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Ações automatizadas guiaram um a cada quatro perfis favoráveis ao voto impresso no Twitter 

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
12.ago.2021 | 08h01 |

A defesa do voto impresso no sistema eleitoral brasileiro mobilizou as discussões nas redes sociais nas últimas semanas. Parte desse debate, no entanto, foi impulsionado de maneira artificial. Perfis com alto grau de automatização (bots) foram utilizados para gerar publicações em massa e engajamento sobre esse tema. Um relatório do Pegabot, projeto desenvolvido pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio), identificou que, entre 26 de julho e 2 de agosto, 25% dos perfis analisados que publicaram textos e hashtags apoiando o voto impresso tinham alta probabilidade de serem bots

O período analisado incluiu uma transmissão ao vivo feita pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em 29 de julho, em que foi defendido o voto impresso como forma de garantir eleições limpas. Na ocasião, ele afirmou, sem apresentar provas, que houve fraude nas disputas de 2014 e 2018 – o que é falso. Também acusou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de participar de um esquema criminoso para eleger Dilma Rousseff e, quatro anos depois, para evitar que fosse eleito presidente no primeiro turno. A Lupa verificou a fala do presidente e desmentiu diversas dessas afirmações. Houve também uma manifestação em defesa do voto impresso no dia 1º de agosto em algumas cidades do país.

Na Câmara dos Deputados, o retorno do voto impresso também foi debatido nos últimos meses. Contudo, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que sugeria essa mudança foi rejeitada pelo plenário da Casa na última terça-feira (10).

O relatório do Pegabot analisou 5.499 perfis do Twitter em um período de 8 dias, entre 26 de julho e 2 de agosto. Os picos de postagem ocorreram em duas ocasiões: em 29 de junho, quando Bolsonaro realizou a live; e em 1º de agosto, quando houve as manifestações em favor do voto impresso. Dos 5.499 perfis verificados, 1.401 – ou seja, 25% do total – apresentaram alta probabilidade de comportamento automatizado. Em sua análise, a equipe do ITS Rio identificou que, mesmo fora dos picos, os bots tiveram uma certa regularidade na publicação nos demais dias. 

Após a live de Bolsonaro e também durante o protesto, muitos dos posts publicados no Twitter apoiaram o voto impresso como uma forma de evitar que as urnas fossem fraudadas nas eleições. Perfis passaram a publicar hastags como #VotoAuditavel ou #EuApoioVotoImpresso para defenderem essa medida. Em vários casos, no entanto, eram os bots que estavam por trás dessas publicações. Eles foram responsáveis por 21% dos tuítes analisados, ou seja, cerca de 120 mil das mais de 575 mil postagens verificadas. O relatório indica que esse volume é relevante, considerando-se a quantidade de usuários envolvidos nesse debate. 

Uma parte dos perfis analisados não postou um texto original, por exemplo, mas optou por retuitar um conteúdo que já circulava no Twitter. Quando essas repetições ocorrem em um curto período de tempo, isso é um sinal para o Pegabot de que pode estar ocorrendo uma conduta não natural. “Temos observado que é uma técnica muito comum entre esses perfis com comportamento automatizado”, afirma Maria Luiza Mondelli, cientista de dados e pesquisadora em Democracia e Tecnologia do ITS Rio.

Estratégia de disseminação

Os bots são controlados por inteligência artificial e podem ser utilizados como estratégia para disseminar uma informação – seja ela falsa ou verdadeira – pelas redes. A equipe do Pegabot encaminhou para a Lupa uma lista que mostra que tipo de postagens esses perfis realizaram nos oito dias analisados. 

Um perfil com 72% de probabilidade de ser bot, por exemplo, acusou o TSE de fazer uma “postagem desonesta” ao falar sobre o Boletim de Urna. No Twitter, o tribunal apenas explicou que é possível auditar os resultados de uma urna eletrônica através desse boletim, que fica disponível para todos os eleitores e indica os votos que cada equipamento recebeu. O mesmo perfil com alta chance de automatização também publicou um trecho da live de Bolsonaro, dizendo que os “indícios de fraude [nas eleições] são imensos”. Contudo, a  frase dita pelo presidente é falsa

Em outro caso, um perfil com 75% de probabilidade de ser bot publicou uma foto da de um metrô lotado com pessoas vestindo a blusa do Brasil e máscara. A legenda dizia o seguinte: “A foto do dia! O gabinete do ódio comandado pelas tias do zap em ação”, indicando que existe um apoio popular legítimo ao presidente e às suas causas. Esse tipo de postagem no qual o perfil apenas exalta a popularidade de Bolsonaro é frequente nas publicações de perfis automatizados. 

Metodologia 

O relatório do Pegabot analisou mais de 575 mil posts publicados por 5.499 perfis do Twitter que mencionaram ao menos uma das seguintes hashtags: #VotoAuditavel, #EuApoioVotoAuditavel, #EuApoioVotoImpresso, #VotoImpressoAuditavelJa, #VotoImpressoAuditavelJa2022, #BrasilPeloVotoAuditavel e #UrnasForamInvadidas.

Com a ajuda do Pegabot foi possível verificar a probabilidade de o perfil analisado ser automatizado ou não automatizado. A ferramenta analisa os dados de cada perfil público disponível nas APIs do Twitter, como, por exemplo, o nome do perfil, a descrição e o número de postagens realizadas. 

“Com base nessas informações, o Pegabot estabelece um conjunto de quatro critérios – temporal, usuário, rede e sentimento – que juntos indicam a probabilidade de comportamento automatizado de uma conta, dando uma pontuação de 0 a 100. Quanto mais alto o valor, maior a chance de o perfil ser automatizado. Esse resultado é referente a usuários que pontuaram com valor de, no mínimo, 70% de probabilidade na análise total do Pegabot”, diz o relatório. 

Editado por: Maurício Moraes

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