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Foto: Elza Fiúza/ABr
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#Verificamos: Post usa informações falsas ao afirmar que houve fraude nas eleições de 2014 e 2018

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
06.ago.2021 | 17h03 |

Circula pelas redes sociais um texto que afirma que a eleição de 2014, vencida pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT), e a de 2018, em que ganhou o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), foram fraudadas. O post indica como fonte das informações o próprio Bolsonaro, que tem colocado em dúvida a realização das eleições de 2022 e repetido uma série de alegações que já haviam sido desmentidas sobre a disputa. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Ainda que de conhecimento público, os vídeos que foram extraídos de populares foram meramente demonstrativos, pois há centenas de casos parecidos e remetem a casos de manipulação das urnas”

Texto compartilhado no Facebook que, até às 15h do dia 6 de agosto de 2021, tinha sido compartilhado mais de 400 pessoas no Facebook 

FALSO

A Justiça Eleitoral analisou diversas alegações de supostas fraudes e até o momento não encontrou qualquer irregularidade envolvendo as urnas eletrônicas brasileiras. Alguns vídeos de denúncias feitas por eleitores circularam pelas redes sociais nos últimos pleitos, mas nenhum problema foi comprovado.

Em 2018, por exemplo, a Lupa publicou uma verificação sobre uma urna que, quando o “1” era digitado, completaria automaticamente o número 13, do candidato Fernando Haddad (PT). O vídeo, contudo, havia sido editado para dar essa impressão – ou seja, não se tratava de algo real. O Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG) analisou a gravação e constatou que havia um corte entre o momento em que o número é digitado e o que o número “3” aparece.

Também em 2018, um policial militar foi preso no Pará após agredir uma mesária porque o nome de Bolsonaro “não estava na urna”. Na verdade, ele estava digitando 17 para o cargo de governador, e não presidente. Como não havia nenhum candidato a governador pelo PSL no Pará, a urna indicava “voto nulo”. Casos similares foram relatados em vários estados.

Além disso, a Polícia Federal também não encontrou registros de nenhuma investigação sobre fraudes envolvendo o método de votação desde 1996, quando as urnas eletrônicas foram adotadas no Brasil, segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo.


O vídeo de Bolsonaro fala em uma intermitência entre as posições de Dilma e Aécio em mais de 240 vezes seguidas”

Texto compartilhado no Facebook que, até às 15h do dia 6 de agosto de 2021, tinha sido compartilhado mais de 400 pessoas no Facebook 

FALSO

Os dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam que não houve uma troca “intermitente entre as posições” de Dilma e Aécio por 240 vezes nas eleições de 2014. Essa informação falsa, que cria suspeita de fraude na votação, foi compartilhada por Bolsonaro em sua live de 29 de julho. Na realidade, os dados mostram que a “troca” seguida de lideranças aconteceu por, no máximo, quatro atualizações, em duas ocasiões depois das 22h, quando a apuração já estava praticamente concluída.

O tucano teve mais votos em todas as 84 atualizações realizadas entre às 17h01 e às 18h24, considerando-se a diferença registrada em relação à parcial anterior. Às 18h25, a petista apareceu na frente pela primeira vez. Depois disso, ela venceu outras 225 apurações parciais, contra apenas 23 do adversário. O cenário descrito pelo presidente nunca existiu.

Aécio liderou a apuração, considerando os votos totais, das 17h01, quando as primeiras urnas foram apuradas, às 19h31. A virada aconteceu às 19h32. Depois disso, Dilma nunca mais deixou a liderança da disputa.

Essa trajetória não é evidência de fraude eleitoral. Em 2014, as eleições foram realizadas durante o horário de verão. Contudo, apenas os estados do Sul e do Sudeste, além de Distrito Federal e Goiás, adiantaram seus relógios. Por isso, a eleição acabou às 17h nessas localidades. No resto do país, as urnas foram fechadas a partir das 18h. Em algumas partes do Norte, o encerramento ocorreu às 19h ou às 20h.

Das nove unidades da federação que fecharam as urnas mais cedo, Dilma ganhou em apenas uma, Minas Gerais. Aécio recebeu 57% nesses estados, contra apenas 43% da petista. Já entre os 14 estados que encerraram a votação às 18h, Aécio levou apenas dois: Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Dilma recebeu 67,6% dos votos, contra 32,4% do tucano. Essa diferença regional explica por que a apuração começou a virar a partir das 18h.


“Nenhum matemático conseguiu explicar como que Bolsonaro perdeu no 1º turno de 2018, se faltava 90% do Sudeste, onde venceu de forma avassaladora, com um saldo que inclusive superou todos os votos de Haddad no Nordeste. As regiões Norte, Centro-Oeste e Sul já estavam definidas, o Nordeste estava com mais de 80% e o Sudeste, INEXPLICAVELMENTE, com apenas 13% das urnas apuradas, e Bolsonaro, ao invés de subir para além dos 49% que já detinha, começou a cair, com a contagem do Sudeste.”

Texto compartilhado no Facebook que, até às 15h do dia 6 de agosto de 2021, tinha sido compartilhado mais de 400 pessoas no Facebook 

FALSO

Quando a TV Globo passou a divulgar os números da apuração do primeiro turno das eleições presidenciais de 2018, a região Sul era a mais adiantada, com 85,38% das urnas apuradas, seguida pelo Centro-Oeste, com 73,51%. São justamente as regiões em que Bolsonaro teve seu melhor desempenho naquele 7 de outubro — 57,39% e 57,66%, respectivamente.

O Norte registrava 48,02%, com mais da metade dos votos ainda a apurar, sem situação “definida”. Já o Nordeste, onde Haddad venceu, ainda estava nos 43,93%, muito longe dos “mais de 80%” mencionados pelo texto.

De fato, no Sudeste a apuração ainda engatinhava, com apenas 10,99% das urnas apuradas, por causa de problemas técnicos nos Tribunais Regionais Eleitorais de Minas Gerais e São Paulo, que não haviam conseguido comunicar os resultados ao TSE até aquele momento. Logo, todos esses votos vinham dos outros dois estados da região, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Neles, o desempenho do atual presidente foi melhor do que no resto da região: 59,79% e 54,27%.

Portanto, considerando que a apuração no Norte e do Nordeste estavam atrasadas em relação ao Sul e Centro-Oeste, e que os estados afetados pelo “apagão” de dados no Sudeste foram os que Bolsonaro teve um desempenho pior na região, o fato do percentual de votos ter caído durante a apuração não pode ser considerado um indício de fraude. 

O TSE forneceu à Lupa dados da apuração minuto a minuto do primeiro turno das eleições de 2018. É possível verificar que, entre às 17h21 e 18h23, Bolsonaro tinha mais da metade dos votos válidos. A partir de então a vantagem começa a cair, chegando a 49,04% às 18h57 e caindo até 46,03%. A apuração começou a ser realizada às 17h04, porém só pode ser divulgada a partir das 19h no horário de Brasília, quando a votação se encerrou no Acre.


“Aqui eu faço outra observação: faltou mostrar os trabalhos da equipe do Brasil Paralelo, que sob o comando do cientista Hugo Cesar Hoeschl, que acompanhou as eleições de 2014 e 2018, com a ajuda da técnica estatística da lei dos números de Benford, mundialmente reconhecida para validação de eleições, acusou probabilidade de fraude superior a 70% em ambos os pleitos”

Texto compartilhado no Facebook que, até às 15h do dia 6 de agosto de 2021, tinha sido compartilhado mais de 400 pessoas no Facebook 

FALSO

A aplicação da Lei de Benford em resultados de votação não é recomendada para verificar a existência de fraudes em eleições. Especialistas que analisaram dados eleitorais de outros países com base nessa lei, como Estados Unidos e Venezuela, concluíram que não se trata de um mecanismo confiável, uma vez que os resultados não são consistentes. Por isso, é incorreta a afirmação de que o emprego dessa norma indicaria que a apuração das eleições de 2014 foi fraudada. O próprio TSE já desmentiu a informação em 2018.

De acordo com a Lei de Benford, quando os dados numéricos de um determinado conjunto ocorrem naturalmente, pode-se notar uma incidência muito mais frequente do número 1 do que dos outros algarismos. A frequência do número 2 é menor, a do 3 é ainda mais reduzida e assim por diante. Isso significa que cada dígito aparece menos vezes do que o anterior, até se chegar ao 9, que tem a menor incidência de todas. Se esse padrão não aparece, isso poderia indicar manipulação dos dados ou fraude. 

Nem todos os conjuntos, contudo, podem ser analisados de modo confiável pela Lei de Benford. Isso porque em situações específicas alguns números podem prevalecer, quebrando a regra. É o caso das disputas eleitorais. Nas eleições de 2014, por exemplo, a apuração acabou gerando várias parciais quando estava próxima do fim, porque ocorreu de forma mais lenta. Com isso, houve prevalência do número 5, uma vez que Dilma e Aécio receberam mais de 50 milhões de votos cada um no final da disputa.

uma corrente de especialistas que defende que o único jeito correto de se fazer uma análise de dados eleitorais com a Lei de Benford seria a partir da incidência do segundo dígito. Mesmo assim, o tema é controverso e, segundo alguns pesquisadores, esse tipo de metodologia também não traz qualquer garantia de que a conclusão será correta. Ainda assim, dados das eleições brasileiras de 2002 a 2018 verificados com base nesse critério, concluíram que não existe qualquer evidência de fraudes.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌

Editado por: Maurício Moraes

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