Tem certeza que deseja sair da sua conta?

#Verificamos: Adolescentes vacinados contra Covid-19 não têm 6 vezes mais chances de problemas cardíacos

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
22.set.2021 | 17h55 |

Circula pelo WhatsApp um texto sobre um estudo que provaria que, ao serem vacinados contra o novo coronavírus, os adolescentes teriam até seis vezes mais risco de sofrerem problemas cardíacos do que de serem hospitalizados com a Covid-19. A pesquisa, conduzida nos Estados Unidos, tem sido usada para desestimular a vacinação de jovens, já que contrair o Sars-CoV-2 supostamente seria menos arriscado do que buscar a imunização. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“Estudo descobre que meninos adolescentes têm seis vezes mais probabilidade de sofrerem de problemas cardíacos por causa da vacina do que serem hospitalizados pelo COVID”
Título de texto do site ‘Covidflix’ que circula em grupos de WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O estudo mencionado foi publicado em formato pré-print, ou seja, ainda precisa passar pela revisão de outros cientistas. Com isso, não é possível chegar a qualquer conclusão sobre o assunto usando essa pesquisa. Além disso, especialistas apontaram falhas na metodologia adotada, que se baseia nos dados de um sistema de notificação de eventos adversos – plataformas com essa característica não podem ser usadas para essas análises, porque os relatos ainda precisam ser investigados.

O estudo em questão foi publicado em 8 de setembro no medRxiv, uma plataforma voltada a pré-prints. Assinam o texto quatro pesquisadores norte-americanos, incluindo uma cientista da Universidade da Califórnia. A análise baseou-se em dados de adolescentes entre 12 e 17 anos informados de janeiro a julho ao Sistema de Notificação de Eventos Adversos de Vacinas (Vaers, na sigla em inglês), dos Estados Unidos. 

Os pesquisadores buscaram na base de dados do Vaers, dentro do público-alvo estabelecido, os termos “miocardite”, “pericardite” e “miopericardite”, que são formas de inflamação do coração, além de “dor no peito”. O termo “troponina”, que é uma enzima ligada à lesão miocárdica, era obrigatório no filtro da busca. Dessa forma, o estudo chegou a 257 eventos cardíacos adversos notificados à plataforma.

Como conclusão, os pesquisadores apontaram que garotos entre 12 e 15 anos sem comorbidades e que receberam a segunda dose da vacina contra a Covid-19 têm de 3,7 a 6,1 vezes mais risco de enfrentarem eventos cardíacos adversos do que serem hospitalizados com a Covid-19. Os imunizantes mencionados são os que usam a tecnologia do RNA mensageiro, como Pfizer e Moderna.

A plataforma medRxiv, que divulgou o pré-print, reforça que os trabalhos ali publicados ainda precisam ser revisados por pares: “Os artigos relatam novas pesquisas médicas que ainda não foram avaliadas e, portanto, não devem ser usadas para orientar a prática clínica”.

Uma reprodução do título de um artigo do periódico The BMJ, do Reino Unido, que discutia o estudo, circulou nas redes sociais brasileiras. No entanto, dias depois de publicado, o título foi alterado, ressaltando que o artigo norte-americano é “profundamente falho” na avaliação de  especialistas que o analisaram.

Os cientistas advertiram que os dados que embasaram o estudo foram coletados de uma fonte inapropriada, com o intuito de entregar uma mensagem antivacina. A plataforma Vaers – que está vinculada ao Centro para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) e ao Food and Drug Administration (FDA), agência norte-americana de regulação de alimentos e medicamentos – coleta relatos de reações adversas que qualquer pessoa tenha observado após receber uma vacina. Esses relatos não foram necessariamente investigados, nem é possível estabelecer uma relação direta entre eventuais efeitos adversos e as vacinas. O próprio sistema avisa que as notificações podem conter “informações incompletas, imprecisas, coincidentes ou não-verificáveis”.

As informações são coletadas pelo Vaers para que as autoridades reguladoras consigam monitorar os efeitos das vacinas e eventualmente reconsiderem suas autorizações para uso, caso julguem necessário.

Em junho, o CDC reconheceu a existência de uma “ligação provável” entre casos de miocardite e pericardite e jovens de até 30 anos que receberam a segunda dose da vacina contra a Covid-19. No entanto, o órgão ressaltou que esses casos são geralmente leves e extremamente raros. Além disso, reforçou que essas consequências são muito mais comuns ao se contrair a Covid-19, e que os riscos ao coração causados pelo vírus podem ser mais severos.

A Lupa já verificou duas outras informações falsas decorrentes da interpretação equivocada dos dados do Vaers: a de que os imunizantes contra a Covid-19 causaram 501 mortes e a de que levaram à hospitalização de 15 mil pessoas.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Maurício Moraes

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

A Lupa está infringindo esse código? Clique aqui e fale com a IFCN

 

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo