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#Verificamos: Oposição à vacina contra a Covid-19 não tem relação com mortes de presidentes da Tanzânia, Haiti e Burundi

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
22.jul.2021 | 15h42 |

Circula pelas redes sociais um meme que, em tom de conspiração, estabelece uma relação entre a “morte inexplicável” dos presidentes da Tanzânia, Haiti e Burundi e uma suposta recusa em receber a vacina da Covid-19 em seus países. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Tanzânia, Haiti e Burundi
3 países recusaram a vacina do Covid
Agora todos os 3 têm seus presidentes mortos inexplicavelmente”
Texto em imagem publicada no Facebook que, até 15h do dia 22 de julho de 2021, fo compartilhada por mais de 300 pessoas

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Pierre Nkurunziza, ex-presidente do Burundi, morreu em junho do ano passado e não chegou a tratar publicamente da questão da vacina contra a Covid-19. Apesar de ter uma postura negacionista internacionalmente conhecida, não há evidências de que a morte de John Magufuli, da Tanzânia, tenha qualquer relação com a recusa dos imunizantes. No Haiti, as investigações do assassinato de Jovenel Moise não parecem estabelecer associação entre sua morte e a gestão da pandemia.

Burundi

Em 8 de junho de 2020, o então presidente do Burundi, Pierre Nkurunziza, morreu em decorrência de um ataque cardíaco, informaram as autoridades locais. Ele tinha 55 anos e estava à frente do país da África Central desde 2005. À época havia a suspeita, jamais confirmada, de que seu falecimento se deu em decorrência de complicações da Covid-19 após um suposto internamento de sua esposa pela doença.

Até então, Nkurunziza vinha sendo criticado pela postura negacionista em relação à pandemia, negando-se a impor medidas de restrição de circulação e permitindo a realização de comícios e eventos esportivos. Além disso, após ser acusado de ocultar casos de coronavírus, o governo do Burundi determinou a expulsão de quatro funcionários da Organização Mundial da Saúde (OMS) que atuavam no país. Autoridades locais teriam declarado que os burundeses não precisavam se preocupar com a pandemia por estarem “protegidos por Deus”.

Apesar de ignorar as orientações de especialistas, não há evidências de declarações públicas em que Nkurunziza tenha feito oposição à vacina, até porque morreu meses antes da conclusão dos estudos de qualquer imunizante contra Covid-19, nem de que sua morte esteja relacionada à postura negacionista.

Vale pontuar, ainda, que Nkurunziza estava no final de seu mandato na data de sua morte, e seu sucessor, Evariste Ndayishimiye, já estava eleito e assumiria o governo em agosto. O novo presidente, que teve a posse adiantada, inicialmente prometeu medidas para frear a pandemia, mas nos últimos meses tem dito que as vacinas contra a Covid-19 não são totalmente efetivas e que efeitos colaterais de longo prazo ainda são conhecidos. Burundi e a Eritreia são os únicos no continente africano a continuar negando o imunizante.

Oficialmente, o governo reconhece oito mortes e 5.996 casos de Covid-19 no país.

Tanzânia

Em 17 de março de 2021, a então vice-presidente da Tanzânia Samia Suluhu anunciou a morte de John Magufuli, de 61 anos, por problemas cardíacos. O ex-presidente estava à frente do país da África Oriental desde 2015 e também era criticado pela postura negacionista. Após seu súbito desaparecimento de eventos públicos que durou 18 dias, rumores também sugeriam que ele havia contraído a Covid-19, o que o governo negou.

As cartilhas seguidas pelo burundês Nkurunziza e por Magufuli tinham diversos pontos em comum. O tanzaniano chegou a declarar que o país estava supostamente livre da Covid-19 em junho de 2020, banindo testagens e diagnósticos da doença, além de ter pedido orações para que o coronavírus se afastasse, já que o vírus “não consegue sobreviver no corpo de Cristo, é eliminado instantaneamente”.

Sem apresentar evidências, Magufuli declarou ainda que as vacinas contra a Covid-19 poderiam ser prejudiciais para os tanzanianos, sugerindo o uso de inalação e ervas medicinais para combater a doença — o que não têm qualquer efeito comprovado. “Se o homem branco fosse capaz de criar vacinas, então já deveria ter encontrado uma vacina contra a Aids, câncer e tuberculose”, disse.

Não há qualquer evidência de que a morte de Magufuli tenha relação com o fato de ter “recusado” ou ter feito oposição às vacinas contra a Covid-19.

Sucessora de Magufuli e atual presidente, Suluhu tem tido uma postura mais baseada em evidências científicas, abrindo centros de testagem e usando máscaras em aparições públicas. Em junho, o governo solicitou as vacinas a que tem direito gratuitamente pelo consórcio Covax Facility, além de ter anunciado um contrato para a aquisição de outros imunizantes. Entretanto, os números da pandemia no país continuam sendo pouco transparentes.

Haiti

Na madrugada de 7 de julho de 2021, o então presidente haitiano Jovenel Moise foi morto a tiros após um grupo de homens fortemente armados invadir sua casa, na capital Porto Príncipe. Até o momento, pouco se sabe sobre as motivações do atentado. No entanto, as investigações apontam para indícios de uma disputa de poder que não teria qualquer relação com a aquisição de vacinas contra a Covid-19.

O Haiti, que fica em uma ilha no Caribe, tem uma história de permanente instabilidade política e econômica. Desde o início do ano, ondas de protestos contra o governo pediam a renúncia de Moise, alvo de acusações de corrupção. Em meio à instabilidade, oposição e presidente divergiam sobre a data de término de seu mandato — ele tomou posse um ano depois do esperado, depois que os resultados do pleito de 2015 foram anulados. A recusa a deixar o poder também foi um fator importante para as manifestações.

Moise dissolveu o Parlamento em janeiro de 2020 e, desde então, comandava o país por decreto.

O país foi o último país das Américas a começar a imunização contra a Covid-19. No entanto, à época do assassinato de Moise, o Haiti já aguardava a doação de 130 mil doses por meio do consórcio Covax Facility. Inicialmente, o governo de Moise teria se negado a receber doses da Astrazeneca, citando supostos efeitos colaterais, mas mudou de ideia com o aumento de casos nos últimos meses. Na sexta-feira (16), o país começou a vacinação. O Haiti registra, até o momento, 510 mortes e 19.563 casos de Covid-19.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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