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Foto: Senado Federal
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Relatório final da CPI da Covid omite ondas de desinformação sobre a pandemia

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
20.out.2021 | 20h23 |

Divulgado oficialmente nesta quarta-feira (20), o relatório final da CPI da Covid no Senado omite ondas de desinformação que ganharam força nas redes sociais durante a pandemia. No texto, o relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL), detalha sete ondas de desinformação, que se caracterizam pela aparição recorrente de conteúdos falsos sobre um mesmo tema em um curto espaço de tempo. Contudo, o documento deixa de lado três das avalanches de notícias falsas detectadas pela Lupa, que foram identificadas claramente nas redes sociais. Duas delas tiveram participação do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). 

Uma das ondas não citadas no texto diz respeito a hospitais que supostamente estariam vazios durante a pandemia. Nesse tipo de publicação, pessoas mostravam imagens das unidades de saúde dizendo estarem sem pacientes ou filmavam hospitais de campanha. Além disso, afirmavam que esses locais não teriam casos de Covid-19. A conclusão dos autores dessas gravações era que as autoridades estariam aumentando os números de óbitos e casos da doença para inflar a pandemia. Esse tipo de desinformação contou com a colaboração de parlamentares.

Em abril de 2020, por exemplo, um homem visitou o Hospital Leonardo da Vinci, unidade dedicada a pacientes com Covid-19 em Fortaleza (CE), e gravou imagens da recepção do estabelecimento, que aparentava estar vazio. Na época, a Lupa consultou um painel da Secretaria de Saúde do Ceará e constatou que 48 dos 93 leitos do hospital estavam ocupados. A unidade recebia apenas casos confirmados de Covid-19 e, por essa razão, eles eram imediatamente internados, não precisando esperar na recepção para poder receber o atendimento.

Casos semelhantes se popularizaram após Bolsonaro incitar pessoas a invadirem hospitais e filmarem os leitos, em junho de 2020. “[Se] Tem hospital de campanha perto de você, hospital público, arranja uma maneira de entrar e filmar. Muita gente está fazendo isso e mais gente tem que fazer para mostrar se os leitos estão ocupados ou não. Se os gastos são compatíveis ou não. Isso nos ajuda”, disse. Poucos dias depois, cinco deputados estaduais do Espírito Santo entraram em um hospital da região e passaram duas horas realizando uma vistoria. O Ministério Público do Espírito Santo recebeu uma notícia-crime contra o grupo e iria apurar possíveis irregularidades. 

Hospitais de campanha também foram invadidos por parlamentares do Rio de Janeiro e de São Paulo. O primeiro caso aconteceu em maio de 2020, quando o deputado estadual Filippe Poubel (PSL) entrou em um hospital de campanha em São Gonçalo (RJ) com seguranças armados. O episódio de São Paulo aconteceu em junho de 2020, quando cinco deputados estaduais invadiram o hospital de campanha no Anhembi.

Outra onda de desinformação que foi deixada de lado no relatório diz respeito aos caixões que supostamente estariam sendo enterrados vazios. Boatos falando sobre o enterro de urnas funerárias sem corpos começaram em abril de 2020 e falavam especificamente sobre o caso do Amazonas. A fórmula desse conteúdo falso foi replicada para outros estados brasileiros. Nas redes sociais, a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) também divulgou esse conteúdo falso, acusando o Ceará de estar enterrando caixões vazios.

Curas milagrosas

Receitas milagrosas também foram assunto de conteúdos falsos compartilhados nas redes sociais. Ao menos em uma ocasião, Bolsonaro divulgou esse tipo de material. O relatório da CPI da Covid cita a indicação do chamado “tratamento precoce” como uma onda de desinformação, que consiste na utilização de medicamentos como cloroquina em pacientes com a doença. Outros remédios e chás foram usados em publicações para dar falsas esperanças para a população.

Publicações afirmaram que chás como de alho, jambu e limão, erva-doce ou boldo poderiam auxiliar no tratamento contra a Covid-19. Essa informação foi desmentida pelo Ministério da Saúde na época. 

O próprio presidente já defendeu a utilização de chás como forma de tratamento. Em maio deste ano, depois de visitar comunidades indígenas, Bolsonaro afirmou: “[Perguntei] ‘e não morreram por quê? O que aconteceu? Tomaram alguma coisa? Vamos lá pessoal, anota aí’. Segundo eles, está em vídeo, tomaram chá de carapanaúba, saracura ou jambu. Não tem comprovação científica, certo? Mas tomaram isso”. Até o momento, não existe nenhuma infusão que tenha sua eficácia comprovada contra a Covid-19.

Relatório

O relatório da CPI da Covid no Senado detalha ao todo sete ondas de desinformação durante a pandemia da Covid-19. A primeira era sobre a origem do vírus. Na época, publicações especularam se o Sars-Cov-2 não seria uma criação humana para acabar com alguns países. A China, país onde o vírus foi detectado pela primeira vez, também foi alvo de publicações xenófobas nas redes durante esse período.

A segunda onda sobre desinformação dizia respeito a informações falsas sobre isolamento social, que fez muitos brasileiros duvidarem se a medida era realmente eficaz. Já a terceira tentou isentar a responsabilidade do governo Bolsonaro da pandemia. Posts afirmavam que o Supremo Tribunal Federal (STF) afastou o presidente do controle da Covid-19, deixando essa responsabilidade exclusivamente para os governadores e prefeitos. Como mostrado pela Lupa, essa informação é falsa.

A quarta e a quinta ondas foram campanhas coordenadas para incentivar a utilização do “tratamento precoce” para pacientes com Covid-19 e distorções dos números da pandemia. Em muitos casos, o Portal de Transparência do Registro Civil foi usado para insinuar que os números de mortes em 2020 eram menores do que em 2019, quando ainda não havia pandemia – uma conclusão errada sobre os dados. Informações falsas sobre máscaras e vacinas configuraram como a sexta e sétima ondas de desinformação, segundo o relatório da CPI. Até hoje a Lupa desmente conteúdos falsos sobre os imunizantes contra a Covid-19. 

Em nota, a assessoria de imprensa de Renan Calheiros afirmou que o recorte feito para abordar as ondas tem ligação direta com o descumprimento das normas sanitárias de contenção da pandemia, tais como máscaras e lockdown. “Mesmo considerando  a relevância das outras ondas, o recorte foi necessário pela ausência de legislação para punir fake news (por isso o projeto de lei proposto pelo relator), cabendo o enquadramento da conduta dos disseminadores em incitação ao crime”, apontou.

Editado por: Maurício Moraes e Marcela Duarte

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