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#Verificamos: É falso que vacinados contra a Covid-19 terão apenas mais 10 anos de vida

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
09.set.2021 | 18h55 |

Circula pelas redes sociais o vídeo de uma mulher que alerta que as vacinas contra a Covid-19 causam problemas graves de saúde no longo prazo e reduzem a expectativa de vida a partir da imunização a apenas dez anos. Em tom conspiratório, ela credita a informação a cientistas que estariam sendo censurados. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Todas essas injeções vão necessariamente reduzir a sua expectativa de vida. […] A expectativa de vida de quem se injeta é de, no máximo, dez anos. Aliás, dez anos eu tô sendo boazinha, porque a expectativa é que em dois ou três anos a coisa comece a pegar.”
Fala em vídeo que, até 18h do dia 9 de setembro de 2021, havia sido visualizado por 8,6 mil usuários no Instagram

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não há qualquer evidência científica de que os imunizantes contra a Covid-19 levem à morte em até dez anos. Mesmo as vacinas de RNA mensageiro, como a da Pfizer, cuja tecnologia ainda não havia sido utilizada em larga escala, são estudadas há décadas. Na verdade, o efeito da imunização é justamente o oposto, de aumentar a expectativa de vida da população.

O vídeo analisado foi publicado originalmente na sexta-feira (3) na conta de Instagram da influenciadora conhecida como Teacher Daniela. Ela diz que decidiu fazer a gravação, de pouco menos de cinco minutos, após ser perguntada por um seguidor sobre qual vacina deveria tomar, já que ele estaria sendo ameaçado de demissão por justa causa caso se recusasse a tomar o imunizante.

“Não há o menor indício, nem fundamento científico, de que as vacinas poderiam ter alguma interferência na expectativa de vida. Isso é completamente fantasioso”, explica o infectologista Alexandre Naime Barbosa, chefe da Infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), consultor da Associação Médica Brasileira (AMB) e da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). 

Barbosa avalia que o efeito dos imunizantes é exatamente o oposto, o de aumentar a expectativa de vida, já que há a redução ou até a erradicação de doenças por meio da vacinação. Além disso, ele ressalta que grande parte das tecnologias adotadas pelos imunizantes contra a Covid-19 já faziam parte do calendário vacinal brasileiro, com efeitos positivos comprovados há muitos anos.

De fato, pela primeira vez na história, uma vacina foi desenvolvida em um intervalo de menos de um ano. Apesar de esse fato gerar desconfiança, o médico cita quatro fatores que levaram a esse tempo recorde: o investimento sem precedentes em pesquisas, a priorização da avaliação dos imunizantes nas agências reguladoras, os avanços da tecnologia e a familiaridade com coronavírus anteriores. “A tecnologia está muito mais avançada, você não sai da estaca zero. E, além disso, a gente já conhecia dois coronavírus anteriores: o SARS-CoV original e o Mers [que causa a Síndrome Respiratória do Oriente Médio]. Contra esses vírus já havia trabalhos sobre potenciais vacinas”, analisa.

Mesmo a tecnologia do RNA mensageiro, ou mRNA, que ainda não havia sido utilizada em larga escala, vem sendo pesquisada desde os anos 1990. Esse método, adotado no imunizante da farmacêutica Pfizer, consiste em partículas microscópicas de gordura que protegem um fragmento de material genético, o RNA mensageiro. Esse fragmento contém instruções para que as células do corpo humano produzam uma proteína específica do Sars-CoV-2, vírus causador da Covid-19. Assim, o sistema imunológico é estimulado a produzir defesas contra o vírus.

Segundo o infectologista, qualquer suposto efeito colateral de longo prazo provocado pelas vacinas contra a Covid-19 é “mera especulação”. “É a mesma coisa que dizer que eu não vou entrar em um modelo novo de carro porque nunca foi testado e pode capotar. É um risco meramente especulativo frente a um benefício gigantesco que as vacinas já provaram ter na redução brutal na chance de hospitalização e óbito por Covid-19”, defende.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde atestam a segurança das vacinas contra a Covid-19, inclusive as de RNA mensageiro. A Lupa já verificou várias informações falsas relacionadas a essa tecnologia, como a possibilidade de alterar o DNA do imunizado, implantar um chip e causar infertilidade.

Após citar os supostos efeitos devastadores das vacinas, Daniela chega a sugerir, implicitamente, que o seguidor suborne um aplicador de vacina para receber o comprovante de imunização. “Ninguém aqui é criminoso no momento que estamos vivendo um crime mor do Estado”, diz. Em tom de conspiração, ela afirma que obteve todas as informações a partir de lives e artigos de “cientistas renomados” que estariam sendo censurados pelas redes sociais.

A Lupa entrou em contato com Daniela por e-mail, mas não obteve retorno até a publicação desta checagem.

Irlanda

Uma teoria da conspiração semelhante sobre a suposta diminuição da expectativa de vida circulou pela Irlanda, em abril, a partir de um vídeo de Dolores Cahill, ex-professora da escola de medicina da University College Dublin e ex-presidente de um partido de direita. Em uma gravação que viralizou em grupos anti-vacina, Cahill disse que todos que têm mais de 70 anos e tomaram vacinas de RNA mensageiro vão morrer em um intervalo de dois a três anos. Ela também afirmou que todos os outros “injetados” com imunizantes que usam essa tecnologia têm apenas de cinco a dez anos de expectativa de vida.

Cahill foi amplamente rebatida por colegas, que também não viram base científica em seus apontamentos. Após seguidas declarações falsas sobre a Covid-19, a professora virou alvo de um abaixo-assinado na universidade onde lecionava e foi pressionada a renunciar à presidência do partido político que comandava.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Maurício Moraes

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