menciona que existem evidências conflitantes sobre como muitas crianças em todo o mundo estão acessando pornografia online e com que frequência.

Ainda segundo o artigo, alguns estudos descobriram que os meninos são mais propensos a ter maior exposição a pornografia mais cedo, e eles são mais propensos a serem expostos a violência ou imagens abusivas, como estupro, enquanto as meninas são mais propensas a estarem sujeitas a exposição involuntária.

Outra parte do texto que foi distorcida pelo autor do vídeo é sobre a menção ao relatório 2020 EU Kids Online, na página 37, estudo realizado com 25 mil crianças em 19 países europeus. Os pesquisadores perguntaram a elas como se sentiram após ver imagens sexuais online. A maioria das crianças declarou ter ficado “nem chateada e nem feliz” (variando de 27% na Suíça para 72% na Lituânia). Entre 10% e 4% declararam ter ficado bastante ou muito chateadas. E entre 3% (na Estônia) e 39% (na Espanha) relataram sentir-se felizes depois de ver as imagens. 

Essa pesquisa foi feita com crianças de 9 a 17 que usam internet em países da Europa. Não foi feita pela Unicef e, sim, pela EU Kids Online Network, organização que realiza pesquisas e busca aprimorar o conhecimento sobre oportunidades, riscos e segurança online para crianças europeias. Além disso, esses jovens não foram expostos a conteúdos pornográficos, como sugere o vídeo, para depois serem entrevistados. Na verdade, os participantes da faixa etária selecionada responderam a um questionário com vários tipos de perguntas e cada país escolheu perguntas opcionais de acordo com as suas preferências.  

Entre outros pontos, o documento diz que, do ponto de vista dos direitos, seria necessário extremo cuidado para evitar a exclusão de crianças de informações online sobre saúde sexual e reprodutiva, porque educação sexual, incluindo recursos para educação LGBTQ, pode ser classificada como pornografia em alguns contextos.

Embora possa ser encontrado em outras páginas, o documento de fato foi tirado do site da Unicef porque, segundo a organização, “alguns trechos levaram a interpretações incorretas”. O Fundo informou que a intenção é “oferecer soluções e abordagens para reduzir a exposição das crianças a conteúdo nocivo e, por isso, o texto foi tirado do ar para que fossem realizados os ajustes necessários”. 

Conteúdos similares também foram verificados pelo Fato ou Fake e Estadão Verifica.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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