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#Verificamos: É falso que vacina da Covid-19 insere RNA em genoma humano

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
20.out.2021 | 19h54 |

Circula pelas redes sociais um vídeo do médico irlandês Gerard Waters em que ele levanta a suspeita de que a vacina contra a Covid-19 poderia inserir RNA no genoma humano. Além disso, ele se diz preocupado com a possibilidade de infertilidade causada pela vacina e afirma que uma das causas do linfoma de Burkitt é a inserção do RNA viral nas pessoas. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa​:

“O que me preocupa [em relação à vacina] agora é a inserção desse RNA no genoma humano”
Médico irlandês Gerard Waters em vídeo postado no Facebook que, até as 16h de 20 de outubro de 2021, tinha 945 compartilhamentos

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O ácido ribonucleico (RNA) não altera o genoma humano. Na verdade, o genoma humano é formado por ácido desoxirribonucleico (DNA). O RNA, assim como o DNA, é uma molécula criada no núcleo das células. O DNA armazena a informação genética, enquanto o RNA mensageiro (ou mRNA) leva essa informação para o citoplasma, local acontece a síntese de proteínas. Em outras palavras, o mRNA é a forma como a célula lê a “receita” contida no DNA e fabrica as proteínas de que o organismo necessita.

O homem que aparece no vídeo é médico mas, em março deste ano, Gerard Waters foi suspenso pelo Conselho Médico da Irlanda após se recusar a administrar vacinas da Covid-19 em pacientes. De acordo com o portal local The Irish Times, ele teria alegado que o imunizante não era confiável e era desnecessário.

Usada para imunização no Brasil, a vacina da farmacêutica Pfizer, por exemplo, utiliza o RNA mensageiro. Conforme checagem da Lupa de junho de 2021, a ação consiste em nanopartículas lipídicas, pedaços microscópicos de gordura, que servem como uma espécie de “envelope” para carregar um RNA mensageiro. Esse pequeno fragmento de material genético contém as instruções para que as células do corpo humano produzam a chamada proteína Spike do Sars-CoV-2, vírus causador da Covid-19. Esta proteína estimula o sistema imunológico a produzir defesas contra o vírus. A partícula se desintegra em pouco tempo e não interage, em momento algum, com o núcleo das células — portanto, não tem capacidade de alterar o material genético de células humanas.

Em entrevista à Lupa por telefone, o doutor em virologia pela Universidade de Buenos Aires e descobridor do zika vírus Gubio Soares explicou que Waters tentou erroneamente associar o novo coronavírus ao vírus da imunodeficiência humana (HIV). “Porém, o HIV entra no nosso organismo vivo, se multiplica na célula e incorpora o material genético transformado em DNA no nosso genoma. Já a vacina é com um pedaço do material genético do vírus, que produzirá as proteínas específicas. Não existe possibilidade de ser incorporado ao nosso genoma”, garantiu.

Também em entrevista por telefone para a Lupa, o infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, Jamal Suleiman reforçou que a afirmação feita por Waters não é verdadeira. “Não procede. O RNA não tem capacidade de inserção no genoma humano. Aliás, não é a única vacina que utiliza essa plataforma [o mRNA]. A função do RNA mensageiro é estimular uma proteína, um anticorpo, que vai se ligar ao Sars-CoV-2”, disse.


“Espero estar errado que isso leve à infertilidade, porque sabemos que as proteínas Spike se acumulam em testículos e nos ovários dos jovens ou das pessoas em geral”
Médico irlandês Gerard Waters em vídeo postado no Facebook que, até as 17h de 20 de outubro de 2021, tinha 945 compartilhamentos

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Em checagem de 21 de junho de 2021, a Lupa desmentiu que vacinas contra Covid-19 causem infertilidade. As vacinas não injetam a proteína Spike no organismo, mas nanopartículas lipídicas que contêm as instruções para que as células do corpo humano produzam a proteína Spike do Sars-CoV-2, vírus causador da Covid-19. Essa proteína estimula o sistema imunológico a produzir defesas contra o vírus e ela se desintegra em pouco tempo.

“A proteína Spike não bloqueará a saída dos espermatozóides. A função da proteína, que está na cobertura do vírus, é ligar-se aos receptores celulares”, explicou o virologista Gubio Soares.

O infectologista Jamal Suleiman afirmou não haver base teórica para associar a vacina com a infertilidade. “A menos que tome [a vacina] de fato no pênis, não há possibilidade de promover a infertilidade”, exemplificou. “Essa afirmação é errada. A vacina (contra) influenza [gripe], que utiliza a mesma plataforma de vírus inativo, já é aplicada há décadas. Não há um único relato de infertilidade em relação ao uso”, garantiu.

O médico aponta ainda que a proteína Spike é a parte mais importante na ligação do vírus com a célula. “Qualquer produto que você faça com que o organismo ocupe esse lugar vai minimizar o risco de infecção porque não terá espaço para o vírus.”


“Há um série de cânceres que são causados pela inserção de RNA viral no genoma de pessoas, como o linfoma de Burkitt”
Médico irlandês Gerard Waters em vídeo postado no Facebook que, até as 17h de 20 de outubro de 2021, tinha 945 compartilhamentos

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O linfoma de Burkitt não se dá pela inserção de RNA viral, como explica o doutor Jamal Suleiman. “Estamos falando aqui de vacinas; plataforma com RNA mensageiro desenhado para produzir substância para evitar contaminação das pessoas. Então, a inserção de RNA mensageiro de vírus selvagem é completamente diferente. Esse raciocínio está totalmente enviesado na definição e mecanismo de doença para justificar o injustificável. Não é assim que o linfoma é desencadeado”, reforçou.

O linfoma de Burkitt é um tipo de câncer do sistema linfático que afeta particularmente as células de defesa do corpo. Este câncer pode estar associado à infecção pelo vírus Epstein Barr (EBV), pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), mas também pode surgir de alguma alteração genética. É um tipo de câncer infantil mais comum em regiões onde há casos de malária, como na África, e também é comum em outros lugares do mundo em que há muitas crianças infectadas pelo vírus HIV.

“Não se sabe bem qual a relação em crianças que desenvolvem o linfoma de Burkitt. Porém, o vírus não se multiplica com um pedacinho [como é o caso do RNA mensageiro utilizado nas vacinas]. Não tem nada a ver. Ele está falando coisas que não sabe”, apontou Gubio Soares. O virologista explica ainda que, apesar da existência de alguns oncogênicos (que originam células cancerosas), a vacina contra o novo coronavírus não usa o genoma inteiro. “É um pedacinho do gene que vai codificar para a proteína Spike. Se você injetar o vírus, a pessoa adoece”, finaliza.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Marcela Duarte

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