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#Verificamos: É incorreta comparação de dados de desmatamento de governos FHC, Lula, Dilma e Bolsonaro

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
27.set.2021 | 18h40 |

Circula pelas redes sociais a reprodução de um tuíte que compara a área desmatada na Amazônia durante os governos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Dilma Rousseff (PT) e Jair Bolsonaro (sem partido). A publicação sugere que a imprensa persegue o atual mandatário, já que a área desmatada durante sua gestão seria consideravelmente menor em comparação aos antecessores. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Contra fatos não há argumentos. Vejam o total desmatado da Amazônia, por governo:
FHC: 153 mil Km²
Lula: 125 mil Km²
Dilma: 36 mil Km²
Bolsonaro: 2,9 mil Km²
Por que a imprensa só fala sobre o desmatamento do governo atual? Nós sabemos a resposta. #AmazoniaSemONGs #PrayforAmazonia”
Texto em imagem publicada no Facebook que, até as 17h do dia 27 de setembro de 2021, havia sido compartilhada por 20 mil pessoas

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não existem indicadores comparáveis entre si que permitam verificar a área total desmatada durante cada governo desde a gestão FHC. Ainda que isso fosse possível, seria metodologicamente errado compará-las, já que os ex-presidentes citados não ocuparam o cargo pelo mesmo período de tempo. Além disso, as estatísticas oficiais mostram uma considerável aceleração do ritmo de desmatamento na Amazônia Legal durante o governo Bolsonaro, o que contraria a ideia de que a derrubada de árvores na atual gestão é inferior a de seus antecessores.

O tuíte em questão, que foi reproduzido em outras redes sociais e voltou a circular, foi originalmente publicado em 22 de agosto de 2019. Os números citados das gestões FHC, Lula e Dilma são semelhantes aos do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), anualmente produzido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) desde 1988.

No entanto, o autor do tuíte não se atentou ao fato de que as estatísticas do Prodes levam em conta o período de agosto a julho, seguindo o calendário de seca na região em que há um pico de derrubadas. Como os mandatos presidenciais se iniciam em 1º de janeiro e terminam em 31 de dezembro, em determinados anos, os dados do sistema misturam informações de dois governos. Dessa forma, o único período comparável de FHC a Bolsonaro é o que se inicia no primeiro mês de agosto do mandato e segue até o fim de julho do ano seguinte.

Comparando esse período específico, com 10,8 mil km² derrubados entre agosto de 2019 e julho de 2020, o governo Bolsonaro, de fato, registrou um ritmo de desmatamento amazônico menor que o de FHC (18,1 mil km² em 1995/1996 e 18,2 mil km² em 1999/2000) e Lula (27,7 mil km² em 2003/2004 e 12,9 mil km² em 2007/2008) em seus dois mandatos. Por outro lado, a área desmatada durante o atual governo é 137% maior em comparação à de Dilma (4,5 mil km² em 2011/2012), e 56% maior que a de Temer (6,9 km² em 2016/2017), de acordo com os dados da plataforma do Inpe.

Apesar de não representar fielmente os mandatos presidenciais, o Prodes indica uma grande queda dos índices de desmatamento amazônico ao longo do governo Lula. De acordo com o sistema, a área derrubada entre 2003 e 2004, de 27,7 mil km², caiu para 7,4 km² entre 2009 e 2010. A tendência de baixa continuou durante o início do primeiro mandato de Dilma, que registrou, entre 2011 e 2012, o menor número da série histórica, iniciada em 1988. Entretanto, o desmatamento voltou a subir entre 2014 e 2015, ainda durante a gestão de Dilma, seguiu aumentando durante o governo Temer, até atingir o maior patamar desde 2007/2008 durante a gestão Bolsonaro.

O Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter), também ligado ao Inpe, corrobora com o que é apontado pelo Prodes. Apesar de ser menos preciso, o Deter também é considerado uma estatística oficial, já que dá suporte a órgãos de controle do desmatamento ao emitir alertas de áreas com sinais de devastação.

Em agosto de 2015, o sistema passou por reformulações para se tornar mais preciso. Desde então, é possível constatar que o ritmo de desmatamento na Amazônia é consideravelmente maior sob o governo Bolsonaro do que no de Temer, seu antecessor. Em 2017 e 2018, anos completos em que Temer esteve no cargo, a área sob alerta de desmatamento no Deter foi de 3,5 mil km² e 4,9 mil km², respectivamente. Já nos dois primeiros anos com Bolsonaro no poder, os índices subiram para 9,1 mil km², em 2019, e 8,4 mil km², em 2020.

Outros monitoramentos também mostram a aceleração do desmatamento amazônico sob o governo Bolsonaro. De acordo com o sistema de alerta do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), a região perdeu 10.476 km² de floresta entre agosto de 2020 e julho de 2021, registrando o pior resultado dos últimos dez anos.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

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SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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