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#Verificamos: É falso que ‘médico’ irlandês avisou que Bill Gates e Fundação Gavi irão ‘lançar’ epidemia do vírus Marburg

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
08.out.2021 | 14h59 |

Circula em correntes de WhatsApp a informação de que, na Irlanda, um médico e diretor de hospital “avisou“ que o empresário e fundador da Microsoft, Bill Gates, juntamente à Aliança Global para Vacinas e Imunização (Gavi, na sigla em inglês), lançarão em breve uma nova epidemia chamada Marburg. A publicação é acompanhada da reprodução de um trecho de uma entrevista desse suposto médico. Segundo o post, ele também já teria alertado que eles — Bill Gates e a Gavi — fizeram até mesmo testes PCR para detectar o Marburg, vírus semelhante ao Ebola. O texto ainda sugere que esse vírus já está sendo “espalhado” na terceira dose das vacinas. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“Médico diretor de hospital na Irlanda avisa que o bill gates e a gavi irão lançar uma nova epidemia chamada Marburg.”

Texto que circula em correntes de WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O homem que aparece na imagem não é médico e nem diretor de hospital na Irlanda. Ele se chama Kieran Morrissey, e se apresenta como engenheiro químico que trabalhou em um hospital universitário em Dublin, capital irlandesa, e não como médico ou diretor. Em seu perfil no Twitter, Morrisey se apresenta como alguém “obcecado em encontrar a verdade e expô-la” e informa que não é uma pessoa antivacinas, mas é contra o que ele chamou de “culto à Covid-19”. Não há qualquer registro público de que algum médico e gestor de alguma unidade hospitalar no país europeu tenha feito declaração a respeito de uma possível pandemia do Marburg, vírus similar ao Ebola.

Também não é verdade que esse engenheiro “avisa” que Bill Gates e a Gavi Alliance, iniciativa global para melhorar o acesso a vacinas para crianças de países em desenvolvimento, lançarão uma nova epidemia. Diferentemente do que sugere o post, durante uma entrevista em setembro ao site norte-americano JellyFish, Morrisey conta que encontrou um “alerta” sobre o Marburg publicado na página oficial da Gavi. Ele então questiona o fato de a organização já ter publicado um material sobre o assunto. Segundo ele, esse texto, intitulado “The next pandemic: Marburg?” (A próxima pandemia: Marburg?, em tradução livre) representa um interesse da instituição nesse vírus, e isso, segundo ele, é motivo de suspeita porque as infecções pelo Marburg são raras.

Ao longo do vídeo, ele apenas reitera que achou suspeita a publicação do material. Em nenhum momento ele avisa que a instituição, juntamente ao empresário, lançarão uma epidemia. Na conversa, também reproduzida em texto, o engenheiro contou sobre suas “pesquisas” acerca de vacinas.

Texto faz parte de uma série sobre diferentes vírus 

O texto citado pelo engenheiro foi publicado no site da Gavi em 22 de abril deste ano numa seção do site chamada The Next Pandemic. Trata-se de uma série de textos que vêm sendo publicados desde março com informações acerca de vários vírus que podem potencialmente provocar uma nova pandemia. Não é, portanto, um alerta específico sobre o Marburg. O site já publicou sobre o Ebola, Chikungunya, Febre Amarela e Hantavírus, entre outros. Todos os conteúdos dessa série seguem o mesmo padrão: explicam as características do vírus, quando foi identificado, os sintomas, diagnóstico, como se espalha, se há tratamento ou vacina e, por fim, como reduzir o risco de uma possível pandemia.

Especificamente sobre o Marburg, o texto informa que esse vírus foi identificado pela primeira vez em 1967 na Alemanha. Cerca de 40 anos depois do primeiro surto, diz o texto, o vírus ressurgiu na Europa por meio de um viajante que retornou à Holanda de uma viagem a Uganda, onde havia visitado cavernas.

O texto ainda detalha que, pelo fato do vírus se espalhar de humano para humano por meio do contato de fluidos corporais, surtos na Europa e nos Estados Unidos já demonstraram que globalização e viagens internacionais significam que o risco de propagação global pode ser alto. 

A Gavi Alliance foi criada no ano 2000 a partir de uma iniciativa da Fundação Bill & Melinda Gates junto ao Banco Mundial, Organização Mundial da Saúde (OMS), Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e empresas produtoras de vacinas.

Marburg causa febre hemorrágica

Os vírus Marburg e Ebola são ambos membros da família Filoviridae (filovírus). Embora causadas por vírus diferentes, as duas doenças são clinicamente semelhantes e provocam febre muito alta, dores musculares e, em alguns casos, hemorragias em várias partes do corpo, como gengivas, olhos ou nariz. 

O primeiro surto foi identificado em 1967 em trabalhadores de um laboratório na Alemanha. O vírus foi transmitido por macacos verdes (Chlorocebus sabaeus) expedidos de Uganda para a Europa. Pesquisas indicaram que o hospedeiro do Marburg é uma espécie de morcego frugívoro africano, o Rousettus aegyptiacus. Primatas podem ser infectados por esse vírus.

Em agosto deste ano, a notícia da morte de uma pessoa provocada pelo Marburg na República da Guiné passou a ser retirada de contexto e gerou uma onda de desinformação sobre o vírus no Brasil. Em setembro, o ministro da Saúde da Guiné e a OMS declararam o fim do surto no país africano. 


“Já fizeram até testes PCR pra ele (…)”

Texto em imagem que circula em correntes de WhatsApp

VERDADEIRO, MAS

A informação analisada pela Lupa é verdadeira, mas está fora de contexto. Desde que foram identificados os primeiros casos de Marburg nos anos 1960, foram desenvolvidos diversos testes para detectar a infecção pelo vírus. A metodologia de reação em cadeia da polimerase, popularmente conhecida por PCR (ou reverse transcription polymerase chain reaction, na sigla em inglês), é uma delas. Esse método para identificar vírus é usado desde meados dos anos 1980

Testes para detectar infecção por vírus em humanos são ferramentas importantes para monitoramento de epidemias e prevenção e controle de doenças infecciosas. Em maio de 2021, um grupo de pesquisadores da China desenvolveu um método de PCR capaz de identificar, simultaneamente, os vírus Marburg e Ebola. 



E esse vírus já está sendo espalhado na terceira dose das VACINAS.”

Texto em imagem que circula em correntes de WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O último surto de Marburg foi registrado em 2017, quando foram confirmados quatro casos na Uganda. Em agosto desde ano, um único caso foi registrado na Guiné. Não há qualquer registro de casos de infecção pelo Marburg no Brasil ou em países onde a terceira dose de vacinas contra o novo coronavírus ou qualquer outro tipo de vacina está sendo aplicada. Não é possível, portanto, afirmar que esse vírus está sendo espalhado por meio de imunizantes. 

No site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é possível consultar a formulação das vacinas contra o Sars-CoV-2 que vêm sendo aplicadas no Brasil e em alguns países. Os imunizantes da Pfizer/BioNTech e do Instituto Butantan (CoronaVac), que demandam uma terceira dose de reforço, não contêm em sua fórmula nenhum material genético ou mesmo versão inativada ou atenuada do vírus Marburg.

Um conteúdo similar também foi verificado pelo Boatos.org.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Chico Marés

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