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#Verificamos: É falso que Tabata Amaral criou ‘PL dos Absorventes’ e quis beneficiar empresário com proposta

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
14.out.2021 | 16h26 |

Circula pelo WhatsApp que a deputada Tabata Amaral (PSB-SP) é a criadora do Projeto de Lei (PL) 4.968/19, conhecido como PL dos Absorventes, que criava o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual. A publicação também sugere que a parlamentar teve a campanha financiada por Jorge Paulo Lemann — empresário que, segundo a mensagem, seria dono da P&G, multinacional que fabrica absorventes femininos. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“Tabata Amaral criadora da PL dos absorventes teve sua campanha financiada pelo empresário Jorge Paulo Lemann, que por coincidência pertence á empresa P&G que fabrica absorventes”
Texto que circula em correntes de WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O empresário Jorge Paulo Lemann, um dos sócios da fábrica de bebidas multinacional AB InBev e da 3G Capital, não financiou a campanha da deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP). Lemann também não tem qualquer relação com a P&G. A multinacional tem capital aberto, ou seja, não tem um único dono. Em nota, a assessoria de imprensa do executivo explicou que ele não possui ações ou qualquer tipo de vínculo com fabricantes de absorventes femininos. 

Além disso, o PL 4.968/19, projeto de lei que propôs a criação do Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual é de autoria da deputada federal Marília Arraes (PT-PE), e não de Tabata Amaral. Embora não seja autora, Tabata contribuiu com dois projetos (PLs 428/2020 e 1999/2021) que foram apensados, ou seja, incorporados à proposta original de Marília Arraes. 

Em uma consulta ao portal de informações de candidaturas e contas eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), é possível verificar os nomes de todas as pessoas que contribuíram para a campanha de Tabata Amaral quando ela concorreu ao cargo de deputada federal em 2018. Jorge Paulo Lemann não aparece entre os colaboradores e, portanto, não teve qualquer participação como financiador ou patrocinador. Ele também não aparece entre os colaboradores da campanha de Marília Arraes.

Além disso, Lemann não tem qualquer ligação com a Procter & Gamble (P&G), multinacional que fabrica, entre outros itens, os absorventes íntimos da marca Always. Lemann é um dos fundadores da brasileira Ambev, fabricante de bebidas que em 2004 se juntou à belga Interbrew para formar a Anheuser-Busch InBev, maior fabricante de bebidas e cervejas do mundo. Ele é também um dos fundadores da 3G Capital, empresa que controla marcas como Burger King e Heinz, entre outras.

Procurada pela Lupa, a assessoria de imprensa da P&G informou que a empresa multinacional é de capital aberto fora do Brasil, ou seja, o capital é constituído por ações, negociadas em bolsa de valores, que podem ser adquiridas por qualquer pessoa. Isso significa que a organização não tem um dono, mas é dirigida por um conselho administrativo. “Vale destacar também que embora a P&G admire todo o trabalho do empresário Jorge Paulo Lemann e já tenha feito parcerias com as instituições sociais criadas por ele, o executivo não faz parte do Conselho da P&G”, explicou a nota. 

A empresa ainda ressaltou que é apolítica: “não emitimos opiniões sobre política, partidos e/ou candidatos, incluindo contribuições financeiras para campanhas políticas, partidos e/ou candidatos”.

Em nota enviada à Lupa via WhatsApp, Tabata rebateu diferentes peças de desinformação que associam seu nome ao PL 4.968. “Isso é um infeliz retrato do que vem sendo lutar por políticas públicas sérias em um país em que a falta de escrúpulos e as bizarrices parecem ter tomado conta da política”, escreveu. 

Vetos de Bolsonaro

Em 7 de outubro, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sancionou a lei que institui o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual (14.214/21), fruto do projeto 4.968/19 de autoria da deputada Marília Arraes. Contudo, o chefe do Executivo vetou os principais pontos do projeto aprovado na Câmara. Na proposta original, estava prevista a distribuição gratuita de absorventes higiênicos para estudantes carentes dos ensinos fundamental e médio, mulheres em situação de vulnerabilidade e presidiárias.

O veto de Bolsonaro foi alvo de críticas da bancada feminina na Câmara e expôs a realidade da pobreza menstrual no Brasil — conceito usado para a situação na qual meninas e mulheres não têm recursos, infraestrutura e conhecimento para cuidar da sua menstruação. Um dia depois do veto, o presidente voltou atrás e informou que o governo federal irá trabalhar para viabilizar a distribuição de absorventes.

Acusação sem provas 

A peça de desinformação envolvendo Tabata Amaral e Jorge Paulo Lemann viralizou depois que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) publicou um tuíte, em 10 de outubro, no qual acusou, sem provas, Tabata Amaral  de “parecer querer” atender ao lobby de Jorge Paulo Lemann — que seria, segundo o filho de Bolsonaro, “mentor-patrocinador” da parlamentar e “um dos donos da produtora de absorventes P&G”. 

Como explicado acima, Lemann não é dono da P&G. A multinacional tem capital aberto e tem, portanto, vários acionistas. O empresário brasileiro não tem nenhuma ação dessa empresa e não está entre os membros do conselho administrativo

A assessoria de imprensa de Tabata Amaral também afirmou que ela nunca recebeu patrocínio de Jorge Paulo Lemann. Na verdade, Tabata recebeu uma bolsa de estudos da Fundação Estudar durante parte do tempo em que estudou na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Essa instituição foi fundada há 30 anos por Lemann com o propósito de custear bolsas para estudantes de graduação e pós-graduação. Receber ajuda de custo por meio da fundação não necessariamente significa receber patrocínio direto do empresário. “No meu segundo ano de faculdade, a Fundação Estudar me ofereceu uma ajuda de custo, no valor de US$ 500 ao ano, que foi integralmente paga de volta depois que me formei”, disse a deputada.

Em nota, a assessoria de imprensa do empresário reforçou que ele não tem qualquer vínculo com Tabata Amaral. “A deputada, assim como outras mais de 600 lideranças nacionais, faz parte da Rede de Líderes Fundação Lemann, filantropia familiar sem fins lucrativos. A Rede de Líderes Fundação Lemann conecta lideranças de diferentes perfis, que possuem autonomia e independência em suas atuações. A estes membros não há nenhum repasse financeiro, relação profissional ou apoio para campanhas políticas, seja da Fundação Lemann ou do próprio empresário”. 

A Lupa também entrou em contato com o deputado Eduardo Bolsonaro, que não respondeu até a publicação desta checagem.

Esse conteúdo também foi verificado pelo Boatos.org.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Maurício Moraes

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