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Usina hidrelétrica Itaipu Binacional, em Foz do Iguaçu (PR). Crédito: arquivo, assessoria de imprensa Itaipu
Usina hidrelétrica Itaipu Binacional, em Foz do Iguaçu (PR). Crédito: arquivo, assessoria de imprensa Itaipu

Crise energética no Brasil: o que mudou nos últimos 20 anos

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
19.jul.2021 | 08h00 |

Em 2021, o Brasil registrou a pior crise hidrológica em 91 anos. As consequências do baixo volume de chuvas atravessam vários setores (da agricultura à oferta de água para grandes cidades) e impactam diretamente a geração de energia. Um levantamento feito pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico mostrou que, nos últimos sete anos, os reservatórios das hidrelétricas — responsáveis pela maior parte da energia gerada no Brasil — receberam um volume de água inferior à média histórica. Com esse cenário, o fantasma do apagão, que há exatos 20 anos fez brasileiros racionarem eletricidade, deixou de ser uma mera lembrança e voltou a assombrar. Dessa vez, com uma diferença: dependemos um pouquinho menos da água para gerar energia. Mas ainda dependemos.

Em maio deste ano, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico do Ministério de Minas e Energia, em razão da estiagem, deliberou sobre a necessidade de acionar usinas termelétricas para que fosse possível abastecer o país. Vale pontuar que termelétricas são mais poluentes e mais caras. No final de junho, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aumentou em 52% a parcela da conta que paga pelo funcionamento dessas usinas. Consequentemente, o consumidor final também paga mais caro na conta de luz. Contudo, se no ano de 2001 as usinas movidas a petróleo (diesel), carvão mineral ou gás natural eram a única saída, em 2021 o país pode contar com complexos eólicos e até biomassa para gerar eletricidade.

“Algumas usinas termelétricas que estavam sem operar há muito tempo, mas ainda ativas, começaram a aparecer e a operar nas últimas semanas. Por enquanto, num curto prazo, não tem o que fazer. Estamos errando, mas talvez não tão feio como há 20 anos”, avalia o professor Mauricio Uriona Maldonado, do Departamento de Engenharia de Produção e Sistemas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), especialista em difusão de energias renováveis.

A Lupa fez um levantamento das fontes de geração de energia no Brasil, pesquisou o que mudou nos últimos 20 anos e investigou por que as gerações eólica e solar, consideradas mais sustentáveis, também são controversas.

A crise de 2001

Em 2001, cerca de 85,6% de toda a energia no Brasil era gerada em hidrelétricas (298,6 TWh de um total de 348,9 TWh). Naquele ano, o país enfrentou uma estiagem histórica e a consequente baixa no nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas culminaram no apagão energético. Na época, penúltimo ano de dois mandatos consecutivos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) como presidente do país, a falta de planejamento no setor e a ausência de investimentos em geração e distribuição de energia foram apontados como as principais causas das dificuldades.

“O problema é que o país colocou todas as fichas numa única fonte. Confiamos demais que a hidrelétrica sempre seria confiável e dificilmente teríamos seca prolongada. A energia termelétrica foi sendo deixada como um plano ‘B’, mas poucas pessoas pensavam que, eventualmente, precisaríamos desse plano ‘B’ outra vez”, afirma Maurício Uriona Maldonado, da UFSC.

A crise atual

Com a estiagem em nível recorde este ano, o Brasil voltou a se preocupar com medidas de racionamento e com o risco de um novo apagão. Passadas duas décadas, porém, as fichas da geração de energia foram diversificadas. Um relatório do Ministério de Minas e Energia em parceria com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) mostrou que, em 2020, a dependência das hidrelétricas caiu para 65,2%. O principal motivo é o aumento da capacidade de produção de outras fontes: biomassa (9,1%), eólica (8,8%), gás natural (8,3%), carvão e derivados (2,7%), nuclear (2,2%), derivados de petróleo (2,1%) e solar (1,7%). 

“O cenário mudou bastante. Em 2001, esse valor era de 85%. De lá para cá, houve muito investimento em fontes renováveis, mais sustentáveis, além da manutenção das usinas térmicas que dão segurança ao sistema”, explica o professor do departamento de Ciências da Administração da UFSC, André Luís da Silva Leite, especialista em desempenho, regulação e competição do setor elétrico brasileiro.  

Segundo ele, apesar de o Brasil ter elevado potencial hidrelétrico, a dependência dessa fonte continua sendo arriscada. “Nos últimos 20 anos, houve diversificação das fontes de energia, especialmente de fontes renováveis, como eólica e fotovoltaica. A crise de energia atual, por falta d’água, decorre mais por uso ineficiente da água, ainda nosso principal insumo, no ano anterior, do que apenas por poucas chuvas. É uma lição para aprendermos”, pontuou o especialista.

Tentando reduzir a dependência

Ainda que o total de energia gerada no país por hidrelétricas tenha caído de 85% em 2001 para 65% em 2020, o nível de dependência das usinas hidrelétricas ainda é alto, avaliam especialistas. “De certa maneira, mesmo com esse avanço, há ainda uma visão pouco diversificada na matriz. Ainda se privilegia a fonte hidrelétrica”, afirma o professor Maurício Uriona Maldonado, da UFSC.

O boletim mais recente do Operador Nacional de Sistema Elétrico mostrou que, em 15 de julho, 14,3% da energia gerada no Brasil foi proveniente de usinas eólicas. Essa fonte produz energia a partir do vento: turbinas eólicas convertem a energia cinética do vento em energia mecânica e, por fim, em eletricidade. Vale pontuar que o incentivo a fontes renováveis de energia, como a eólica, por exemplo, só começou em 2002, um ano depois do fatídico apagão, por meio do Programa de Incentivo às Fontes Alternativas (Proinfa), criado pela Lei nº 10.438/2002.

“O Brasil é um dos países com maior potencial para fontes renováveis de energia do planeta. Logo, as opções de diversificação da matriz aqui são sustentáveis”, observa o professor André Luís da Silva Leite, da UFSC. Um exemplo é a própria evolução da quantidade de energia gerada pelo vento. Em 2006, essa fonte era praticamente inexpressiva no Brasil: apenas 199 megawatts (MW) de potência. Uma década depois, o país era o 10º maior produtor do mundo. Em 2020, foram gerados 15.023 MW e o Brasil alcançou o oitavo lugar no ranking de produção de energia eólica do mundo. 

A energia solar, em contrapartida, representou apenas 1,26% do total gerado no Brasil em 15 de julho de 2021. “É importante entender que não existe uma bala de prata. Uma única fonte não vai nos livrar das preocupações. Há 20 anos, era importante acelerar. E de fato se avançou em relação à fonte eólica e solar. Mas e o que pode ser feito agora? O grande problema da energia solar e da eólica, do ponto de vista da segurança energética, é que ambas são fontes intermitentes, ou seja: a fotovoltaica só gera durante o dia. Já a eólica pode gerar o dia inteiro, porém, é à noite que se tem mais ventos. Muitas vezes não compensa nem ligar as usinas durante o dia”, pondera o professor Maurício Uriona Maldonado.

Uma fonte também alternativa e renovável que em 2020 foi a segunda principal geradora de energia foi o biogás (9,1%), ou biomassa. Essa energia é produzida a partir dos gases gerados na decomposição de matéria orgânica, como bagaço de cana-de-açúcar, restos de alimentos e até excremento animal, entre outros. “Há muitos projetos no Brasil nesse sentido. Uma fábrica no Paraná, por exemplo, usa seus resíduos para gerar biogás em vez de aterrá-los. Com isso, conseguem dar conta do consumo interno de eletricidade. Se houvesse uma maneira de incentivar ainda mais o biogás, poderia substituir o gás natural, um combustível fóssil que emite gases como o CO2 e NH4, nocivos para a atmosfera”, diz Mandonado.

Segundo o professor, os leilões da Aneel podem e devem ser usados como instrumentos de política para incentivar o acesso dos investidores a energias renováveis. 

Controvérsias das fontes renováveis

Quando se começou a discussão sobre mudanças climáticas e teve início também um movimento mundial para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, os combustíveis fósseis, como petróleo e gás natural, viraram inimigos. No contexto da geração de energia, os olhos do mundo se voltaram para as fontes energéticas não emissoras desses gases nocivos para o planeta. O desafio, contudo, é que toda forma de gerar energia tem, inevitavelmente, algum tipo de impacto ambiental.

As hidrelétricas, por exemplo, consideradas fontes renováveis — a intensidade média de emissão de gases de efeito estufa é de 18,5 gCO2-eq / kWh (gramas de dióxido de carbono equivalente por quilowatt-hora), uma taxa excepcionalmente baixa, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) —, podem modificar ecossistemas onde são instaladas e impactar socialmente a população. “Principalmente na hora de iniciar um projeto, uma usina hidráulica afeta muito a fauna, a flora, as comunidades que vivem no entorno”, ressalta Maldonado.

As usinas eólicas, que usam a força do vento para gerar eletricidade, também têm um lado negativo. Se por um lado não geram gases nocivos para o planeta, os “cataventos” gigantes, alguns com até 150 metros de altura e pás giratórias de até 30 metros, interferem na vida de aves e morcegos (que se chocam contra as estruturas e morrem) que, por sua vez, controlam pragas. De acordo com pesquisadores da Universidade Federal do Ceará, os complexos eólicos afetam a composição geoambiental onde são instalados e causam danos sociais para as comunidades vizinhas. A durabilidade dos componentes dos aerogeradores também é alvo de críticas, uma vez que necessitam de manutenção e esses materiais, muitas vezes, não são recicláveis. 

Da mesma forma, a matéria-prima usada na fabricação dos painéis fotovoltaicos que captam a luz solar e a transforma em eletricidade, como o silício, é purificada num método que impacta negativamente o ambiente: desmonte de maciços rochosos e terrosos, poluição da água pela mineração, emissão de poeiras e gases devido à perfuração de rochas, entre outros. 

“O que se tem feito, por meio de pesquisa e desenvolvimento, é buscar novas tecnologias, mas isso só o tempo trará”, afirma o professor André Luís da Silva Leite. Para Mauricio Uriona Maldonado, um fator decisivo seria deixar a cadeia da geração de eletricidade, ou seja, da construção até a operação e a manutenção, o mais limpa possível. “Por exemplo, umas das estratégias que países estão adotando são as chamadas gerações híbridas. Você gera energia solar durante o dia e aproveita esse espaço físico para ter aerogeradores eólicos à noite. Afinal, se você já desmatou um pedaço de terra, pelo menos aproveita ao máximo o que esse espaço oferece”, sugere o professor.

Especificamente no caso da fonte solar, o grande ponto negativo é a distribuição. Trata-se, no entanto, de uma alternativa relativamente simples de ser aplicada num contexto menor, como o telhado de uma casa, por exemplo. Nos últimos dois, três anos, começaram a aparecer grandes usinas solares, que funcionam como um complexo eólico, porém, em vez de aerogeradores, são instalados painéis fotovoltaicos. São os chamados campos solares que, assim como os parques eólicos e usinas hidrelétricas, interferem no ecossistema onde são instalados. Especialistas sugerem que essas usinas sejam construídas em áreas já degradadas ou contaminadas, como mineradoras desativadas, por exemplo, como forma de solucionar a demanda.

Editado por: Maurício Moraes

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