Tem certeza que deseja sair da sua conta?
Crédito: Mika Baumeister, Unsplash
Crédito: Mika Baumeister, Unsplash

Desinformação sobre máscaras aumentou depois que Bolsonaro defendeu a desobrigação de seu uso

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
24.jun.2021 | 10h00 |

No dia 10 de junho, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) anunciou que o Ministério da Saúde publicaria um parecer para desobrigar o uso de máscara por pessoas já vacinadas ou recuperadas da Covid-19. No mesmo dia, na tradicional live realizada todas as quintas-feiras, o chefe do Executivo também contrariou as recomendações de autoridades sanitárias do mundo todo e defendeu mais uma vez que a peça não fosse obrigatória. O discurso contrário repercutiu diretamente nos conteúdos falsos que passaram (e voltaram) a circular sobre esse item essencial de prevenção contra o novo coronavírus. Um levantamento feito pela Lupa mostrou que entre o dia 10 e 16 de junho, ou seja, uma semana após a fala de Bolsonaro, máscaras foram o tema de pelo menos 1.300 posts e geraram 389.410 interações. Um grande número desses conteúdos, que viralizaram tanto nas redes sociais quanto em grupos de WhatsApp, era falso.

Em 10 grupos bolsonaristas no Facebook observados pela reportagem, circularam mais de 280 publicações sobre o assunto exatamente nos dias seguintes às falas do presidente. Vale destacar que, juntos, esses grupos contam com mais de 2,5 milhões de integrantes.

Em uma dessas comunidades, por exemplo o Grupo Bolsonaro 2022, com 643,8 mil membros, publicações elogiaram a decisão e reverberam peças de desinformação dizendo que as máscaras não são eficazes na mitigação da pandemia, e que podem ser danosas ao organismo. Nada disso é verdade. As máscaras mostraram-se efetivas contra a Covid-19 porque bloqueiam fisicamente a inalação de partículas virais que estejam em suspensão no ambiente. Ao utilizar a peça, a pessoa impede que sejam expelidas as gotículas e, com isso, a transmissão do vírus é bloqueada. Tampouco existem malefícios associados ao uso da peça. Como já explicado pela Lupa, não existe, até o momento, qualquer evidência de que a máscara prive o organismo de oxigênio e, com isso, cause danos ao organismo.

O aumento de informações falsas sobre o assunto fez com que a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Academia Nacional de Medicina (ANM) se pronunciassem. No dia 16 de junho, publicaram uma nota conjunta em “resposta a muitas dúvidas geradas nos últimos tempos por posturas negacionistas”. No texto, as entidades afirmaram que “as máscaras são fundamentais, mesmo que você tenha sido vacinado ou já tenha sido contaminado pelo coronavírus, pois você pode propagá-lo e até mesmo ser contaminado por novas variantes”.

Comparação com Estados Unidos   

Os conteúdos sobre máscara que mais circularam foram sobretudo de comparações com outros países que já desobrigaram a máscara em locais públicos, como os Estados Unidos e Israel, por exemplo. No grupo #Fechado com Bolsonaro, do qual fazem parte 225,8 mil membros, publicações questionaram o fato de que “ninguém chamou Joe Biden de genocida” quando ele anunciou que pessoas com vacinação completa não precisam mais usar a peça. No entanto, um especialista da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) ouvido pela Lupa ressalta que esse tipo de comparação não é válida.

“Nos Estados Unidos já existem estados onde mais de 70% das pessoas estão vacinadas. No Brasil ainda estamos longe disso”, observou o infectologista Igor Thiago Queiroz. De acordo com o médico, essa medida de proteção é necessária até que pelo menos 70% ou 80% da população brasileira esteja completamente imunizada, ou seja, tenha recebido duas doses. Até 21 de junho, apenas 11,5% da população brasileira tinha sido completamente vacinada.

“É preciso lembrar que as vacinas, em geral, protegem contra casos graves da Covid-19. Isso significa que, mesmo vacinada, uma pessoa pode ser contaminada pelo coronavírus, desenvolver um quadro leve e ser uma fonte de disseminação na sociedade. Você pode estar infectado e transmitindo o vírus e nem saber”, salientou Queiroz.

Políticos bolsonaristas passaram a usar a mesma estratégia de comparação para apoiar a liberação do item. No dia 11 de junho, o deputado federal Carlos Jordy (PSL-RJ), por exemplo, publicou uma crítica à imprensa sobre o assunto, também comparando a iniciativa do presidente brasileiro com a do presidente norte-americano, Joe Biden. Esse conteúdo teve 8,5 mil compartilhamentos.

Conteúdos sobre máscara verificados pela Lupa

Desde o começo da pandemia, a Lupa publicou pelo menos 30 verificações sobre o uso de máscaras. Exatamente há um ano, em junho de 2020, uma reportagem já alertava sobre o aumento no número de conteúdos desinformativos sobre a peça e como ela passou de um item de proteção a “vilã”.  Até mesmo conteúdos que já haviam sido desmentidos no ano passado voltaram a viralizar e gerar dúvidas na população. É o caso do boato de que máscaras privam o organismo de oxigênio e causam doenças neurodegenerativas — o que não é verdade. 

Para a epidemiologista e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Alexandra Boing, é fundamental que as medidas de prevenção não sejam ainda flexibilizadas. “As vacinas, apesar dos bons resultados contra as formas graves, não impedem completamente a infecção, ou seja, as pessoas podem desenvolver a doença. Pode ocorrer escape vacinal. A pessoa imunizada também pode não desenvolver a doença, mas transmitir o vírus”, disse.

A médica também destacou que o Brasil vive alta transmissão e tem percentual reduzido de pessoas vacinadas. “Um grupo reduzido da sociedade vacinada não vai fazer a Covid-19 ir embora e nem oferecer toda a proteção possível a quem se vacinou, pois ainda haverá muitos suscetíveis para o vírus continuar circulando e que ainda aumenta o risco do aparecimento de uma variante ainda mais perigosa. Então, é preciso que todos usem máscara e mantenham todas as medidas de prevenção não farmacológicas contra o coronavírus até que o Brasil consiga atingir alta cobertura vacinal”, concluiu.

Procurado pela Lupa, o deputado federal Carlos Jordy (PSL-RJ) afirmou, por e-mail, que “a única questão que havia no post era de que o Presidente dos Estados Unidos desobrigaria o uso de máscaras para vacinados e o Presidente Bolsonaro também se manifestou nesse sentido”. Segundo ele, “os dados não podem ser analisados por estado, mas no país inteiro, e, nos Estados Unidos, 50% da população está vacinada. Não há dados que possam comprovar que 30%, 50% ou 100% de vacinados sejam números mais ou menos efetivos para que haja uma medida como a não obrigatoriedade de máscaras”. E concluiu a mensagem afirmando que “a única certeza é que pessoas vacinadas estão livres do vírus e podem ficar sem máscaras, ou ao menos, aqueles vacinados com vacinas que não acompanham a mutação do vírus, como a CoronaVac, estão imunes da cepa inicial”. Como explicado acima, não é verdade que pessoas vacinadas estão totalmente imunes ao vírus.

Editado por: Chico Marés

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

A Lupa está infringindo esse código? Clique aqui e fale com a IFCN

 

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo