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#Verificamos: Em vídeo, médica usa informações falsas para pôr em xeque a segurança das vacinas contra Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
13.set.2021 | 10h31 |

Circula no WhatsApp o vídeo de uma entrevista com a médica Maria Emilia Gadelha Serra. Na gravação, de mais de 4 minutos, ela discorre sobre vários supostos problemas relacionados às vacinas contra a Covid-19. A médica começa afirmando que a maioria dos casos graves da doença hoje no Brasil ocorre em pessoas que já foram vacinadas. 

Sobre a CoronaVac, Serra diz, entre outros pontos, que o Instituto Butantan, que desenvolveu a vacina no Brasil em parceria com o laboratório chinês Sinovac, não informa a quantidade de alumínio na fórmula. Ela também afirma que, durante os estudos dessa vacina, foi usado um tipo de placebo com 500 microgramas de alumínio na fórmula, o que seria tóxico. Ainda sobre o alumínio, a profissional sugere que esse metal está associado ao Alzheimer. 

Ao falar dos imunizantes da Janssen, da AstraZeneca e da Pfizer/ BionTech, a médica sugere que essas fórmulas transformam o organismo das pessoas vacinadas em “fábricas de proteína spike”, a proteína do novo coronavírus que se liga às células humanas, permitindo a sua invasão. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

A maioria dos casos graves hoje em dia são de vacinados no Brasil. Isso nós vemos no dia a dia das últimas semanas. (…)” 

Frase em vídeo que circula em grupos de WhatsApp 

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. De acordo com levantamento feito pelo Ministério da Saúde para a Lupa, foram notificados 792.596 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em 2021 — esse dado inclui tanto os casos confirmados para Covid-19 quanto os casos sem determinação da causa da doença. Desse total, 156.825 pessoas (19,8%) já tinham recebido a primeira dose da vacina contra a Covid pelo menos 14 dias ou mais antes do início dos sintomas; e 59.514 (7,5%) havia recebido a segunda dose da vacina 14 dias ou mais antes da data do início dos sintomas. As pessoas totalmente imunizadas, portanto, representam a minoria, e não a maioria, dos casos de SRAG.

Em nota, a assessoria de imprensa da pasta ressaltou que os dados repassados para a reportagem são preliminares. “Para análise, é necessário levar em consideração o número de indivíduos imunizados, o momento epidêmico da vacinação e do uso de cada vacina, o tempo de observação decorrido para cada imunizante, entre outras covariáveis. As interpretações sobre a efetividade ou impacto da vacina não podem ser desprendidas destes dados da maneira como estão apresentados”, diz o texto.

O Ministério da Saúde também destacou que as vacinas não impedem a ocorrência de formas graves da Covid, apenas as reduzem substancialmente e, por isso, a campanha de vacinação começou pelos grupos mais vulneráveis ao Sars-CoV-2, como os idosos e pessoas com comorbidades. “Outro ponto a ser considerado é que já foram alcançadas coberturas vacinais superiores a 90% nos idosos, o que resultou em uma queda substancial na ocorrência de casos graves e óbitos por Covid-19 nesse público”, informa a nota. 

Vale pontuar que um estudo divulgado em junho pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e pela Universidade Harvard (EUA), em parceria com o Ministério da Saúde, mostrou que as vacinas ajudaram a reduzir a mortalidade em idosos. De acordo com o levantamento, a campanha de imunização evitou a morte de cerca de 43 mil brasileiros com idade acima de 70 anos em um período de 90 dias. O trabalho analisou mais de 238 mil óbitos por Covid-19 entre janeiro e maio deste ano em todo país.  

Os resultados mostraram que a proporção de idosos entre o total de óbitos por coronavírus caiu de quase 28%, em janeiro, para 12% (entre quem tem mais de 80 anos) e 16% (entre quem tem de 70 a 79 anos) em maio. As mortes por outras causas permaneceram estáveis no período. 

Em resposta à checagem feita pela Lupa, a médica Maria Emilia Gadelha Serra enviou um documento com 56 páginas nas quais enumera referências de artigos científicos e compila trechos desses artigos para justificar seu posicionamento. Sobre a frase acima, a médica argumentou que, no vídeo, se referia à Inglaterra e a Israel. Contudo, aos 12 segundos do vídeo, a médica menciona o Brasil ao falar da “maioria dos casos graves hoje em dia de vacinados”, antes de seguir dando exemplos de outros países. 


“(…) Agora aqui no Brasil, o banco de dados da Anvisa, primeiro complexo pra você fazer uma notificação. Pra você olhar o sistema VigiMed, que é o sistema para ler os relatórios, e ter uma noção do que tava acontecendo. Por exemplo, eu fiz esse estudo no dia 12 de julho e depois no dia 30 de julho. E aí o aumento no número de casos. A Janssen, mais do que dobrou o número de casos nesses 10 dias, né, um pouquinho mais de 10 dias. Ou seja, nós temos CoronaVac com 20% de notificações sendo de Covid. Quase 23% de notificações de óbito depois da CoronaVac.” 

Frase em vídeo que circula em grupos de WhatsApp 

FALSO

Os dados do VigiMed – sistema da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para relatos de suspeitas de eventos adversos a medicamentos e vacinas – não podem ser usados como indicadores de problemas causados pelas vacinas. Isso porque qualquer pessoa pode inserir um relato na plataforma. Essas informações são investigadas posteriormente, para identificar se o problema teve alguma relação com um imunizante ou remédio. Portanto, não é possível afirmar que a maioria dos casos graves de Covid-19 foi registrada em pessoas já imunizadas a partir das informações desse sistema.

Por e-mail, a assessoria de imprensa da Anvisa explicou que os dados disponíveis no Painel de Notificações de Farmacovigilância referem-se a suspeitas de reações adversas e que não necessariamente essas notificações trazem dados suficientes para o estabelecimento de relação causal entre a vacina e o evento relatado — como óbito, por exemplo. “Entre os óbitos notificados à Anvisa não há relação causal identificada que altere o que já se sabe sobre as vacinas e a relação positiva entre benefício e risco”, diz a nota enviada pela agência. A Anvisa também informou que monitora e investiga os eventos e que essas informações são parte do conjunto maior de dados utilizados para o acompanhamento da relação de benefício-risco de um medicamento ou vacina. 

Além disso, os percentuais de aumento de notificações das vacinas Janssen ou CoronaVac, indicados no vídeo, não têm qualquer relação com o que é, de fato, mostrado no Painel de Notificações de Farmacovigilância. Como já explicado pela Lupa, os dados disponíveis nessa plataforma não podem ser usados como “prova” de que as vacinas contra a Covid-19 aplicadas no Brasil são perigosas e podem causar problemas de saúde ou levar à morte. A ferramenta não permite chegar a esse tipo de conclusão. 

“Até o momento, os dados conhecidos sustentam que as vacinas são seguras e efetivas. É natural ter um número maior de notificações para as vacinas contra Covid-19 pois, além de a Anvisa incentivar a notificação, as pessoas estão mais sensíveis por se tratar de um medicamento novo, para uma doença nova e que tem despertado maior interesse da população”, conclui a nota enviada pela agência.

Maria Emilia Gadelha Serra, em resposta à Lupa, compartilhou a reprodução na íntegra de alguns trechos do Manual de Vigilância Epidemiológica de Eventos Adversos Pós-Vacinação da Anvisa. Em um desses trechos está a informação de que estudos clínicos pré-comercialização (fases I, II e III) deveriam definir todos os eventos desfavoráveis de vacinas e que, diante de algumas limitações, como o número reduzido de pessoas expostas à vacina previamente à aprovação e o período de duração dos estudos, não é possível identificar eventos tardios porque poderiam ocorrer muitos anos após a exposição. A médica afirma que os dados do VigiMed para relatos de suspeitas de eventos adversos a medicamentos e vacinas podem e devem ser usados como indicadores e questiona se as informações lançadas no sistema estão sendo de fato investigadas e monitoradas. Serra também argumenta que “é fato conhecido que a subnotificação dos eventos adversos das vacinas é extremamente elevada” e cita um estudo realizado pelo Sistema de Notificação de Eventos Adversos de Vacinas (Vaers), dos Estados Unidos, que afirma que “os eventos adversos das vacinas são comuns, mas subnotificados, com menos de 1% relatados à agência Food and Drug Administration (FDA)”.  

Por fim, a médica apresentou gráficos do VigiMed para “reafirmar e comprovar” que casos de notificações de eventos adversos da Janssen mais que dobraram em oito dias de intervalo. Ela questiona o fato de a maioria dos estados brasileiros não apresentarem notificação de eventos adversos depois da CoronaVac. Sugere ainda que a Anvisa faça um relatório para entender o nexo de causalidade entre óbitos relatados no sistema.

Como já explicado, os dados do painel são de suspeitas de reações adversas ou mesmo óbito, que podem ser relatadas por qualquer pessoa. Essas informações não podem ser usadas como prova. 


“(…) A CoronaVac não diz quanto de alumínio ela tem. O Butantan alegou sigilo industrial (…)”

Vídeo que circula em grupos de WhatsApp 

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A referência sobre a presença de alumínio na CoronaVac é pública e está disponível na bula do imunizante no site do Instituto Butantan e também no site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Esse metal está presente na forma do composto químico hidróxido de alumínio. De acordo com a assessoria de imprensa do Instituto Butantan, que desenvolveu a CoronaVac em parceria com o laboratório chinês Sinovac, a quantidade de hidróxido de alumínio presente na fórmula é de 0,45 miligramas por mililitro (ml) — cada dose de 0,5 ml, portanto, contém 0,225 mg, o equivalente a 225 microgramas. Essa é a mesma quantidade que foi utilizada no placebo durante os testes clínicos e não é considerada tóxica. 

De acordo com o professor Aguinaldo R. Pinto, chefe do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia e do Laboratório de Imunologia Aplicada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), vacinas constituídas de vírus atenuados ou mortos, como é o caso da CoronaVac, precisam ter adjuvantes (substâncias que ajudam a desencadear a resposta imune), caso contrário não funcionam. “O adjuvante mais utilizado é o hidróxido de alumínio, que também está presente nas vacinas contra a gripe e contra hepatite B, entre outras”, explicou, por telefone.

Em resposta à Lupa, a médica afirmou que a presença de alumínio não é adequada por ser um metal tóxico para o sistema nervoso central e para os rins, entre outros órgãos. Ao longo das páginas 22 a 26 do documento que enviou, Serra copiou trechos de artigos, entre os quais Segurança Comparativa dos Adjuvantes de Vacinas: Um Resumo das Evidências Atuais e Necessidades Futuras, de 2015, que sugere que vários imunizantes foram implicados como potenciais gatilhos para doenças autoimunes. Alguns dos artigos citados em trechos apenas sugerem que é preciso “decifrar a relação potencial entre os adjuvantes e as reações adversas às vacinas raras”, mas sem apresentar um estudo conclusivo. 

Em resposta aos argumentos de Serra, o professor da UFSC Aguinaldo R. Pinto explicou que é comum, na pesquisa científica, profissionais que pensam diferente da corrente majoritária e produzam artigos que mostram um outro lado. Contudo, “a maioria das fontes citadas pela médica são artigos mesmo, às vezes retirados de contexto, ou assinados por pesquisadores que não são uma sumidade na área”, observou. Ainda sobre o alumínio, o professor informou que a maioria dos estudos disponíveis indicam que não existe correlação entre doenças e o hidróxido de alumínio usado como adjuvante. 


“(…) O placebo de uma vacina deveria ser algo inerte, tipo soro fisiológico (…) Usaram hidróxido de alumínio [na CoronaVac] (…)”

Conteúdo de vídeo que circula em grupos de WhatsApp 

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Embora a fórmula utilizada para aplicação de placebo em estudos clínicos sobre vacinas não contenha substâncias ativas e seja “inerte”, ou seja, sem nenhum efeito no organismo, isso não quer dizer que necessariamente sejam como “soro fisiológico”. Segundo a Anvisa, o placebo é produzido para parecer com o tratamento real, porém sem nenhuma substância ativa, ou seja, as duas fórmulas normalmente contêm os mesmos componentes, com exceção do antígeno.

No caso da CoronaVac, por exemplo, foram usados os mesmos componentes da fórmula real da vacina contra a Covid-19 nas doses do placebo. A única diferença é que, no placebo, não foi adicionada a proteína do novo coronavírus, conhecida como proteína spike ou proteína “s”. Essa informação é pública e consta no site da Anvisa

De acordo com o professor Aguinaldo R. Pinto, essa prática é comum quando se realizam estudos clínicos para um imunizante. “Quando você faz o placebo, você vai colocar as mesmas coisas que têm na vacina — menos a proteína “s” no caso da CoronaVac. É natural que no placebo se tenha tudo que tem na fórmula original. Então se na vacina tem hidróxido de alumínio, é natural que no placebo tenha hidróxido de alumínio também” explicou, por telefone. 

O hidróxido de alumínio é um componente comum em vacinas à base de vírus inativado, tecnologia usada na produção da CoronaVac. Esse tipo de imunizante tem um componente que se chama adjuvante, uma substância que ajuda a gerar a resposta imune necessária para combater uma doença. O hidróxido de alumínio é o adjuvante mais usado e liberado para o uso em seres humanos. “Não dá para falar que é segredo industrial. É conhecido que o hidróxido de alumínio é um adjuvante. Então se tem na vacina, vai estar na bula”, diz o professor Aguinaldo R. Pinto.

A bula da CoronaVac está disponível na página do Instituto Butantan, instituição brasileira que produz a vacina em parceria com o laboratório chinês Sinovac. De acordo com o documento, além do antígeno do vírus inativado Sars-CoV-2, cada dose de 0,5 mL contém  hidróxido de alumínio, hidrogenofosfato dissódico, di-hidrogenofosfato de sódio, cloreto de sódio e água para injetáveis. Esses elementos também estavam presentes no placebo usado nos testes clínicos, segundo relatório disponível no site da Anvisa (página 25).  

Em resposta à Lupa, Maria Emilia Gadelha Serra disse que, embora comum, é “metodologicamente inaceitável o uso dos mesmos componentes da vacina no placebo. Isso porque, segundo ela, isso “compromete a análise de segurança da vacina que está sendo testada”. Na opinião da médica, “não ter nenhuma substância ativa” no placebo significa que deveria ser usada apenas a solução salina de cloreto de sódio 0,9%, o soro fisiológico. ”Nenhum produto que contenha metais tóxicos ou outros tipos de adjuvantes se enquadra como inerte. Ponto final”, escreveu. Como explicado, o hidróxido de alumínio é liberado para uso em humanos.


“E  no caso do alumínio, especificamente, a quantidade tolerada de alumínio para uma mulher ou para um homem é de 10 microgramas por litro de sangue. Então a mulher tem quatro litros, um homem tem cinco litros. A mulher toleraria 40 microgramas e o homem 50 microgramas”

Conteúdo de vídeo que circula em grupos de WhatsApp 

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A concentração máxima de alumínio normalmente observada em indivíduos normais é de 10 microgramas por litro de sangue, mas isso não quer dizer que essa seja a concentração máxima tolerada. Estudos indicam que concentrações acima de 200 microgramas por litro é que estão associadas a sinais clínicos de toxicidade.  

Vale destacar que a quantidade de alumínio ingerida por meio de alimentos e líquidos diariamente já supera o dado citado pela médica. Embora as estimativas variem em cada país, uma pesquisa publicada em 2005 sobre a presença desse metal nos alimentos nos Estados Unidos mostrou que a ingestão diária é em torno de 3 e 12 miligramas — o equivalente a 3000 e 12.000 microgramas, ou seja, pelo menos 75 vezes mais, no caso das mulheres, do que o número apresentado no vídeo. Uma única porção de algumas comidas pode ter até mais que isso. 

Para a professora do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Ana Paula Herrmann, o fato de que o alumínio é consumido diariamente durante a alimentação já coloca em perspectiva qualquer pequena quantidade desse metal que possa estar eventualmente presente em uma vacina que é aplicada pontualmente. Segundo ela, uma pizza ou mesmo uma dose de antiácido pode ter infinitamente mais alumínio do que os imunizantes.

“O raciocínio que relaciona a concentração máxima tolerada de alumínio no sangue não faz sentido, pois uma coisa é a quantidade de alumínio na vacina, que é injetada por via intramuscular, e outra coisa é a concentração plasmática de alumínio no sangue que a vacina vai gerar”, explicou, por WhatsApp. De acordo com a professora, existem processos de absorção, distribuição e eliminação daquilo que é administrado no organismo. “A conta só fecharia se 100% da quantidade de alumínio da vacina fosse parar somente no sangue, e de lá nunca saísse. E isso obviamente não é verdade. É praticamente uma questão de lógica”, ressaltou.

Em resposta à Lupa, Maria Emilia Gadelha Serra disse que o fato de o alumínio estar presente em alimentos não significa que ele será efetivamente absorvido. Segundo ela, por meio da injeção intramuscular o alumínio pode chegar à corrente sanguínea e linfática e, uma vez distribuído, “acontecerá depósito em diferentes tecidos”. Segundo a médica, “quando se trata do ingrediente adjuvante mais utilizado nas vacinas, o alumínio, muitas perguntas ainda precisam ser respondidas”. A médica apresenta links de mais de 10 referências como fontes de seus argumentos. 

Contudo, entre as referências apresentadas em sua resposta (página 33), algumas são de documentos que não dizem respeito a vacinas e outras já foram contestadas pela própria comunidade científica. Uma delas, por exemplo, intitulada “Adjuvantes de alumínio usados ​​em vacinas versus placebo ou nenhuma intervenção”, é o protocolo de uma revisão sistemática ainda sem resultados. De acordo com a professora Ana Paula Herrmann, outra referência citada por Serra foi um ensaio pré-clínico em moscas e camundongos — que já foi alvo, inclusive, de críticas.


“Se o placebo da CoronaVac tinha 500 microgramas [de alumínio], isso é uma dose 10 vezes maior e tóxica” 

Conteúdo de vídeo que circula em grupos de WhatsApp 

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Como explicado acima, concentrações acima de 200 microgramas de alumínio por litro de sangue é que estão associadas a sinais clínicos de toxicidade. Esse não é o caso do placebo usado durante os estudos clínicos da CoronaVac.

De acordo com o Butantan, o alumínio está presente na forma do adjuvante hidróxido de alumínio. Cada dose da CoronaVac (e, consequentemente, do placebo usado nos testes) contém 0,45 miligramas desse composto por mililitro — o equivalente a 225 microgramas para 0,5 mililitro. Essa quantidade é aprovada pela Anvisa e não é considerada tóxica. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), não causa problemas de saúde no longo prazo e, além disso, a própria OMS informa que as pessoas ingerem alumínio regularmente por meio de alimentos ou bebidas. 

Como também já explicamos, o alumínio presente no imunizante ou no placebo é injetado, junto aos outros componentes, por via intramuscular, e isso não significa que o composto irá se concentrar no sangue. O corpo absorve, distribui e elimina o que foi administrado no organismo. 

Em resposta à checagem da Lupa, Maria Emilia Gadelha Serra disse que uma única dose da CoronaVac contém 225 microgramas de alumínio. “Portanto, ao receber a segunda dose, o indivíduo ‘vacinado’ terá recebido um total de 450 microgramas de alumínio no curto intervalo de tempo de 28 dias. Ao fazer um rápido cálculo matemático, percebemos que o nível tóxico foi atingido”, respondeu. Ela também afirmou que “a eliminação de alumínio não é tão simples como foi dito”.  

No entanto, a professora e doutora em farmacologia ouvida pela Lupa Ana Paula Herrmann ressaltou que somar a quantidade de alumínio presente em duas doses da vacina (separadas por um intervalo de aproximadamente um mês) e calcular a concentração plasmática que resultaria, considerando o volume total do espaço vascular, é equivocado, “pois ignora os processos farmacocinéticos de absorção, distribuição e excreção (as próprias referências citadas pela médica consideram esses processos)”, explicou, por e-mail

Herrmann também citou revisão sistemática com meta-análise publicada em 2004 na revista científica Lancet que não encontrou evidências de que os sais de alumínio nas vacinas causem quaisquer eventos adversos graves ou de longa duração.


“O alumínio (…) está envolvido por exemplo em casos de doença de Alzheimer” 

 Conteúdo de vídeo que circula em grupos de WhatsApp 

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não existem, até o momento, evidências de que o contato com metais como alumínio aumente o risco de desenvolver a doença de Alzheimer. Organizações como a britânica Alzheimer’s Society e a Alzheimer’s Association consideram essa relação causal um mito. A professora de farmacologia da UFRGS Ana Paula Herrmann explicou que estudos realizados nos anos 60 e 70 sugeriram uma relação, mas isso não foi confirmado em estudos posteriores e mais recentes. 

“Isso não é o mesmo que dizer que o alumínio não é neurotóxico (assim como outros metais em excesso), mas as evidências não mostram que a ingestão rotineira de pequenas quantidades de alumínio através dos alimentos e utensílios de cozinha seja prejudicial, até porque apenas uma pequena parte é absorvida, e quase tudo é prontamente excretado pelos rins”, disse. 

Para a professora, é absurdo relacionar o alumínio que pode estar presente em vacinas  — e que são administradas pontualmente ao longo da vida — com risco futuro de Alzheimer. “Parece apenas uma teoria requentada dos primórdios do movimento antivacina e da (já desmentida) associação de vacinas com autismo, caso em que o alumínio também chegou a ser culpado”, concluiu. 

Ao responder à Lupa, Serra argumentou que desde 2015 existem evidências de que as partículas revestidas de alumínio (adjuvantes) injetadas no organismo com a vacina se disseminam “pelos nódulos linfáticos” (…) e se acumulam lentamente no cérebro, “sugerindo ainda que a segurança do alumínio deve ser avaliada a longo prazo”. A médica citou ainda uma meta-análise, realizada também em 2015, para investigar se a exposição crônica ao alumínio estaria associada ao aumento do risco de doença de Alzheimer. A análise “sugere que a exposição crônica ao alumínio está associada” ao aumento do risco dessa doença. Serra também mencionou o artigo “Aluminium in brain tissue in autism“. Nesse estudo, disse a médica, por meio de autópsia mediu-se alumínio em tecido cerebral de pessoas com autismo e verificou-se que o conteúdo era extraordinariamente alto.

Em réplica, a professora Ana Paula Herrmann esclareceu que a existência de controvérsia na literatura científica não é incomum em relação à associação entre alumínio e Alzheimer. “Justamente por isso as evidências devem ser avaliadas criticamente e o risco de viés deve ser levado em consideração ao fazer a síntese do conjunto da literatura (para isso existem metodologias preconizadas, que evitam a seleção arbitrária de estudos específicos). Reitero que o consenso das sociedades científicas da área é de que não existem evidências sugerindo uma relação causal, muito menos em relação ao alumínio proveniente de vacinas”, explicou. 

Herrmann também destacou que diversos papers que atribuíram problemas de saúde às vacinas acabaram sendo retratados ou retirados da literatura científica. Ela citou alguns exemplos, como uma retratação publicada em 2017 sobre associação de vacinas com autismo.


“E aí as outras vacinas — Janssen, a AstraZeneza e a vacina de RNA mensageiro, que é a Pfizer no Brasil e a outra é a Moderna, nos Estados Unidos e na Europa —  esses produtos são totalmente absurdos, no sentido de que não tem como você imaginar que você vai tornar uma pessoa ‘vacinada’”

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FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Todas as pesquisas realizadas até o momento indicam que as vacinas da  AstraZeneza, da Pfizer e da Moderna conferem imunidade contra a Covid-19 nas pessoas que tomaram duas doses. No caso da Janssen, a proteção também ocorre após a aplicação da dose única. Isso significa que quem tomou essas fórmulas está, sim, vacinado. 

Esses imunizantes foram autorizados por agências reguladoras nacionais e internacionais, incluindo a OMS. Para receber essa autorização, os laboratórios responsáveis forneceram informações comprovadas por meio de testes clínicos de que as fórmulas são eficazes, em diferentes proporções, para prevenir a doença.

No Brasil, por exemplo, desde que a campanha de vacinação começou, em janeiro deste ano, a queda no número de mortos pela doença é um indício da efetividade da imunização em grupos que já receberam duas doses.

A médica entrevistada no vídeo afirmou, em resposta à Lupa, que existem “sérios questionamentos se os produtos que estão sendo referidos como ‘vacinas’ contra Covid-19 realmente o são” e que as fórmulas da AstraZeneca, Janssen e Pfizer utilizam tecnologias de terapia gênica e que, portanto, “não se enquadram no conceito clássico de ‘vacina’”.   

Contudo, conforme pontuou o chefe do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC,.Aguinaldo R. Pinto, terapia gênica é quando se repõe um gene que uma pessoa tem defeituoso. Nessa técnica, insere-se um gene funcional dentro da célula que substituirá o gene defeituoso para tratar doenças. “Você coloca o gene dentro de alguém e ele vai estar funcionando, estará ativo. Já as vacinas são feitas com uma metodologia de engenharia genética. Mas isso é outra coisa, não é o mesmo que terapia gênica. Para fazer a terapia gênica também se utilizam vírus como vetores — como é o caso da AstraZeneca, por exemplo. Mas isso não quer dizer que seja a mesma coisa”, ressaltou o pesquisador, por meio de um áudio no WhatsApp.


(…) Vai torná-la [a pessoa vacinada] uma fábrica de proteína spike, né, aquelas espículas do vírus”

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FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Diferentemente do que afirma a médica do vídeo, não é verdade que as vacinas transformem o organismo da pessoa imunizada em uma “fábrica” de spike, proteína do novo coronavírus. Especificamente no caso da fórmula da Pfizer/BioNTech, que usa a tecnologia de RNA mensageiro, ou da Moderna (não autorizada para uso no Brasil), é injetado no organismo o código genético do vírus com “instruções” para que as células do corpo produzam a spike. Com isso, essa proteína é identificada pelo sistema imunológico como algo estranho e o organismo “aprende”, então, a se defender quando em contato com o vírus. Só que essa produção de proteína spike é apenas momentânea, ou seja, a pessoa não irá produzir para sempre essa proteína. 

“A produção de spike é de curta duração, somente alguns dias após a vacinação. Para estimular a resposta imune, é preciso a proteína spike. O RNA deve entrar na célula e lá, como todo e qualquer RNA mensageiro, ele vai traduzir (fazer) proteína. Mas somente por um curto período. O que importa no final é ter a spike: ou recebemos isso na forma de proteína ou recebemos o RNA mensageiro que vai codificar a proteína dentro de nós”, explicou, por telefone, o chefe do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC, Aguinaldo R. Pinto.

Já as vacinas que usam um adenovírus como vetor viral, como é o caso da Janssen e da AstraZeneca, não “ensinam” as células a produzirem a spike por um período limitado. Nessa tecnologia, usa-se um adenovírus, vírus comum de resfriado, para carregar as informações genéticas da spike para dentro do organismo e, dessa forma, estimular o sistema imune a combater a Covid-19. Esses adenovírus não conseguem se replicar no organismo humano, mas são reconhecidos pelas células e estimulam a resposta imunológica. Essas fórmulas, portanto, não fazem com que o organismo produza a proteína spike por um curto período, tampouco os adenovírus se reproduzem dentro do organismo.

Em resposta à checagem, a autora do vídeo afirmou (página 43) que, até onde ela tem conhecimento, não existe informação publicada sobre o tempo de produção da proteína spike no organismo. No entanto, um estudo sobre vacinas com a tecnologia de RNA mensageiro, publicado há quase 10 anos, já mostrava que o tempo de produção de proteínas de um vírus após uma dose de vacina é de até nove dias (figura 1B). 

Na sequência, Maria Emilia Gadelha Serra apresentou, ao longo de várias páginas, menções a artigos sobre o assunto. Em um deles, escreveu que a proteína spike do coronavírus é altamente tóxica e responsável pela intensa reação inflamatória. Porém, que “ainda não se sabe se a versão sintética induzida pela vacina seria mais ou menos segura do que a versão selvagem, havendo já enorme debate no meio científico devido ao grande número de registro de eventos adversos graves nos órgãos de farmacovigilância”. 

Outros trechos e citações de artigos feitos pela médica falam da proteína spike presente no vírus e não necessariamente na versão sintética induzida pela vacina. Em outra referência, fala de uma teoria, ainda não comprovada, porém apoiada por especialistas, que sugere que “pessoas vacinadas causariam doenças em pessoas não vacinadas após o simples contato com secreções contendo proteínas spike em sua composição”.  


“Não houve tempo de estudo. Esse tempo [estudo] ele tem que ser feito antes, ele tem que ser feito nos animais, na parte dos animais, tem que ser feito separado, para identificar os efeitos na parte reprodutiva, para saber se acontecem mal formações congênitas ou outros danos”
Conteúdo de vídeo que circula em grupos de WhatsApp 

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Embora as vacinas contra a Covid-19 tenham sido desenvolvidas em tempo recorde, isso não quer dizer que os estudos não levaram tempo. Muitas das tecnologias usadas para fabricação dos imunizantes já são pesquisadas há décadas, como é o caso das fórmulas que usam vírus inativado. Além disso, todas passaram por experimentos em laboratórios, testes em animais e, por fim, testes de fase 1, 2 e 3 em seres humanos.

“As tecnologias de vetor viral com adenovírus (AstraZeneca, Janssen) e de RNA mensageiro (Pfizer) já estavam sendo estudadas há muitos anos. Já se sabia. Quando apareceu a doença, cientistas pegaram uma tecnologia e rapidamente adaptaram. Uma vacina de RNA por exemplo, demora apenas algumas semanas para ser produzida”, explicou o chefe do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC, Aguinaldo R. Pinto.

No caso das fórmulas desenvolvidas a partir de vetor viral como é o caso da AstraZeneca, os adenovírus usados como vetor já haviam sido testados em vários ensaios clínicos de fase 3 contra várias outras doenças. “Embora não estivessem licenciadas, essas tecnologias e os estudos já existiam”, afirma o professor. 

Sobre possíveis danos ao sistema reprodutor, o especialista da Universidade Federal de Santa Catarina ressaltou que a produção de proteína spike após a vacina é local e momentânea, ou seja, não “migra” do músculo do braço ou da nádega e nem se integra nas células. “Isso é fantasioso. Nenhuma dessas vacinas se integra no DNA das células. Para ter um problema no sistema reprodutor, teria que se integrar nas células do sistema reprodutor, dos ovários ou dos testículos. E as vacinas não chegam lá”, disse.

Em resposta ao trabalho de checagem da Lupa, a médica afirmou (página 49) que “até o momento o ser humano não conseguiu controlar o tempo. E o tempo para detectar a segurança, monitorar os eventos adversos e realizar os procedimentos de farmacovigilância são necessários”.  Ela também afirmou que o processo de pesquisa de vacinas é de, no mínimo, cinco anos. 


“Hoje em dia o que já se sabe é que a proteína spike sozinha é tóxica. Ela causa efeitos danosos em vários órgãos: sistema nervoso central, no coração, fazendo miocardite, ou no pulmão, fazendo pneumonia, ou a síndrome da angústia respiratória, a lesão renal, a hepática do fígado” 

Conteúdo de vídeo que circula em grupos de WhatsApp 

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não está claro se a médica se refere à proteína spike produzida brevemente no organismo em resposta à vacina ou se ela fala da proteína encontrada no próprio coronavírus apenas. Pelo contexto da fala, Serra dá a entender que se refere ao primeiro caso. Não existem evidências de que as proteínas spike produzidas brevemente no organismo em resposta às vacinas de RNA mensageiro, como a da Pfizer/BioNTech, sejam prejudiciais. 

Em uma entrevista à Lupa em junho deste ano, a biomédica Mellanie Fontes-Dutra, pesquisadora da UFRGS e da divulgadora científica pela Rede Análise Covid-19, disse que a spike é uma glicoproteína utilizada pelo vírus para diversas funções, entre elas a ligação a um receptor humano. “Não há evidências de que essa proteína apresente toxicidade por si só”, afirmou.

Conteúdos sobre a possível toxicidade da proteína spike circularam depois que o imunologista canadense Byram Bridle, em uma entrevista realizada em maio, associou os imunizantes a casos de coágulos sanguíneos e ao risco de infertilidade. Segundo ele, “ao vacinar as pessoas, estamos inadvertidamente inoculando-as com uma toxina”. 

Como já explicado pela Lupa, Bridle, professor da Ontario Veterinary College, no Canadá,  se referia a um relatório produzido pela farmacêutica Pfizer na fase pré-clínica de desenvolvimento de seu imunizante contra a Covid-19. O documento estava disponível no site do órgão regulatório japonês equivalente à Anvisa. O objetivo era avaliar o trajeto feito por nanopartículas lipídicas, que são um dos componentes da vacina da Pfizer, no corpo de ratos de laboratório. A pesquisa, todavia, não concluiu que a proteína spike causa “milhares de efeitos colaterais”, nem que se trata de uma “toxina”. As interpretações da pesquisa mencionada pelo canadense foram rebatidas por especialistas.

Vale pontuar que o estudo citado pelo imunologista não mostra a circulação da proteína spike na corrente sanguínea, e, sim, o trajeto feito pelas nanopartículas lipídicas (pedaços microscópicos de gordura, que servem como uma espécie de “envelope” para carregar um RNA mensageiro) pelo corpo. Além disso, em sua conclusão, os pesquisadores da Pfizer avaliaram que as substâncias injetadas nos ratos foram eliminadas por meio do metabolismo ou da excreção fecal, não permanecendo no organismo.

A médica do vídeo, em resposta à Lupa (página 51), voltou a dizer que a proteína spike é tóxica. Segundo ela, não é possível garantir que o processo de produção breve de proteína spike induzida pela vacina da Pfizer/BioNTech, por exemplo, possa ser controlado.   

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Editado por: Maurício Moraes

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