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Bolsonaro mente ao apresentar ‘provas de fraude’ nas eleições de 2014 e 2018

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
21.jul.2021 | 19h45 |

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a citar informações falsas ao falar sobre a segurança das urnas eletrônicas nesta quarta-feira (21). Em entrevista para a rádio Jovem Pan News Itapetininga, Bolsonaro questionou a eficácia desses equipamentos e disse que houve fraude em 2014, quando a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e o então senador Aécio Neves (PSDB) disputaram o cargo, e em 2018, quando venceu a disputa. Também falou sobre o sistema eleitoral em outros países e errou ao comentar sobre o tipo de aparelho utilizado no Paraguai. A Lupa verificou essas declarações. O presidente foi contatado, e a reportagem será atualizada caso ele queira se pronunciar. Confira as checagens:

“Então, por 231 vezes, ganhava Aécio, ganhava Dilma, ganhava Aécio (…) Esse então é o indício mais forte da probabilidade de o sistema não ser seguro”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em entrevista para a rádio Jovem Pan News Itapetininga no dia 21 de julho de 2021

FALSO

A interpretação da totalização dos votos da eleição presidencial de 2014 feita por Bolsonaro parte de dados falsos. O indício de fraude citado pelo presidente tem como base as conclusões de um vídeo que circula pelo WhatsApp desde 2018. A então candidata a deputada federal Naomi Yamaguchi (PSL-SP) gravou o depoimento de um homem não identificado que dizia ter descoberto irregularidades na soma dos votos realizada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante a corrida presidencial de 2014.

Ao se debruçar sobre os dados informados minuto a minuto pelo órgão ao longo da apuração, o homem teria encontrado um suposto padrão alternado de incremento de votos entre Dilma Rousseff e Aécio Neves que teria se repetido 241 vezes seguidas — o que, diz o entrevistado, não seria possível de ocorrer de maneira espontânea, mas apenas por meio de um algoritmo. É como se, em um determinado minuto, Dilma crescesse mais que Aécio, no minuto seguinte Aécio crescesse mais que Dilma, e essa alternância supostamente se mantivesse ao longo de 241 minutos, ou mais de quatro horas. Seria a prova de que os números do TSE não eram reais e de que o pleito foi fraudado.

Essa alternância de padrões, contudo, nunca existiu. Dados do TSE, levantados em 2018 pela Agência Pública, mostram que não houve um padrão intercalado, como diz Bolsonaro. Na verdade, nos primeiros minutos de apuração, Aécio recebia mais votos que Dilma em praticamente todas as parciais. Por volta das 18h15, esse padrão se inverteu, e a petista passou a aparecer na frente na maioria das parciais. Essa informação também foi verificada pela Lupa no dia 12 de julho

Esse padrão não é um indicativo de fraude. Em 2018, por causa do horário de verão, os estados do Sul e Sudeste, onde Aécio teve vantagem sobre Dilma, encerraram a votação uma hora antes que os estados do Nordeste, onde Dilma venceu. Em 2018, o TSE já havia negado a veracidade da suposta fraude apontada no vídeo.


“[Em 2018] Foi projetada uma imagem na televisão. (…). Mostrava lá, números aproximados, 80% do Nordeste apurado, 20% do Sudeste. As demais regiões, Sul, Centro-Oeste e Norte, em torno de 50% apurado. Me dava 49%”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em entrevista para a rádio Jovem Pan News Itapetininga no dia 21 de julho de 2021

FALSO

Às 19h de 7 de outubro de 2018, quando os resultados do 1º turno para presidente começaram a ser divulgados, o país já registrava mais da metade das urnas apuradas. Isso porque o TSE só permite a divulgação das parciais a partir do momento em que a votação termina em todas as regiões do país. Ainda que as urnas no Acre também tenham sido fechadas às 17h locais, à época, o estado estava com uma diferença de fuso de duas horas em relação ao horário de Brasília.

A primeira parcial divulgada por volta das 19h no Fantástico, da TV Globo, de fato, colocava Bolsonaro com 49,02% dos votos válidos. Até aquele momento, 53,49% das urnas haviam sido apuradas. No entanto, o ritmo da apuração nas cinco regiões do país era bem diferente daquele que o presidente menciona à Jovem Pan. Até então, o Sul era a região mais adiantada, com 85,38% das urnas apuradas, seguido pelo Centro-Oeste (73,51%), Norte (48,02%), Nordeste (43,93%) e Sudeste (10,99%). 

Dessa forma, não é possível que depois das 19h, quando os resultados já estavam sendo televisionados, o Nordeste tivesse 80% dos votos apurados enquanto o Sul tivesse apenas 50%.

A partir daquele momento, a vantagem de Bolsonaro iria cair até o então candidato atingir 46,03% dos votos válidos.

De fato, como o presidente menciona, a apuração no Sudeste, onde obteve a maior vantagem sobre Fernando Haddad (PT), estava em um ritmo mais lento. No entanto, a queda pode ser explicada pelo ritmo de apuração mais lento também em regiões menos favoráveis a Bolsonaro, já que ainda havia mais da metade das urnas no Norte — onde Bolsonaro acabou seis pontos percentuais à frente de Fernando Haddad (PT) — e no Nordeste, onde perdeu de 51% a 26%. No Sul e no Centro-Oeste, naquele momento mais adiantados, Bolsonaro obteve vantagem de mais de 35 pontos percentuais em relação ao candidato petista.

Vale pontuar, ainda, que os dados referentes a São Paulo e Minas Gerais foram inseridos manualmente pela Rede Globo, segundo documento oficial do TSE sobre essa questão.


“Por que que mantêm preso o hacker lá em Minas Gerais que teria invadido o sistema eleitoral do Supremo?”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em entrevista para a rádio Jovem Pan News Itapetininga no dia 21 de julho de 2021

FALSO

Ao contrário do que afirma Bolsonaro, o hacker Marcos Roberto Correia da Silva, também conhecido como Vandathegod, não foi preso por invadir o “sistema eleitoral do Supremo”, até porque isso sequer existe. Marcos Roberto foi preso pela Operação Deepwater da Polícia Federal, de forma preventiva, por, supostamente, ter disponibilizado dados sigilosos de pessoas físicas e jurídicas em um fórum de internet.

O hacker foi alvo de busca e apreensão na Operação Exploit, referente à invasão do sistema do TSE em 2020. Contudo, a rede invadida continha somente informações administrativas, e não tinha relação alguma com a apuração dos votos. Ou seja, ele não invadiu nenhum “sistema eleitoral”. Nessa ocasião, ele não foi detido.

Ao realizar a Operação Deepwater este ano, a Polícia Federal afirmou que Marcos Roberto divulgou uma “amostra” de uma base de dados referentes a 223 milhões de brasileiros — como o número inclui pessoas mortas, supera a população total do país —, e pedia dinheiro para fornecer as informações completas. Ao todo, foram cumpridos cinco mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão preventiva durante a ação. As ordens judiciais foram expedidas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, a pedido da PF. 

Marcos Roberto também é acusado de invadir os sistemas do STF, o que ocorreu em maio deste ano e ainda segue em investigação pela Polícia Federal, do Senado, da Polícia Civil de Minas Gerais, do Ministério Público de Minas Gerais, do Tribunal de Justiça de Goiás e do Exército Brasileiro, todos esses investigados na Operação Defaced da PF.


“O Paraguai aboliu isso [o uso de urnas eletrônicas brasileiras]”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em entrevista para a rádio Jovem Pan News Itapetininga no dia 21 de julho de 2021

VERDADEIRO, MAS

O Paraguai usou um modelo antigo das urnas eletrônicas brasileiras, emprestado pelo TSE, entre 2001 e 2007. A experiência começou como um projeto-piloto nas eleições municipais de 2001, em apenas 1,5% das sessões eleitorais. Em 2003, o equipamento esteve presente nas eleições gerais em 45,83% das sessões. Depois, foi usado em disputas partidárias e municipais que ocorreram em 2006 e 2007. Por causa de questionamentos sobre o uso de máquinas incapazes de imprimir um comprovante de voto, os aparelhos deixaram de ser utilizados nas eleições posteriores, que voltaram a ser manuais. Em 2016, 17 mil máquinas foram devolvidas e destruídas no Brasil, por adotarem tecnologia defasada.

Auditorias realizadas nas urnas brasileiras, no entanto, não identificaram nenhum problema nos equipamentos nas eleições em que foram usados no Paraguai. Em 2006, por exemplo, o país sorteou 60 aparelhos, substituiu a votação pelo modo manual e, no final do processo, os votos das cédulas foram “cantados” e inseridos na máquina. Não houve nenhuma diferença entre o resultado apurado e o boletim da urna. O mesmo processo ocorreu em 2007, também sem erros identificados, segundo reportagem publicada pelo Tribunal Superior de Justiça Eleitoral (TSJE) do Paraguai na época. “Não desconhecemos que houve dúvidas e críticas, mas reforçamos que não houve denúncia formal ou prova concreta sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas”, disse, em 2006, o ministro Alberto Ramirez Zambonini, na época presidente do TSJE.


“O Paraguai tem a urna com o voto impresso do lado”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em entrevista para a rádio Jovem Pan News Itapetininga no dia 21 de julho de 2021

FALSO

O Paraguai voltou a usar um sistema digital de votação nas eleições internas simultâneas de 20 de junho deste ano e repetirá o processo nas eleições municipais previstas para o dia 10 de outubro. As características adotadas foram definidas pela Lei nº 6318/2019, que exigiu a existência de uma versão impressa do voto de cada eleitor (artigo 3º). O país, no entanto, não adota mais nenhum tipo de urna eletrônica, e sim uma outra tecnologia, a máquina eletrônica de votação. Ao se utilizar esses aparelhos, os votos não são armazenados em um arquivo digital. Logo, os equipamentos não funcionam como uma urna, e o sistema utilizado não é comparável ao dos aparelhos brasileiros.

Para usar uma máquina de votação, o eleitor recebe uma cédula especial. O papel contém um chip com tecnologia RFID (Identificação por Rádio Frequência), capaz de registrar dados. Ele insere manualmente o papel na lateral do aparelho e, em seguida, toca na tela para escolher os seus candidatos. Quando tiver terminado, aperta em “Confirmar e imprimir”, para que os dados sejam impressos na cédula e gravados digitalmente no chip. É possível aproximar o papel de um sensor para conferir, na tela do equipamento, se os candidatos escolhidos foram registrados corretamente no chip da cédula, e também ver se a impressão do voto nesse papel está correta. Por fim, a cédula é depositada em uma urna convencional. A apuração ocorre com a leitura digital de cada um dos votos.  


“Só o Butão, Bangladesh e Brasil têm esse sistema [de urnas eletrônicas sem impressão do comprovante]”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em entrevista para a rádio Jovem Pan News Itapetininga no dia 21 de julho de 2021

VERDADEIRO, MAS

Em junho deste ano, um levantamento feito pela Folha de S.Paulo indicou que Brasil, Butão e Bangladesh são os únicos países que adotaram em seu sistema eleitoral urnas eletrônicas sem registro em papel em todo o país. Existem, contudo, outros países que utilizam urnas eletrônicas sem impressão, mas não em todo o território nacional.

Na Índia, por exemplo, o voto é eletrônico, mas há voto impresso em algumas urnas selecionadas aleatoriamente. Na França, há seções com voto eletrônico, sem impressão, e seções com voto de papel, assim como na Rússia. Nos Estados Unidos, o voto eletrônico existe em alguns estados. Na maioria deles, a urna imprime o voto, mas em uma minoria o voto é totalmente eletrônico.

Segundo o levantamento do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (Idea, na sigla em inglês), ao menos 27 de 178 países utilizam algum tipo de tecnologia eletrônica em suas eleições. Desses, 16 usam urnas eletrônicas.

Editado por: Chico Marés

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