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Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Entenda por que Bolsonaro não tem indícios ou provas de fraude das urnas

Editor | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
30.jul.2021 | 18h27 |

Na última quinta-feira (29), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) apresentou supostos indícios de fraudes nas eleições de 2014 e 2018, além de vídeos que circularam nas redes sociais sobre disputas eleitorais antigas. Nada do que foi dito pelo presidente, porém, é novo ou mostra algum indício real de problemas com a urna eletrônica. As mesmas informações falsas já haviam sido veiculadas pelo presidente em outras ocasiões, e já foram desmentidas no passado. Saiba por que os argumentos dados por Bolsonaro não podem ser considerados como indícios de fraude.

A “fraude” nas eleições de 2014

Uma das peças centrais da tese de Bolsonaro, citada durante a live e em entrevistas, é que há indícios matemáticos de fraude na apuração do segundo turno das eleições presidenciais de 2014. Essa tese tem como base um vídeo publicado em 2018 por Naomi Yamaguchi, irmã da médica Nise Yamaguchi. Ela entrevistou um suposto matemático que encontrou um “padrão” na apuração. Em 241 parciais consecutivas, Dilma e Aécio teriam trocado de posição na liderança das parciais. A existência desse padrão, estatisticamente improvável, demonstraria que houve manipulação dos dados. Só que essas 241 alternâncias são completamente fantasiosas. 

Dados do TSE, que já estão disponíveis desde 2014, mostram que isso jamais aconteceu. Durante toda a apuração, houve apenas 27 alternâncias na liderança das parciais, de um total de 333. Elas não foram consecutivas, mas espalhadas ao longo da apuração. O máximo de alternâncias consecutivas foram quatro, o que é perfeitamente normal e dentro das possibilidades estatísticas da eleição.

A apuração do segundo turno de 2014 começou às 17h01 de 27 de outubro de 2014. Considerando-se apenas a diferença de votos incluídos entre uma parcial e a anterior, Aécio teve mais votos que Dilma nas primeiras 84 parciais. A primeira vez que a presidente ganhou uma parcial foi às 18h25. Até as 18h33, os dois se alternaram na liderança das parciais algumas vezes. A partir das 18h34, Dilma venceu todas, até as 20h54 — quando 99,28% dos votos já estavam apurados. Às 19h32, Dilma apareceu pela primeira vez na liderança da disputa, considerando votos totais, e nunca mais deixou essa posição. Os dados completos foram divulgados pelo TSE.

Esse padrão é simples de explicar: em 2014, o segundo turno das eleições foi realizado durante o horário de verão, que começou em 19 de outubro. Os estados do Sul e Sudeste, além de Goiás e Distrito Federal, estavam adiantados em relação ao resto do país. Portanto, apenas esses estados estavam contando votos entre as 17h e as 18h do horário de Brasília. Nesses locais, Aécio fez 57% dos votos, em média.

A partir das 18h, entraram os votos dos estados do Nordeste, além de Pará, Amapá, Tocantins, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Nesses estados, Dilma venceu por 67,6% dos votos.

Lei de Benford

No mesmo vídeo de Naomi Yamaguchi, o suposto matemático diz que analisou os números da apuração e constatou que, segundo a Lei de Benford, os resultados não eram naturais. Segundo essa regra, quando os dados numéricos de um determinado conjunto ocorrem naturalmente, pode-se notar uma incidência muito mais frequente do número 1 do que dos outros algarismos. A frequência do número 2 é menor, a do 3 é ainda mais reduzida e assim por diante. No caso das eleições de 2014, porém, o número 5 era mais frequente.

Contudo, a aplicação dessa regra é particularmente inapropriada para disputas eleitorais. É esperado que, a partir de um determinado horário, quando a maioria das urnas já foi apurada, a velocidade da apuração diminua. Assim, várias parciais acabam mostrando números parecidos, o que distorce a distribuição dos números.

Especialistas que analisaram dados eleitorais de outros países com base nessa lei, como Estados Unidos e Venezuela, concluíram que não se trata de um mecanismo confiável, uma vez que os resultados não são consistentes. Por isso, é incorreta a afirmação de que o emprego dessa norma indicaria que a apuração das eleições de 2014 foi fraudada. O próprio TSE já desmentiu a informação em 2018.

No caso da eleição de Dilma e Aécio, a prevalência do número 5 aconteceu por uma razão bastante óbvia: Dilma fez 54,5 milhões de votos, e Aécio, 51 milhões. A partir da 197ª parcial, às 20h17, os dois candidatos tinham mais de 50 milhões de votos. Mais de 97% dos votos tinham sido apurados. Contudo, outras 136 atualizações foram computadas a partir desse momento, todas com um baixo número de votos, e em todas elas o número de votos totais dos dois candidatos tinha o algarismo 5 pelo menos uma vez.

uma corrente de especialistas que defende que o único jeito correto de se fazer uma análise de dados eleitorais com a Lei de Benford seria a partir da incidência do segundo dígito. Mesmo assim, o tema é controverso e, segundo alguns pesquisadores, esse tipo de metodologia também não traz qualquer garantia de que a conclusão será correta. Ainda assim, dados das eleições brasileiras de 2002 a 2018 verificados com base nesse critério, concluíram que não existe qualquer evidência de fraudes.

Na live desta quinta, Bolsonaro não mencionou esse detalhe. Contudo, ele já usou esse argumento em entrevistas anteriores.

Distorcendo os dados de 2018

Outro “indício” de fraude apontado por Bolsonaro teria ocorrido no primeiro turno das eleições de 2018. Com base nos números apresentados pela Rede Globo na primeira parcial divulgada, por volta das 19h do dia 28 de outubro, eles concluíram que as apurações no Norte, Sul e Centro-Oeste estariam “praticamente encerradas”, que faltavam poucos votos no Nordeste e que, portanto, faltavam apenas os votos do Sudeste — onde Bolsonaro ganhou com mais de 50% dos votos. O percentual de votos de Bolsonaro, contudo, caiu de 49% para 46% ao longo da apuração, ao invés de crescer.

Essa tese não se sustenta quando os números são analisados de forma detalhada. Longe de estar praticamente encerrada, faltavam mais da metade dos votos nos estados do Norte (48,02% das urnas apuradas) e Nordeste (43,94%), segundo a Globo. Nessas duas regiões, Bolsonaro teve seu pior desempenho (43,38% e 25,86%, respectivamente). No Sul e Centro-Oeste, onde ele foi melhor, a votação estava mais avançada (85,38% e 73,51%, respectivamente).

No Sudeste, de fato, a votação atrasou. Apenas 10,99% das urnas estavam apuradas, segundo a Globo. Isso aconteceu porque falhas técnicas atrasaram a apuração nos estados de São Paulo e Minas Gerais, que ainda estavam zeradas nesse momento. Sendo assim, todos esses votos vieram de Rio de Janeiro ou Espírito Santo — estados no qual Bolsonaro teve seu melhor desempenho na região. Considerando o número de votos válidos, é possível estimar que cerca de 47% dos votos tinham sido apurados nesses dois estados.

Com base nessas informações, é possível “pesar”, proporcionalmente, os votos dessas regiões de acordo com o resultado final. Considerando o que já estava apurado, Bolsonaro teria 46,5% dos votos. Considerando o que ainda faltava apurar, ele teria 45,6% — ou seja, a tendência era de que ele tivesse menos votos no final da apuração, e não mais.

Os números dessa simulação, claro, são diferentes dos números de fato apurados. Isso não significa, porém, que há indícios de fraude. A porcentagem de votos apresentada pela Globo naquele momento eram em nível regional, e não é possível, portanto, contabilizar diferenças internas de cada região. O TSE disponibilizou as informações das parciais das eleições de 2018

Não é a primeira vez que, a partir dessas informações incorretas, Bolsonaro clama que houve fraude no primeiro turno das eleições de 2018. No dia seguinte, 8 de outubro de 2018, ele já havia acusado, sem nenhuma prova ou evidência, que foi vítima de fraude. Dois apoiadores do presidente chegaram a apresentar uma denúncia ao TSE baseada somente nos números mostrados pela Globo — que foi considerada improcedente pelo tribunal.

Outras “evidências”

Além dessas duas acusações improcedentes, Bolsonaro também usou, na última quinta, vídeos feitos por seus eleitores alegando fraude nas eleições. Denúncias similares foram desmentidas anteriormente.

Em uma dessas gravações, um jovem que se apresenta como Jeterson diz que vai mostrar como é possível fraudar a urna eletrônica. Usando um programa que ele próprio escreveu, ele faz adulterações nos votos. Esse vídeo, contudo, prova apenas que Jeterson consegue modificar um código que ele próprio escreveu. O “programa” que ele montou não tem relação alguma com o software usado nas urnas, e a máquina que ele utilizou não é a mesma adotada nas eleições. Após publicar esse vídeo, o autor fez uma “retratação”, publicada no site do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE-RS).

Ao contrário do programa desenvolvido por Jeterson, a urna eletrônica tem mais de 30 barreiras de segurança, e passa, antes das eleições, por testes públicos de segurança, nos quais hackers profissionais tentam encontrar fragilidades no sistema.

Outro vídeo apresentado mostra um eleitor afirmando que a urna eletrônica se “auto-completava”. Ao clicar no número 1, o número 3 aparecia na sequência, indicando voto no candidato Fernando Haddad (PT). Essa peça de desinformação foi desmentida pela Lupa no dia da eleição. Um vídeo que “provava” esse fenômeno foi editado. Uma perícia feita pelo TRE de Minas Gerais (TRE-MG) mostrava que havia um corte entre o momento que o eleitor apertava o número 1 e o número 3 aparecia na tela.

Outros vídeos mostravam eleitores dizendo que tentaram votar em Bolsonaro, mas a urna indicava “voto nulo”. Vários desses casos foram registrados no Brasil. Nos que foi possível verificar, os eleitores estavam tentando votar 17 para governador, e não para presidente. Em um dos casos, um policial militar aposentado agrediu uma mesária por causa disso.

Editado por: Maurício Moraes

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