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Crédito: Tomas Hertogh, Unsplash
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Relação entre aquecimento global e agricultura pode aumentar fome nos próximos 30 anos

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
28.jul.2021 | 08h00 |

Se as condições climáticas são determinantes para a produção de alimentos — e podem ser decisivas para o aumento ou não do número de pessoas que passarão fome num futuro não tão distante —, a agricultura também tem contribuído para a emissão de gases de efeito estufa, principal responsável pelo aquecimento global. A criação de sistemas alimentares sustentáveis tem se mostrado como um caminho do meio diante dessa encruzilhada: valorizar a agricultura familiar, consumir localmente, variar a comida no prato e diminuir os ultraprocessados terão um papel central para a mitigação das consequências das mudanças no clima do planeta. 

Desde segunda-feira (26), pesquisadores, sociedade civil e líderes políticos, entre outros profissionais, participam da Pré-Cúpula das Nações Unidas sobre Sistemas Alimentares, encontro que antecede e faz frente ao evento principal, agendado para setembro, justamente para apresentar propostas, críticas e alternativas sobre como se devem organizar sistemas alimentares sustentáveis — termo usado para o conjunto de processos envolvidos na alimentação, da produção no campo até o processamento, transporte, consumo e descarte. 

Para especialistas ouvidos pela Lupa, a segurança e a soberania alimentar passam fundamentalmente pela preservação da biodiversidade e por uma postura crítica diante do agronegócio convencional — afinal, a agricultura é um dos setores que mais impactam e são impactados pelas mudanças climáticas.

Pesquisas recentes reforçam essa constatação. Uma prévia divulgada na imprensa em junho deste ano do relatório mais recente do Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC), órgão consultivo da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o clima, previu que até 80 milhões a mais de pessoas correrão o risco de passar fome até 2050 em razão do clima. Um estudo de 2016 do Banco Mundial, chamado Gerenciando os Impactos de Mudança Climática na Pobreza, já indicava que, sem ação, as mudanças climáticas provavelmente desencadeariam preços agrícolas mais altos e poderiam ameaçar a segurança alimentar, principalmente nas regiões mais pobres, como a África Subsaariana e o sul da Ásia. 

Em 2020, um estudo publicado na Revista da Associação Brasileira de Saúde Coletiva mostrou que os principais impactos das mudanças climáticas na chamada segurança alimentar nutricional foram no acesso, produção, qualidade nutricional e volatilidade dos preços dos alimentos. De acordo com a autora, a nutricionista especialista em saúde pública Tais de Moura Ariza Alpino, com baixa oferta de alimentos in natura e preços elevados, aumenta a busca por alimentos ultraprocessados e processados, que são muito mais baratos, muito menos nutritivos e, além disso, mais poluentes em seu processo de produção. Esse dado joga luz numa outra face da insegurança alimentar e nutricional: a obesidade. 

Como já mostrado pela Lupa, esse ciclo encontra reflexo no próprio exemplo brasileiro. Enquanto celebrou o fato de ser um dos maiores produtores de alimentos do mundo, o país viu a insegurança alimentar aumentar e bater recordes em relação aos últimos 15 anos. “As mudanças climáticas possuem interface com a má nutrição e com a insegurança alimentar e nutricional, reforçando a necessidade de políticas públicas intersetoriais”, sugere a pesquisadora.

No Brasil, dois estudos recentes mostraram como as mudanças no clima já afetam e são afetadas pela produção de alimentos. Em 2019, uma pesquisa mostrou que o aumento da temperatura pode afetar o café brasileiro. De acordo com as projeções feitas com o cultivo do café Arábica, principal espécie vendida para o mercado mundial, as emissões de gases de efeito estufa atuais resultarão em aumento da temperatura que, por sua vez, é propícia para proliferação do fungo Hemileia vastatrix, causador da chamada ferrugem do cafeeiro. Essa praga, que ataca as folhas dos cultivares e reduz significativamente a produção do grão, pode ser até 30% mais incidente nos cafezais de São Paulo e Minas Gerais se a temperatura subir.

Por outro lado, uma pesquisa divulgada em maio deste ano mostrou que as temperaturas mínimas do município de Belterra, no Pará, foram as mais altas dos últimos 30 anos, e que essa mudança pode estar relacionada à transformação de áreas florestais em pastagens. O estudo foi realizado pela Embrapa Amazônia Oriental em colaboração com vários centros de pesquisa brasileiros, entre eles a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a Universidade Federal de Viçosa (UFV). O exemplo de alteração nesse microclima, numa região muito específica, é espelho para o resto do mundo e indica que práticas de manejo sustentáveis serão essenciais para frear o aquecimento. 

“Grande parte do poder econômico entende que só existe desenvolvimento se eu tirar a floresta, vender madeira, plantar o que o banco financia ou fazer pastagem. O que a mudança climática faz? Ela muda o chamado relógio circadiano das plantas, ou seja, se tiver uma variação térmica, muda o tempo de floração. A abelha, por exemplo, presta serviço ecossistêmico de polinização. Porém, se não tem temperatura ideal para voar, ela não vai fazer isso. Isso muda toda a estratégia de pastejo”, afirma uma das autoras do estudo sobre Belterra (PA), Lucieta Guerreiro Martorano, meteorologista, engenheira agrônoma e pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Sementes resistentes não são solução ideal 

Quando se fala na questão climática e na urgência para frear o aquecimento global, é comum associar soluções relacionadas ao transporte e uso de combustíveis fósseis. No entanto, os sistemas alimentares são atualmente responsáveis por mais de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa. Segundo estudo publicado em março na revista científica Nature Food, os principais emissores são China, Indonésia, Estados Unidos, Brasil, União Europeia e Índia.

A professora do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP Tereza Campello, coordenadora da Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis, explica que na medida em que o planeta está aquecendo, regiões inteiras poderão perder capacidade produtiva, principalmente nos territórios localizados no chamado cinturão árido que engloba países da América Central e África.

Nesse sentido, a pesquisa da Nature Food dá algumas pistas ao concluir que os estágios de produção que levam os alimentos para a fazenda, incluindo insumos como fertilizantes, são os principais contribuintes para as emissões gerais do sistema alimentar. Esse dado demonstra uma realidade infeliz, mas comum, para quem produz alimentos. 

Para Tereza Campello, no desespero de se tentar encontrar saídas emergenciais, têm-se criado soluções tecnológicas que não medem o conjunto de consequências de médio e longo prazo. “Um exemplo é a criação de sementes resistentes, ou seja, transgênicas. As consequências? Várias! Uma delas é que o agricultor perde totalmente autonomia, porque esse tipo de semente transgênica não tem capacidade reprodutiva”, explica a professora. 

Um agricultor que compra uma semente de milho mais resistente, por exemplo, será obrigado a comprar os pesticidas exclusivos para combater pragas para esse grão. “E vale pontuar que as grandes corporações, quando criam uma semente transgênica, desenvolvem insumos que só funcionam com essa semente. O produtor, então, se vê obrigado a comprar uma coleção de produtos específicos. Isso o torna refém dessas empresas”, critica Campello. 

Cortar na carne

Em 2019, um relatório das Nações Unidas sobre o uso da terra e as alterações do clima alertou que o alto consumo de carne e laticínios contribui para o aquecimento global. Na época, o documento destacou que a mudança para uma dieta baseada em vegetais poderia ajudar a combater a mudança climática e, além disso, mais pessoas poderiam ser alimentadas com um menor uso da terra e a diminuição do consumo de carne. Contudo, na medida em que a carne é apontada como uma das vilãs do ponto de vista de emissões de carbono, grandes corporações têm-se debruçado para eliminar o problema apostando em carne sintética. 

A BRF, multinacional brasileira do ramo alimentício que detém marcas como Sadia e Perdigão, anunciou em março deste ano que pretende apresentar ao mercado brasileiro carne feita em laboratório entre 2024 e 2025. A promessa é que essa tecnologia possa suprir a demanda por proteína animal com menos impacto ambiental. Em abril, o CEO Global da empresa, Lorival Luz, disse em entrevista ao UOL que, nos próximos 20 anos, a carne produzida em laboratórios deverá ser a grande responsável pela produção de proteínas no mundo. 

“O problema da carne de laboratório é que não se sabe o que pode causar no ser humano. Vem à tona o tradicional debate que a área ambientalista fazia: o princípio da precaução, ou seja, não vamos assumir soluções sobre as quais não se sabem as consequências. Era o que se falava em relação ao transgênico e, ao que parece, esse princípio foi esquecido hoje”, alerta Campello.

Segundo ela, essas soluções tecnológicas são executadas exatamente pelas mesmas grandes corporações. “Você coloca toda uma solução para um problema crítico ambiental e climático na mão de quem foi causador”, afirma. 

Ainda de acordo com Campello, essa discussão perpassa a Pré-Cúpula das Nações Unidas sobre Sistemas Alimentares e será determinante na busca de impedir o aumento de temperatura. “É um risco gigante do ponto de vista de perda de autonomia da sociedade e dos pequenos e médios agricultores. Esse é um dos debates mais importantes que estão colocados no que diz respeito a sistemas alimentares e clima”, observa.

Ideias que floresceram

Um relatório divulgado em julho do ano passado pela ong WWF em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), EAT e Climate Focus indicou que ações nos sistemas alimentares, como reduzir a perda e o desperdício de alimentos ou adotar dietas mais sustentáveis, representam uma oportunidade combinada de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em até 12,5 Gt CO2e — o equivalente a 2,7 bilhões de carros fora das ruas. Em abril, o próprio gerente do Pnuma, James Lomax, afirmou que restaurar a biodiversidade pode fortalecer a resiliência dos sistemas alimentares, permitindo que os agricultores diversifiquem a produção e lidem com pragas, doenças e mudanças climáticas.

No Brasil, já existem bons exemplos de como fortalecer a resiliência desses sistemas. Em, 2016, a então Secretaria Especial de Agricultura Familiar e Desenvolvimento Agrário (Sead) do governo federal — transformada, em 2019, em Secretaria de Agricultura Familiar e Cooperativismo — implementou no Nordeste um dos maiores programas para fomentar o acesso às sementes crioulas do mundo. Na prática, famílias agricultoras foram incentivadas a selecionar as melhores sementes e guardá-las para os próximos plantios em “bancos” de sementes. 

“Sementes crioulas são naturalmente resistentes. Elas vieram naturalmente se adaptando ao clima. O Brasil construiu 700 bancos de sementes, que nada mais são do que uma casinha onde os agricultores, a maioria mulheres, guardam e multiplicam essas sementes. Com isso, vêm fazendo uma recuperação genética de espécies já quase desaparecidas. Vários tipos de feijão, mandioca, arroz. Esses bancos são estruturas de adaptação, permitem que resistam, multipliquem e junto a isso preservam um conjunto de heranças culturais”, diz Tereza Campello. 

Essa é uma medida de adaptação com alto impacto e que não tem sido a aposta. “A aposta tem sido em alta tecnologia, grandes corporações liderando essas mudanças e o que a gente viu é que isso não só não acaba com a fome como também não reverte a questão do clima. É temeridade continuar apostando em soluções que nos tornam grandes reféns”, conclui.

Nota: Essa reportagem foi produzida em parceria com a Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis da USP

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

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