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#Verificamos: Vídeo que mostra gotas flutuando no ar é de experimento sem relação com vacina ou 5G

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
15.jul.2021 | 14h28 |

Circula pelas redes sociais um vídeo em que supostamente o líquido de uma vacina contra a Covid-19 flutua no ar sob a “frequência 5G”. Em tom de conspiração, o texto da postagem acusa a vacinação em massa de ser uma tentativa de criar um sistema de rastreamento daqueles que forem imunizados. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“😨 Esta é a frequência 5G 32Ghz
Ela será utilizada de alguma forma segundo muitos vazamentos, denúncias de cientistas para “rastrear” os que receberam a 💉.
Por isso hoje, grande parte dos v**cinados são reconhecidos como um sinal de Wifi.
🤔 Mas enquanto isso não estiver perfeito em pleno funcionamento, eles estarão inserindo a necessidade de novas doses até que todos estejam perfeitamente conectáveis! […]”
Legenda de vídeo que, até 13h do dia 15 de julho de 2021, havia sido visualizado por 425 usuários no Instagram

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O vídeo não tem nenhuma relação com vacinas, e foi publicado originalmente em 29 de novembro de 2020 por David Villafranca, um jovem espanhol que constrói diversos projetos eletrônicos, no Instagram. Como explicado na publicação, a gravação mostra gotas de um líquido não identificado suspensas no ar por levitação acústica.

Como já explicado pela Lupa em outras checagens, não é possível inserir artefatos capazes de transmitir 5G — quinta geração de rede de internet móvel — em vacinas. Os menores aparelhos com essa tecnologia, chamados de beacons, dependem de antenas e baterias, e seu tamanho está na casa de alguns poucos centímetros.

Levitação acústica

O vídeo foi publicado por Villafranca em seu Instagram, onde ele apresenta diversos experimentos usando a técnica de levitação acústica para suspender gotas de leite e pedaços de isopor. Ao fundo, inclusive, é possível observar o mesmo tecido que aparece no vídeo da suposta vacina levitando.

Essa técnica consiste em usar ondas sonoras ultra-sônicas, ou seja, em frequências inaudíveis para seres humanos, para manter pequenos objetos suspensos no ar. “Basicamente, a ideia é utilizar o som para levitar algo em ar”, explica o professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) Marco Aurélio Brizzotti Andrade. Para ele, não há dúvidas de que o vídeo apresenta um experimento de levitação acústica. 

A técnica utiliza uma onda sonora inaudível aos ouvidos humanos. “Existe a faixa audível, cuja frequência varia de 20 hertz até 20 mil hertz, e tudo acima disso a gente chama de ultrassom. Então, apesar de ser chamada de ‘levitação acústica’, talvez o termo mais correto seria ‘levitação ultrassônica’”, explica o pesquisador.

O experimento é formado por um conjunto de emissores em cima e embaixo, que vão gerar ondas em sentidos opostos. “Quando uma onda que está indo para baixo encontra com uma indo para cima, isso gera o que a gente chama de onda estacionária, que tem umas posições de mínima pressão acústica. Nelas é possível aprisionar pequenas partículas”, ilustra Andrade.

De acordo com o professor, é possível suspender gotas líquidas, pequenos objetos e até insetos. Uma das possibilidades de aplicação prática da técnica é a realização de microrreações químicas no ar, sem ter contato com o tubo de ensaio, que pode afetar seu resultado. “Por enquanto, é mais utilizada em pesquisas, mas em um futuro não muito distante é possível que chegue à indústria ou à sociedade de alguma maneira.”

A rede 5G e a levitação acústica têm em comum a utilização de ondas para seu funcionamento, mas Andrade ressalta que são tipos de ondas diferentes. “Tecnologias como o 5G e o wi-fi utilizam ondas eletromagnéticas, com uma característica física totalmente distinta da onda sonora. A onda sonora, que é mecânica, precisa de um meio material para se propagar. A eletromagnética pode se propagar no vácuo ou no ar.”

Seguindo instruções disponíveis na internet, Andrade afirma que é possível construir seu próprio experimento de levitação acústica. O professor aparece explicando o assunto com mais detalhes neste vídeo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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Os dados são mais graves do que a informação
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