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#Verificamos: É falso que Globo admitiu, antes de Bolsonaro, que urnas podem ser fraudadas

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
18.ago.2021 | 16h39 |

Circula no WhatsApp o vídeo de uma reportagem exibida pela TV Globo sobre uma quadrilha que promete dar a vitória nas eleições para qualquer candidato, sem o voto do eleitor. Na gravação, um homem flagrado pela reportagem diz que a adulteração das urnas eletrônicas é possível por meio de reprogramação dos equipamentos. Para isso, o golpista diz usar a senha do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e de outros integrantes da Justiça Eleitoral. Ele afirma cobrar R$ 2 milhões dos candidatos interessados. 

O trecho dessa matéria, que foi compartilhada no TikTok pelo deputado estadual Bruno Engler (PRTB-MG), não informa a data original da exibição. O letreiro que acompanha o vídeo sugere que, antes de Jair Bolsonaro (sem partido), a Globo já teria admitido a possibilidade de fraude nas urnas eletrônicas. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“Antes de Bolsonaro, a Globo admitiu a chance de fraude nas urnas.”
Vídeo que circula em grupos de WhatsApp 

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O vídeo da TV Globo não confirma a possibilidade de fraude nas urnas eletrônicas. A gravação foi editada para cortar um trecho no qual a reportagem original, veiculada em 2008, informa que não é possível fraudar os equipamentos. Em nenhum momento o repórter ou os apresentadores admitem a possibilidade de adulteração das urnas. Na verdade, eles denunciam uma quadrilha de estelionatários que faz falsas promessas a candidatos. Ao final da reportagem, um especialista explica ser impossível fraudar as eleições.

De acordo com a assessoria de imprensa da TV Globo, essa reportagem foi exibida originalmente no programa Fantástico em 17 de agosto de 2008, às vésperas das eleições municipais daquele ano. O conteúdo original tem pouco mais de 5 minutos — e não apenas 2 minutos, como o trecho que foi compartilhado no TikTok e em correntes de WhatsApp. A íntegra da versão original foi fornecida pela emissora e pode ser assistida abaixo:

O homem que aparece na gravação foi filmado com uma câmera escondida. Ele promete, sem apresentar provas, adulterar o resultado das eleições por meio de reprogramação das urnas eletrônicas e, para isso, usaria a senha do então presidente do TSE, Carlos Ayres Britto, também ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) na época. O ex-presidente do TSE, no entanto, é entrevistado na sequência e informa que nem mesmo ele tinha uma senha, ou seja, a própria reportagem contesta a promessa do golpista. Essa entrevista foi uma das partes do vídeo removidas para dar a entender, enganosamente, que a reportagem apenas confirma que há possibilidade de falsificação. 

Um dia depois da exibição do conteúdo no Fantástico, Ayres Britto afirmou, em entrevista ao jornal O Globo, que a promessa da quadrilha é “um blefe, uma bravata e um estelionato”. Ele também disse que ainda não tinha feito a própria assinatura digital e que era impossível entrar no programa de votação ou desfigurá-lo. “Fizemos um software que é inviolável e inacessível aos hackers. Se o programa é alterado, a urna se autodefende imediatamente”, explicou, na época. 

O vídeo original mostra ainda uma entrevista com um especialista em urnas eletrônicas e professor universitário, Fabiano Essel, que explica ser praticamente impossível quebrar uma senha criptografada e fraudar as urnas. Ao final, a reportagem enfatiza que o que foi mostrado se tratava de uma quadrilha “de aproveitadores” que tentava vender serviços impossíveis de serem realizados. 

O deputado estadual Bruno Engler (PRTB-MG), que compartilhou a versão editada da reportagem em seu perfil no TikTok, foi procurado pela Lupa, mas não respondeu até a publicação desta checagem.

Desinformação sobre fraude

Nas últimas semanas, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem colocado em dúvida a confiabilidade das urnas eletrônicas e, em diferentes momentos, afirmou, sem comprovação, que as eleições presidenciais de 2014 e de 2018 foram adulteradas. Essas insinuações têm estimulado a publicação de conteúdos falsos sobre o assunto. O TSE afirma que o voto no Brasil já é auditável “antes, durante e depois” das eleições e que testes de segurança mostram que não é possível violar o sigilo do voto ou mudar os rumos da votação. 

Até hoje, não há qualquer comprovação de fraudes alegadas por Bolsonaro nas eleições de 2014 e 2018. Como já mostrado pela Lupa, todos os supostos indícios apresentados pelo chefe do Executivo não comprovam problemas com os equipamentos.  

Vale ainda pontuar que a defesa do voto impresso no sistema eleitoral brasileiro mobilizou as discussões nas redes sociais nas últimas semanas. Parte desse debate foi impulsionado de maneira artificial, ou seja, por perfis com alto grau de automatização, conhecidos como bots.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Maurício Moraes

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