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#Verificamos: Foto de estudantes atribuída ao Afeganistão na década de 1970 foi registrada no Irã

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
19.ago.2021 | 11h38 |

Circula pelas redes sociais uma imagem que mostra estudantes vestidas com roupas modernas e coloridas. A legenda diz que a foto foi tirada no Afeganistão, na década de 1970. A legenda da foto acusa os Estados Unidos de acabarem com o governo socialista da época e promoverem o Talibã. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Foto em algum país progressista da Europa? Não. Essa foto é da década de 1970, no Afeganistão. Nessa época o país tinha um governo socialista. Sabe quem acabou com esse governo? Os EUA, que promoveram o Talibã”
Legenda de imagem que, até 18h do dia 18 de agosto de 2021, havia sido visualizada por 68 mil usuários no Facebook

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A foto atribuída ao Afeganistão foi, na verdade, registrada em Teerã, capital do Irã.

Os jornais britânicos Daily Mail e The Independent, além do italiano Corriere Della Sera, atribuíram o registro das estudantes à Universidade de Teerã no ano de 1971. O Daily Mail destaca o uso de “minissaias ousadas” e de “roupas da moda contemporânea” em uma reportagem que explora registros das décadas de 1960 e 1970, antes da Revolução Iraniana, que levou o país a se tornar uma república islâmica teocrática.

A foto de Teerã voltou a circular de forma descontextualizada em um contexto de turbulência no Afeganistão com a saída das tropas norte-americanas após quase duas décadas de ocupação do território.

Talibã e os Estados Unidos

A mensagem que circula com essa foto diz, ainda, que o governo “socialista” do Afeganistão foi derrubado pelos Estados Unidos, que teria “promovido” o Talibã. Não há, contudo, nenhuma evidência de que esse apoio tenha existido. Essa organização surgiu somente em 1994, cinco anos depois do fim da Guerra Afegã-Soviética. Os norte-americanos apoiaram grupos guerrilheiros islâmicos durante essa guerra, que levou à derrubada de um governo nominalmente comunista, mas o Talibã não existia nessa época.

Durante essa guerra, ocorrida na década de 1980, os Estados Unidos forneceram armas e suporte financeiro a grupos rebeldes mujahedin. Esses movimentos não eram uma organização unida, mas um conjunto de guerrilhas islâmicas regionais que se opunham ao governo central, apoiado pela União Soviética. Alguns dos líderes que viriam a formar o Talibã, incluindo o mulá Mohammed Omar, faziam parte desses grupos. Após derrotar os soviéticos em 1989, os mujahedin conquistaram a capital, Cabul, em 1992, mas nunca conseguiram estabelecer um governo central de fato. 

Liderado por Omar, o Talibã surgiria apenas em 1994. Naquele momento, o Afeganistão era, de fato, governado por diferentes grupos islâmicos regionais. Após uma série de conflitos, a organização tomou o poder em Cabul, em 1996, e impôs um regime islâmico radical. Avanços em termos de direitos das mulheres, que de fato aconteceram entre as décadas de 1950 e 1980, foram completamente eliminados — embora seja importante notar que esse processo já tenha começado com os mujahedin. O Talibã também deu abrigo ao terrorista saudita Osama Bin Laden, assim como a seu grupo terrorista, a Al-Qaeda.

Em 2001, os Estados Unidos, em aliança com diversos outros países incluindo Reino Unido, França e Alemanha, invadiram o Afeganistão. Em um primeiro momento, as forças lideradas pelos norte-americanos conquistaram a capital, Cabul, e instalaram um novo governo. Mas o Talibã se reorganizou e, a partir de 2003, retomou o conflito, retomando o poder central no país em 2021 — quando os Estados Unidos efetivamente retiraram suas tropas do país. Ainda há grupos que resistem ao domínio Talibã em território afegão.

Ligação com a União Soviética

Entre 1953 e 1978, o Afeganistão era um estado oficialmente não-alinhado, liderado na maior parte do tempo pelo primeiro-ministro, e depois presidente, Mohammed Daoud Khan. Embora mantivesse relações próximas com a União Soviética, não era um governo comunista — e, durante todo o período, as autoridades afegãs também mantiveram boas relações com os Estados Unidos. Nessa época, o país registrou avanços significativos em relação aos direitos das mulheres, ainda que sob um regime autoritário. 

Somente em 1978 que o governo afegão se tornou comunista, a partir de um golpe de estado do Partido Democrático do Povo Afegão. Nesse mesmo período, os rebeldes mujahedin, que se opunham tanto à modernização promovida por Khan quanto ao regime comunista que o derrubou, começaram revoltas armadas no interior do país. Em 1979, o governo soviético invadiu o Afeganistão para reprimir essas revoltas e defender o governo central, iniciando a série de conflitos armados que se estende até hoje.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

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