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#Verificamos: ‘Estudo de Oxford’ não prova que ivermectina poderia ter salvado 250 mil brasileiros com Covid-19

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
28.jul.2021 | 16h42 |

Circula pelas redes sociais um vídeo em que uma mulher afirma que a ivermectina poderia ter salvado mais de 250 mil vidas no Brasil. Ela cita um suposto estudo da Universidade de Oxford, no Reino Unido, que teria provado a redução em 56% da mortalidade por Covid-19 quando utilizado esse medicamento. A mulher atribui as mortes a “parte da imprensa e políticos esquerdistas” pelo desaconselhamento do uso do antiparasitário no tratamento da doença. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Através da ivermectina, mais de 250 mil vidas teriam sido salvas no Brasil. É o que conclui um estudo liderado pela Universidade de Oxford. Segundo esse estudo, publicado no Fórum Aberto de Doenças Infecciosas da própria instituição e assinado por cientistas de seis das principais universidades do Reino Unido, entre elas a Universidade de Liverpool e a Imperial College, a ivermectina reduz em 56% a mortalidade de pacientes em estado moderado e grave de Covid-19. Ou seja, se parte da imprensa e políticos esquerdistas não tivessem militado tanto contra a ivermectina, mais de 250 mil brasileiros teriam sido salvos. […]”
Vídeo que, até 16h30 do dia 28 de julho de 2021, havia sido visualizado por 32 mil usuários no Facebook

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O “estudo da Universidade de Oxford” mencionado pela mulher existe, mas não prova qualquer efeito da ivermectina no tratamento da Covid-19. Trata-se de uma metanálise, ou seja, uma compilação do resultado de diversas pesquisas anteriores que faz interpretações sobre os dados. A maior parte desses estudos, no entanto, ainda não foi revisada por outros cientistas. Além disso, os próprios pesquisadores do levantamento ressaltam a necessidade de se realizar testes mais abrangentes para validar os resultados.

O vídeo em questão foi publicado nas páginas de Luciana Monteiro em 22 de julho. Ela foi candidata a vereadora nas eleições de 2016, pelo PSDB, e 2020, pelo PP, e costuma fazer postagens de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e a pautas relacionadas ao grupo político do mandatário.

Ao contrário do que diz a legenda do vídeo de Monteiro, o estudo mencionado não é “de Oxford”, mas, sim, foi publicado no Open Forum Infectious Diseases (Fórum Aberto Doenças Infecciosas, em português). Trata-se de uma revista científica online publicada pela Oxford University Press e produzida por duas entidades norte-americanas voltadas ao tratamento de doenças infecciosas. Dez pesquisadores de seis universidades — entre elas, a de Oxford, a de Liverpool e a Imperial College — assinam o trabalho.

O estudo “Metanálises de ensaios randomizados de ivermectina para tratar infecção por SARS-CoV-2” compila os resultados de 24 trabalhos que envolveram 3.328 pacientes. Desses, 11 estudos teriam apontado a diminuição em 56% da mortalidade em casos moderados e graves de Covid-19, com favorecimento da recuperação clínica e hospitalização reduzida.

No entanto, os pesquisadores advertem que “muitos estudos incluídos não foram revisados por pares” e que “grandes ensaios clínicos estão em andamento para validar os resultados vistos até o momento”. Das 24 pesquisas compiladas, apenas oito haviam sido revisadas. Outras nove aguardavam revisão, seis sequer haviam sido publicadas e uma é independente, informa a metanálise. Além disso, o trabalho do Reino Unido reconhece que todos os testes analisados envolveram um pequeno número de indivíduos.

“A construção da metanálise pode ser comparada à construção de uma casa. Quando você define critérios sobre a qualidade dos materiais que serão usados na construção, temos duas opções: um resultado bem alicerçado, com bons materiais, ou um com materiais de péssima qualidade”, explica Mateus Falco, biomédico microbiologista e divulgador científico pela Rede Análise Covid-19.

Falco destaca o fato de que apenas um terço dos estudos utilizados nessa metanálise foi revisado por pares. “Essa avaliação acontece quando o estudo é enviado para publicação em uma revista científica e é importante porque você valida a qualidade do trabalho por meio de um avaliador externo, como se fosse um controle de qualidade”, analisa o pesquisador.

Outro problema apontado por Falco é a “heterogeneidade” dos estudos selecionados pela metanálise. Os próprios pesquisadores do Reino Unido ressaltam a “ampla variedade” de doses administradas pelos diferentes estudos para testar os efeitos da ivermectina contra a Covid-19. “É como se juntássemos em um mesmo saco maçãs, bananas e abacaxis. São todas frutas, mas diferentes entre si. Nessa metanálise, os estudos selecionados são todos diferentes entre si, com dosagens diferentes de vários medicamentos. Fica difícil chegar a uma conclusão sólida”, avalia o biomédico.

‘250 mil brasileiros’

Ao contrário do que sugere o vídeo que circula pelas redes sociais, o cálculo de que “mais de 250 mil vidas teriam sido salvas no Brasil” não é mencionado na metanálise do Reino Unido. Trata-se de uma conclusão de Luciana Monteiro baseada no número de mortes por Covid-19 registradas no país. Até terça-feira (27), foram 551.906 óbitos.

No mês passado, um projeto da Universidade de Oxford anunciou que testaria a ivermectina no tratamento contra a Covid-19, mas ainda não teve seus resultados divulgados, como a Lupa já mostrou em junho. A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que o uso do antiparasitário contra a Covid-19 deve ocorrer apenas em ensaios clínicos, ou seja, em estudos científicos controlados.

Essa informação também foi verificada por Projeto Comprova e UOL Confere.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Maurício Moraes

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A informação está comprovadamente incorreta
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