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No Roda Viva, Ricardo Nunes cita informações falsas sobre ameaças à mulher e desvios em creches

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
27.jul.2021 | 20h07 |

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), falou sobre a situação atual do município ao ser entrevistado pelo programa Roda Viva, da TV Cultura, nesta segunda-feira (26). Ele assumiu o cargo após a morte de Bruno Covas (PSDB), em maio. Nunes respondeu sobre alguns dos projetos da prefeitura, como a reabertura do Vale do Anhangabaú, e também sobre sua suposta ligação com pessoas investigadas pelo desvio de verbas em creches. Ele negou a existência de um boletim de ocorrência por ameaça registrado por sua mulher, Regina Carnovale, em 2011. A Lupa checou algumas declarações do prefeito. Confira:

“Ela [Regina Carnovale, mulher do prefeito Ricardo Nunes] fez a contratação de um advogado para solicitar na delegacia esse documento, que não existe”

Ricardo Nunes (MDB), prefeito de São Paulo, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, no dia 26 de julho de 2021

FALSO

Em novembro do ano passado, uma reportagem da Folha de S.Paulo divulgou o boletim de ocorrência (B.O.) feito por Regina Carnovale, mulher do prefeito Ricardo Nunes, no qual ela relatava ter recebido ameaças do marido. O documento foi emitido em 18 de fevereiro de 2011 pela 6ª Delegacia da Mulher, em Santo Amaro (SP). Em carta enviada à Folha em 2020, Regina admitiu ter registrado o boletim, mas disse que acabou dizendo “coisas que não são reais”.

No documento, Regina relata que teria se separado de Ricardo por “ciúme excessivo”. “Relata Regina que Ricardo, inconformado com a separação, não lhe dá paz, vem efetuando ligações proferindo ameaças, envia mensagens ameaçadoras todos os dias e vai em sua casa onde faz escândalos e a ofende com palavrões. Afirma a vítima que diante da conduta de Ricardo está com medo dele”, diz o boletim. Os dois reataram o relacionamento. 

O caso ressurgiu no ano passado, durante as eleições municipais, quando Nunes concorreu como vice-prefeito de Bruno Covas. Na época, Regina voltou a aparecer ao lado de Ricardo, desta vez negando ter feito o (B.O.) em 2011. Em entrevista ao Estado de S. Paulo, ela disse o seguinte: “Não sei se apagou da minha memória porque eu estava muito nervosa”. Ricardo, por sua vez, também nega ter realizado as ameaças relatadas no B.O.

A reportagem procurou Nunes, mas não teve resposta.


“Primeiro que a matéria que foi feita [sobre desvios de recursos em creches para empresas de fachada] não teve repercussão em nenhum outro meio jornalístico”

Ricardo Nunes (MDB), prefeito de São Paulo, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, no dia 26 de julho de 2021

FALSO

Reportagens sobre o suposto envolvimento de Nunes em um esquema da “máfia das creches terceirizadas” foram publicadas por diversos jornais, desde 2019, e não em apenas um, como diz o prefeito. No final de 2020, durante o período eleitoral, o nome do então candidato a vice-prefeito foi citado em textos publicados nos jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, Valor Econômico e Gazeta do Povo, entre outros. Grupos ligados ao prefeito são acusados de participarem do desvio de recursos públicos.

Segundo as investigações, o esquema de desvio ocorreria da seguinte forma: a prefeitura envia o dinheiro para uma entidade conveniada realizar o pagamento de despesas das creches (como aluguel e alimentação, por exemplo), porém o dinheiro é desviado por empresas terceirizadas, não chegando ao seu destino final.

A primeira reportagem sobre o caso citando o nome do prefeito foi publicada em setembro de 2019, pela Folha, quando Nunes ainda era vereador. “Nomeados na representação, dois vereadores da zona sul, Ricardo Nunes (MDB) e Rodrigo Goulart (PSD), por exemplo, são muito próximos da Sobei (Sociedade Beneficente de Interlagos)”, dizia o texto. “Nunes é ex-conselheiro da entidade e hoje atua como voluntário”. A Sobei é uma das entidades que teriam participado do esquema.

Em 9 de outubro de 2020, a Folha voltou a publicar reportagem sobre o assunto. Uma das entidades mencionadas no caso é a Associação Amiga da Criança e do Adolescente (Acria), ligada ao prefeito e cliente da Fênix Assessoria Contábil, que em setembro do ano anterior tinha sido alvo de busca e apreensão pela Polícia Civil. A Gazeta do Povo também publicou reportagem sobre esse caso.

Em 26 de outubro de 2020, o Estado de S.Paulo publicou reportagem sobre uma empresa da família de Nunes que recebeu R$ 50 mil de creches conveniadas. Esse fato foi repercutido pela Folha, Gazeta do Povo e iG. Outros veículos, como o Valor Econômico, publicaram reportagens resumindo as acusações.

Durante os debates nas eleições municipais, o candidato Guilherme Boulos (PSOL) questionou Bruno Covas sobre a escolha do vice. Ele mencionou que Nunes era conhecido no esquema da máfia das creches. Na época, Covas defendeu o então vereador. Nas redes sociais, Boulos também disse em outras ocasiões que o vice do candidato do PSDB estaria “escondido”, por causa da sua ligação com entidades e pessoas acusadas de desvios de recursos destinados às creches conveniadas.

A reportagem procurou Nunes, mas não teve resposta.


“Nós tivemos quase 8 mil pessoas participando [da elaboração do Plano de Metas]”

Ricardo Nunes (MDB), prefeito de São Paulo, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, no dia 26 de julho de 2021

EXAGERADO

O balanço final divulgado pela prefeitura sobre as discussões do Plano de Metas 2021-2024 afirma que 7.089 cidadãos participaram dos debates. O número citado por Nunes é 14% maior do que o que foi registrado pelo município. Esse dado, no entanto, leva em consideração o total de pessoas que assistiram às audiências por meio do aplicativo Microsoft Teams, usado pela prefeitura, e pelo YouTube. A consulta pública ocorreu entre os dias 10 de abril e 10 de maio deste ano. São contadas as presenças até esta data.

Se for analisada a participação efetiva dos moradores da cidade na discussão das propostas, o número é bem menor do que o citado pelo prefeito: 1.356 pessoas se inscreveram para falar nesses eventos, e apenas 610 conseguiram, de fato, se pronunciar nas 36 audiências realizadas. A prefeitura informa ainda que foram registradas 4.744 sugestões por meio da plataforma Participe+, mas não especifica quantas pessoas fizeram essas propostas de alterações e acréscimos ao plano.

A reportagem procurou Nunes, mas não teve resposta.


“Nós adquirimos 506 mil tablets [para alunos da rede municipal]”

Ricardo Nunes (MDB), prefeito de São Paulo, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, no dia 26 de julho de 2021

VERDADEIRO, MAS

Embora a prefeitura de São Paulo tenha adquirido 506 mil tablets para alunos dos ensinos infantil e fundamental em agosto de 2020, menos da metade dos dispositivos havia sido entregue até o final de junho deste ano. O pregão para a compra dos aparelhos, vencido pela Multilaser, só foi encerrado em outubro de 2020, enquanto o da aquisição dos chips para acesso à internet, da Oi e Claro, terminou em janeiro. Os aparelhos foram adquiridos com o objetivo de garantir o ensino remoto durante a pandemia da Covid-19. Até 30 de junho deste ano, apenas 200 mil dispositivos haviam sido distribuídos para os alunos – ou seja, 39,5% do total previsto.

O número de tablets entregues foi confirmado pelo próprio prefeito, em entrevista a jornalistas naquela data. “Queremos dar uma condição de acesso à internet para todos os alunos da nossa rede. A prefeitura adquiriu 506 mil tablets. Hoje chegamos à marca de entrega de 200 mil tablets e ainda entregamos 48,5 mil notebooks para os professores, com acesso à internet e material pedagógico. Até agosto concluiremos a entrega de todos os 506 mil tablets e, depois, dos 48,5 mil notebooks em São Paulo”, prometeu Nunes.

Em 26 de abril deste ano, o juiz Luís Antonio Nocito Echevarria, da 9ª Vara da Fazenda Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo, determinou que a prefeitura entregasse todos os tablets e chips em dez dias. “(…) Passados mais de cinco meses, mesmo diante da situação de urgência para efetivação do direito ao acesso à educação, não houve distribuição dos equipamentos contratados aos alunos da rede pública municipal”, escreveu em sua decisão, em resposta a uma ação movida pela Bancada Feminista do PSOL na Câmara Municipal. Em 10 de maio, contudo, o desembargador Nogueira Diefenthäler suspendeu a determinação de Echevarria. Ele atendeu à justificativa da prefeitura de que precisava de tempo para configurar e testar os equipamentos.

Parte dos tablets recebidos até o momento não tem os chips necessários para garantir o acesso à internet, como revelou reportagem do UOL. Com isso, uma parcela dos equipamentos permanece guardada, sem condições de uso.

A finalidade para a qual os aparelhos foram adquiridos também deixará de existir em breve. A partir de 2 de agosto, a prefeitura da capital paulista anunciou a retomada das aulas presenciais para 100% dos estudantes. A volta seguirá os protocolos de distanciamento e as escolas poderão optar por ter turmas alternadas, dividindo as salas em 50% dos alunos por dia, ou trabalhar com lotação completa.


“Hoje nós estamos com 45% dos nossos leitos de UTI [ocupados]”

Ricardo Nunes (MDB), prefeito de São Paulo, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, no dia 26 de julho de 2021

VERDADEIRO

O Boletim Diário Covid-19 nº 587, publicado em 26 de julho pela Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, afirma que a taxa de ocupação nas UTIs da capital paulista era de 44,73% (página 4). Trata-se de uma média que leva em conta tanto os hospitais municipais quanto os hospitais contratualizados – instituições que têm leitos contratados pela prefeitura.

Segundo o documento, quando considerados apenas os hospitais municipais, o número fica em 43,79%. Já em relação aos hospitais contratualizados, a taxa estava em 60% de ocupação.

Editado por: Chico Marés

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