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Marcelo Casal/Agencia Brasil
Marcelo Casal/Agencia Brasil

#Verificamos: Meta-análise de pesquisas indianas não prova que hidroxicloroquina previne Covid-19

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
02.set.2021 | 18h50 |

Circula pelas redes sociais um texto sobre um estudo científico que teria comprovado a eficácia da hidroxicloroquina para prevenir a Covid-19. Trata-se de uma meta-análise, ou seja, uma compilação de resultados de outras pesquisas, feitas com profissionais de saúde na Índia. O artigo concluiu que o uso do remédio teria reduzido a contaminação em 75%. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“Quem vai pedir desculpas aos familiares dos mortos?
AGORA É ESTUDO CIENTÍFICO!!!!
‘Hidroxicloroquina para profilaxia da COVID-19 atinge o mais alto nível de evidência científica'”
Texto que circula no WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A meta-análise de estudos científicos com profissionais de saúde na Índia não prova que a hidroxicloroquina é eficaz para a prevenção da Covid-19. Os dados são apenas preliminares e, portanto, insuficientes para se chegar a qualquer conclusão sobre o assunto. Isso ocorre porque nenhuma das 11 pesquisas incluídas na meta-análise adotou uma metodologia baseada em evidências de alta confiabilidade, ou “padrão-ouro” (página 30). Ou seja, não foi usado o “mais alto nível de evidência científica”. Além disso, pelo menos dois outros estudos sobre o uso profilático do medicamento, que adotaram parâmetros rigorosos de análise, já demonstraram que a hidroxicloroquina não funciona como profilático contra o novo coronavírus.

Para que uma pesquisa científica tenha metodologia padrão-ouro é necessário que siga um conjunto de procedimentos. O ensaio clínico precisa ser randomizado (com escolha aleatória dos participantes), duplo-cego (em que um grupo recebe o medicamento e o outro, placebo, sem que os pesquisadores saibam quem recebeu o quê) e com grupo controle (que não recebe a droga). Tudo isso serve para assegurar que não exista direcionamento ou qualquer viés nos resultados.

Um estudo padrão-ouro publicado no Clinical Infectious Diseases, em junho deste ano, concluiu que a hidroxicloroquina não teve nenhum efeito para prevenir a Covid-19. Participaram da pesquisa 1.483 profissionais de saúde do Canadá e Estados Unidos, sendo que 79% do total lidava com procedimentos capazes de gerar aerossóis, ou seja, com alto risco de contaminação. Os grupos que tomaram 400 miligramas de hidroxicloroquina uma ou duas vezes por semana, durante 12 semanas, tiveram praticamente o mesmo grau de infecção daqueles que receberam placebo. Até mesmo a concentração do remédio no sangue foi medida, mostrando-se levemente mais alta naqueles que tiveram Covid-19.

Resultados semelhantes foram identificados em outro estudo padrão-ouro, publicado em setembro do ano passado no Journal of the American Medical Association (JAMA) Internal Medicine. Nesse caso, 132 profissionais de saúde de dois hospitais receberam 600 miligramas de hidroxicloroquina por dia, durante oito semanas. Essa dose é superior à das pesquisas usadas na meta-análise que circula pelas redes sociais, que analisaram um protocolo adotado na Índia de 800 miligramas no primeiro dia e 400 miligramas uma vez por semana, por mais sete semanas. A análise foi encerrada antecipadamente, porque os resultados apresentados foram considerados suficientes para mostrar que o remédio não funcionava para prevenir a infecção pelo novo coronavírus.

Inconsistências de metodologia

Os estudos indianos usados na meta-análise que circula pelas redes sociais foram do tipo caso-controle (quando são selecionados dois grupos a partir de uma situação de risco) e coorte (que acompanha um determinado contingente de pessoas por um determinado tempo). Os resultados obtidos a partir dessas metodologias, que não representam o “mais alto grau de evidência científica”, costumam indicar a necessidade de pesquisas padrão-ouro para que sejam confirmados. Análises desse tipo estão sujeitas a uma série de fatores que podem levar a conclusões equivocadas.

Entre os problemas apresentados nas pesquisas indianas estão a aplicação de questionários online ou por telefone e a consulta a bancos de dados para saber quem teve ou não Covid-19. As informações fornecidas desse modo não são totalmente confiáveis. Além disso, uma vez que todos os participantes eram profissionais de saúde, outros fatores influenciaram na contaminação ou proteção contra o vírus, como risco de exposição (maior em médicos e enfermeiros que fazem intubações, por exemplo), treinamento e uso apropriado de máscaras. Não é possível saber se foi a hidroxicloroquina que evitou a contaminação por Covid-19 ou alguns desses outros elementos.

Dos 11 estudos citados na meta-análise, apenas nove concluíram que o uso da hidroxicloroquina teria reduzido a infecção pela Covid-19. Ou seja, é falso que essa foi a conclusão de todos eles, como diz o texto. Uma das pesquisas selecionadas, por exemplo, apresentou resultado totalmente contrário, mostrando que não houve benefício para aqueles que tomaram o remédio. Segundo esse artigo, a maioria das pessoas que tiveram Covid-19 havia usado hidroxicloroquina preventivamente. Outra pesquisa analisou apenas o uso de ivermectina e há também um pré-print, ou seja, um estudo que não foi revisado ainda. Todos esses problemas não são detalhados.

Ainda assim, a meta-análise aponta que existem limitações nas pesquisas selecionadas, tanto na metodologia como na falta de homogeneidade dos participantes. E aponta para a necessidade de estudos mais aprofundados sobre o tema – que, no entanto, já existem. “Ensaios randomizados posteriores do uso preventivo da hidroxicloroquina devem ser conduzidos para avaliar esse método promissor de prevenção da Covid-19 e pandemias futuras”, diz o texto.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Chico Marés

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