Tem certeza que deseja sair da sua conta?

#Verificamos: É falso que agricultura retira mais CO2 da atmosfera do que florestas

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
27.set.2021 | 17h28 |

Circula no WhatsApp a informação de que a agricultura retira mais dióxido de carbono (CO2) da atmosfera do que as florestas. De acordo com a publicação, um hectare de milho, por exemplo, consegue sequestrar entre 15 e 20 toneladas desse gás que é um dos responsáveis pelo aumento das reações causadas pelo efeito estufa. Em comparação, uma floresta tropical virgem não sequestra mais do que 15 toneladas de CO2 por hectare. A fonte dessas informações é atribuída à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“O AGRO É MAIS …
Um hectare de Soja consegue sequestrar de 10 a 15 ton/ha de Co2, um hectare de milho de 15 a 20 ton/ha, um hectare de pastagem de 2 a 3 ton/ha, um ano no ciclo da agricultura com soja no verao e milho safrinh+brachiaria retira do ar pelo menos cerca de 30 ton/ha de Co2 e estoca isto no solo. Um hectare de floresta tropical virgem nao sequestra mais de 15 ton/ha de Co2 por ano. A agricultura retira mais Co2 da atmosfera que as florestas. Fonte- Embrapa Cerrado, 2007. Não é a agricultura que vai acabar com o mundo, é a Ignorancia!!!”

Conteúdo de vídeo que circula em grupos de WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Plantações de soja ou de milho não retiram ou “sequestram” mais dióxido de carbono do que florestas tropicais. Retirar CO2 é um processo natural realizado por qualquer planta durante a fotossíntese. Isso, no entanto, só traz benefícios quando o dióxido de carbono, um dos responsáveis pelo efeito estufa no planeta, fica retido no sistema, geralmente no solo, como um “estoque” em vez de voltar para a atmosfera – nesse caso, há um sequestro de CO2

Mesmo que as culturas citadas na publicação sejam capazes de sequestrar uma quantidade significativa desse composto químico, ou seja, que possam absorver CO2 e mantê-lo no solo, essa retenção é momentânea. Cultivos como o da soja, por exemplo, voltam a emitir CO2 logo após a colheita e ao longo de todo ciclo (manejo, processamento, transporte e descarte, entre outros) até chegar ao consumidor.

Do ponto de vista climático, a retirada de CO2 pelas plantações apenas pela fotossíntese não tem nenhuma importância. “Carbono bom é o que fica parado no solo. Se fica indo e vindo da atmosfera, não faz diferença”, explicou à Lupa David Montenegro Lapola, pesquisador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da Universidade de Campinas (Cepagri-Unicamp). Já as florestas sequestram o CO2 e conseguem mantê-lo no solo. Isso ocorre, por exemplo, na serrapilheira, nome dado à camada formada por restos de folhas, galhos, frutos e restos de animais, entre outros, localizado na camada acima do solo.

Um estudo publicado em 2020 pela revista Nature mostrou que florestas tropicais são responsáveis por metade do carbono armazenado do planeta. “Sequestrar carbono é manter carbono no sistema, naquele pedaço de chão. E a agricultura não faz isso, porque o milho e a soja, por exemplo, são colhidos meses depois. Então mesmo que a planta retire CO2 durante seu processo natural de crescimento e de fotossíntese, depois que ela é colhida o CO2 volta para a atmosfera de novo”, explica Jean Ometto, pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Monoculturas como a soja ou milho precisam ser novamente semeadas depois que termina o ciclo da colheita, ou seja, a planta morre depois que foram colhidos os grãos e o próprio processo de decomposição do que restou da planta emite CO2. “Quando crescem, as plantas retiram CO2 da atmosfera para constituir sua biomassa (folhas, tronco, fruto). Ela aloca o carbono que estava no CO2 e o transforma em carboidratos que formam essa biomassa, ou seja, a parte estrutural. Mas no ano seguinte, onde esse CO2 vai estar? No fim do ciclo do cultivo, ele foi embora para atmosfera de novo”, afirmou o pesquisador da Unicamp.

Florestas, por outro lado, já têm essa biomassa e, embora exista a dinâmica natural de morte de organismos que se decompõem e emitem CO2, a quantidade de carbono que entra é maior do que a que sai. Segundo David Montenegro Lapola, o número de sequestro de carbono por florestas é em torno de 1,8 tonelada de CO2 por hectare por ano — e não 15 toneladas, como informou o post. “Isso é alto. Floresta tropical é o ecossistema que mais vem contribuindo para tirar carbono da atmosfera”, ressaltou o pesquisador. 

Informações citadas não são da Embrapa

Também não é verdade que a Embrapa tenha publicado esses dados em 2007, como sugere a publicação. A assessoria de imprensa da instituição informou que a peça de desinformação distorce dados de uma análise parcial do ciclo do carbono, publicada em 2007, com outros dados cujas fontes são desconhecidas e faz “conclusões que fogem ao trabalho científico publicado”. 

Naquele ano, um dos braços da organização, a Embrapa Algodão — e não a Embrapa Cerrados —, publicou uma revisão sobre o balanço energético na agricultura e sobre o sequestro de carbono pelas plantas em agroecossistemas naturais e cultivados.  Naquela ocasião, os autores demonstraram o potencial fisiológico das plantas em absorver e metabolizar o CO2 atmosférico. “Em momento algum foi descrito naquele trabalho que o carbono ‘sequestrado’ seria fixado no solo. Retirar ou capturar o CO2 da atmosfera, por meio da fotossíntese, não significa que esse CO2 permanecerá retido no solo por longos anos ou décadas. Apesar da fitomassa vegetal e os seus resíduos serem a principal fonte de C orgânico no solo, boa parte desse C é perdida por meio do processo de decomposição da matéria orgânica, ou também pela erosão, sobretudo quando não são adotadas práticas conservacionistas de manejo do solo”, informou a empresa, em nota.

A Embrapa salientou que os dados da publicação feita há 14 anos não são os mesmos  utilizados na postagem que viralizou em correntes de WhatsApp. O documento original sequer cita dados de milho e de pastagem e em nenhum momento é afirmado no trabalho dos pesquisadores dados sobre sequestro de CO2 por florestas ou mesmo que a agricultura retira mais CO2 da atmosfera. 

“O sequestro de carbono não pode estar desacoplado do fundamental papel das florestas em termos de biodiversidade e de serviços ambientais do ecossistema, como a recarga do lençol freático e de aquíferos, e até a própria questão da manutenção dos expressivos estoques de carbono no solo, desde as camadas mais superficiais até em maiores profundidades”, informou a nota. A Embrapa também ressaltou que “precisamos dos dois, agricultura e floresta” e que “conciliar alta produtividade agrícola, com conservação das florestas, do solo e da água, é um desafio da agricultura brasileira”. 

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Maurício Moraes

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

A Lupa está infringindo esse código? Clique aqui e fale com a IFCN

 

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo