Tem certeza que deseja sair da sua conta?

#Verificamos: É falso que ONG treina venezuelanos para invadir casas no Brasil

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
13.set.2021 | 10h46 |

Circula pelas redes sociais um vídeo no qual um homem mostra o que parece ser a sala de aula de uma ONG onde estão vários imigrantes venezuelanos. O letreiro sugere que “ONGs comunistas”, supostamente ligadas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao atual presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, teriam sido “flagradas” treinando imigrantes para “invadir casas no Brasil”. 

Na gravação, de pouco mais de 2 minutos, o narrador  menciona um vídeo, que teria sido publicado recentemente e que “repercutiu em toda Roraima”, no qual os integrantes da organização supostamente incentivaram os venezuelanos a “invadir domicílios”. Depois de acusar os profissionais da ONG, o homem se dirige às pessoas que estão na sala e pede que não invadam casas porque isso é crime. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa​:

“VENEZUELANOS IMIGRANTES RECEBEM TREINAMENTO PARA INVADIR CASAS NO BRASIL. ONGS COMUNISTAS LIGADAS A LULA LADRÃO E A MADURO FORAM FLAGRADAS NO BRASIL” 

Conteúdo de vídeo compartilhado no Facebook que, até as 11h do dia 10 de setembro de 2021, tinha 138 mil visualizações

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O vídeo é de 2018, não de 2021, como sugere a publicação. A gravação também não mostra um flagrante de treinamento sobre como invadir casas no Brasil. Na verdade, mostra a sede do Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR) na cidade de Boa Vista, capital de Roraima. Essa organização estava sendo falsamente acusada pelo autor do vídeo de dar treinamentos para venezuelanos sobre como invadir casas no Brasil. A informação foi desmentida na época. 

Ao acusar, sem provas, que os integrantes da organização estavam ensinando imigrantes a invadir casas, o narrador se referia a uma filmagem, alvo de polêmica naquele ano, que mostrava o momento em que um grupo de venezuelanos recebia orientações jurídicas sobre o processo de desocupação de um imóvel. Essa gravação foi retirada de contexto e compartilhada como se fosse parte de um treinamento para invadir propriedades de brasileiros em Roraima. A pessoa que aparece conversando com o grupo não ensina e tampouco estimula a invadir uma propriedade e, sim, explica que para desapropriar um local, é preciso, por exemplo, de um mandado judicial. 

Na época, a assessoria de imprensa do SJMR informou ao jornal O Estado de S. Paulo que a gravação que acabou se tornando polêmica foi feita após a desocupação de uma pousada abandonada em Boa Vista. O local estava ocupado há pelo menos quatro meses e um representante da ONG falava com um grupo sobre o processo legal de desocupação – que requer uma ordem judicial para ser feito. Ele não incentivou a invasão, mas explicou os aspectos jurídicos que envolvem esse processo. 

Ao jornal local Folha de Boa Vista, o então presidente da OAB de Roraima chegou a afirmar, naquela ocasião, que o Conselho de Ética da instituição iria avaliar se a orientação dada aos migrantes estava ou não correta. 

Em razão da disseminação desse conteúdo fora de contexto, integrantes da ONG sofreram ameaças de morte e linchamentos virtuais. Uma nota conjunta, assinada pelo SJMR, pelo  Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida (Olma) e por outras 40 instituições de todo o Brasil e do exterior, foi publicada na ocasião, em repúdio às ameaças ao trabalho do SJMR em Boa Vista.

Vale pontuar que o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados é uma instituição católica ligada à Companhia de Jesus, também conhecida como Ordem dos Jesuítas, fundada há quase 500 anos. Não há qualquer registro público de que essa organização tenha ligações com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou com o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Maurício Moraes

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

A Lupa está infringindo esse código? Clique aqui e fale com a IFCN

 

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo