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Erros e acertos de Doria, Leite e Virgílio durante debate das prévias do PSDB

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
21.out.2021 | 17h51 |

Na última terça-feira (19), tucanos que almejam concorrer ao cargo de presidente da República participaram do debate das prévias do PSDB realizado pelos jornais O Globo e Valor Econômico. O governador de São Paulo, João Doria, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e o ex-senador Arthur Virgílio participaram do evento, mediado pela jornalista Vera Magalhães. Eles aproveitaram o espaço para falar sobre medidas adotadas no combate à pandemia e também sobre antigos posicionamentos, evitando ataques pessoais. A escolha do candidato do partido está marcada para 21 de novembro. A Lupa verificou algumas das frases ditas pelos políticos. Veja o resultado:

João Doria

“[São Paulo] foi o primeiro estado a tornar obrigatório o uso de máscaras”

João Doria, governador de São Paulo, em debate das prévias do PSDB realizado por O Globo e Valor Econômico em 19 de outubro de 2021

FALSO

O estado de São Paulo não foi a primeira unidade da Federação a decretar o uso obrigatório de máscaras durante a pandemia da Covid-19. No início de maio de 2020, o governador João Doria assinou um decreto que estabelecia a necessidade do uso de máscara em espaços públicos. Antes disso, contudo, outros governadores já haviam assinado essa medida em seus estados. É o caso do Piauí (22 de abril de 2020), Mato Grosso (22 de abril de 2020), Distrito Federal (23 de abril de 2020) e Pernambuco (27 de abril de 2020), por exemplo. 

Procurada, a assessoria de imprensa de Doria não respondeu até a publicação desta checagem.


“São Paulo foi o primeiro estado a decretar quarentena”

João Doria, governador de São Paulo, em debate das prévias do PSDB realizado por O Globo e Valor Econômico em 19 de outubro de 2021

FALSO

O estado de São Paulo não foi a primeira unidade da Federação a decretar quarentena durante a pandemia da Covid-19, o que ocorreu em 22 de março de 2020, mas uma das últimas – as restrições começaram a vigorar em 24 de março. Pelo menos 18 estados e o Distrito Federal anteciparam-se a São Paulo na publicação de decretos com medidas restritivas. Na época, casos começavam ser registrados por todo o país e, em 20 de março, o Ministério da Saúde declarou haver transmissão comunitária do novo coronavírus em todo o território nacional. Com isso, a maioria dos governadores decidiu agir para retardar a disseminação da doença.

Decretos com medidas de paralisação de atividades ou limitações de acesso para possibilitar o enfrentamento da doença foram emitidos antes de São Paulo por Santa Catarina (17 de março), Rio Grande do Sul (19 de março), Mato Grosso (16 de março), Rio de Janeiro (19 de março), Espírito Santo (20 de março), Goiás (17 de março), Bahia (16 de março), Alagoas (18 de março), Pernambuco (19 de março), Paraíba (21 de março), Rio Grande do Norte (18 de março), Ceará (19 de março), Piauí (19 de março), Maranhão (21 de março), Amapá (20 de março), Amazonas (21 de março), Rondônia (16 de março), Acre (20 de março) e Distrito Federal (19 de março).

Procurada, a assessoria de imprensa de Doria não respondeu até a publicação desta checagem.


“Um em cada 4 brasileiros tomou a CoronaVac em seu braço” 

João Doria, governador de São Paulo, em debate das prévias do PSDB realizado por O Globo e Valor Econômico em 19 de outubro de 2021

SUBESTIMADO

Os dados do Localiza SUS, do Ministério da Saúde, indicam que 30,7% das doses de vacinas contra Covid-19 aplicadas na população foram da CoronaVac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. Levando-se em conta que foram feitas duas aplicações por pessoa, isso representa 30,13% do total de imunizados – número superior aos 25% estimados por Doria em sua fala.

A CoronaVac é a segunda vacina mais utilizada, ficando atrás apenas da AstraZeneca, que representa 41,6% das doses aplicadas e 40,8% dos imunizados. Em terceiro lugar está a Pfizer, que tem 25,8% das doses aplicadas, suficientes para proteger 25,37% das pessoas. Por último está a Janssen, com 4,81% das doses e 3,71% dos vacinados.

Procurada, a assessoria de imprensa de Doria não respondeu até a publicação desta checagem.


“Nós tínhamos 363 escolas de tempo integral. hoje nós temos 2.030 escolas de tempo integral”

João Doria, governador de São Paulo, em debate das prévias do PSDB realizado por O Globo e Valor Econômico em 19 de outubro de 2021

EXAGERADO

De acordo com o portal de notícias da prefeitura de São Paulo, atualmente existem 1.077 escolas de tempo integral que compõem a rede estadual de ensino. A previsão é que sejam implementadas mais 952 escolas em modelo integral no ano de 2022, totalizando 2.029 — ou seja, ainda não é uma realidade. O número afirmado por João Doria, de 2.030 escolas com modalidade integral de ensino é 46% maior que o número efetivo de escolas com Programa de Ensino Integral (PEI) no momento atual. 

A expansão da rede de ensino estadual foi anunciada no dia 8 de outubro, prometendo ofertar mais de um milhão de vagas em 457 municípios, a partir do próximo ano. Atualmente, as 1.077 escolas de ensino integral estão distribuídas em 308 localidades.

Procurada, a assessoria de imprensa de Doria não respondeu até a publicação desta checagem.


“Hoje nós temos 140 delegacias da mulher [em São Paulo]”

João Doria, governador de São Paulo, em debate das prévias do PSDB realizado por O Globo e Valor Econômico em 19 de outubro de 2021

VERDADEIRO

O levantamento do Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres, da Defensoria Público da Estado de São Paulo, atualizado em agosto deste ano, informa haver 132 Delegacias de Atendimento à Mulher no estado de São Paulo. O número citado pelo governador João Doria no debate foi apenas 6% maior e, por isso, foi classificado como verdadeiro.

As unidades estão divididas da seguinte maneira: 123 sedes na Grande São Paulo, litoral e interior e nove na capital. Na cidade de São Paulo, as delegacias estão no Parque Dom Pedro, Vila Mariana, Jaguaré, Freguesia do Ó, Parque São Jorge, Campo Grande, Itaquera, Jardim Marília e Pirituba. 


Eduardo Leite

“No segundo turno, manifestei o meu voto [a Jair Bolsonaro], não foi um apoio”

Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, em debate das prévias do PSDB realizado por O Globo e Valor Econômico em 19 de outubro de 2021

FALSO

Logo após a apuração do primeiro turno apontar que iria para a segunda etapa da disputa, em 7 de outubro de 2018, o então candidato a governador Eduardo Leite declarou apoio ao candidato Jair Bolsonaro em uma entrevista coletiva. “(O PT) foi um caminho que quebrou o Brasil, gerou desemprego. Um governo que prejudicou o País e o condenou a viver um período de recessão, que piorou a vida dos brasileiros”, disse. “Estamos dispostos a construir com a candidatura de Jair Bolsonaro.”

Em 10 de outubro daquele ano, já durante a campanha do segundo turno no Rio Grande do Sul, a coligação “Rio Grande da Gente”, de Eduardo Leite, também publicou uma nota oficializando o apoio a Bolsonaro. “Os partidos que compõe (sic) a coligação Rio Grande da Gente – PSDB, PTB, Progressista, PPS, Rede, PRB e PHS – vêm a público manifestar seu apoio eleitoral ao candidato Jair Bolsonaro, do PSL, a presidente da República”, diz o texto. O folheto com o texto divulgado traz inclusive o logotipo de campanha de Leite ao lado do de Bolsonaro e foi publicado na conta oficial do tucano no Facebook.

Procurada, a assessoria de imprensa de Eduardo Leite afirmou, em nota enviada por e-mail, que ele declarou voto, não apoio a Bolsonaro, pontuando suas diferenças com o candidato a presidente e explicitando suas críticas. “Não houve apoio de Eduardo Leite, não houve pedido de votos, não houve soma de sobrenomes, não houve campanha casada com camisetas, bandeiras ou palanque dividido”, diz o texto.


“Importante lembrar que a gente já cresceu economicamente, mas reduzindo a 400 mil hectares de desmatamento. Isso aconteceu lá em 2012”

Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, em debate das prévias do PSDB realizado por O Globo e Valor Econômico em 19 de outubro de 2021

SUBESTIMADO

A informação dada por Eduardo Leite foi subestimada. De acordo com Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), iniciativa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que monitora o desmatamento da Amazônia desde 1988, em 2012 foram devastados 4.571 quilômetros quadrados de área da vegetação da floresta. Na conversão – 1 quilômetro quadrado equivale a 100 hectares – isso representa 457.100 hectares, número maior que o citado por Leite. As taxas anuais do Prodes são captadas por satélites que cobrem toda a região da vegetação espalhada pelos nove estados do país (Rondônia, Mato Grosso, Amazonas, Acre, Maranhão, Roraima, Tocantins e Amapá).

Além disso, a série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indica que a economia brasileira apresentou menor dinamismo em 2012, apesar da intensificação do ritmo de crescimento ao longo daquele ano. O PIB aumentou 1,9%, ante 3,9% em 2011 e 7,5% em 2010.

Procurada, a assessoria de imprensa de Eduardo Leite não se manifestou.


“Eu tive 90% dos votos na cidade que eu governei, Pelotas, para governador do estado”

Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, em debate das prévias do PSDB realizado por O Globo e Valor Econômico em 19 de outubro de 2021

VERDADEIRO, MAS

No segundo turno das eleições para governador de 2018, o então candidato Eduardo Leite realmente conseguiu 90% dos votos em Pelotas (RS), derrotando seu adversário José Ivo Sartori (MDB). No primeiro turno da disputa, contudo, ele ficou cerca de 20 pontos porcentuais abaixo desse índice. 

Com diversos outros políticos na disputa, Leite recebeu apenas 69,5% dos votos no município, ficando na frente de Miguel Rossetto, do PT (15,26%); Jairo Jorge, do PDT (6,27%); e José Ivo Sartori (5,13%), entre outros. Leite foi prefeito de Pelotas entre 2013 e 2016, tendo concorrido à vaga de governador do Rio Grande do Sul durante as eleições de 2018. Naquele ano, ele venceu a disputa com 53% dos votos válidos.


“40% do que se emite de gás carbônico no Brasil tem correlação com o desmatamento”

Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, em debate das prévias do PSDB realizado por O Globo e Valor Econômico em 19 de outubro de 2021

VERDADEIRO

O último relatório do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), uma iniciativa do Observatório do Clima, publicado em novembro de 2020, aponta que o desmatamento, em especial na Amazônia, foi o maior responsável pelo crescimento das emissões de gás carbônico em 2019. O documento aponta que a retirada das árvores segue sendo o principal responsável por emissões brutas de CO2 no Brasil, respondendo por 44% do total – número similar ao citado por Leite no debate das prévias do PSDB. 

A quantidade de gases de efeito estufa lançada na ar devido ao desmatamento subiu 23% em 2019, atingindo 968 milhões de toneladas de CO2, contra 788 milhões em 2018. Importante destacar que, desde 2013, o SEEG vem adotando “desmatamento” como sinônimo para “mudanças de uso do solo” quando busca classificar as emissões dos gases de efeito estufa no Brasil. 


Arthur Virgílio

“O Pará está com 39% de cobertura original [da Floresta Amazônica]”

Arthur Virgílio Neto, ex-prefeito de Manaus e ex-senador, em debate das prévias do PSDB realizado por O Globo e Valor Econômico em 19 de outubro de 2021

FALSO

Os dados disponíveis do MapBiomas Brasil indicam que o Pará tem 76,6% da cobertura original da Floresta Amazônica em 2020 – e não 39% como afirmou o ex-senador Arthur Virgílio. Um boletim do desmatamento da Amazônia do Imazon mostrou ainda que o Pará, pelo quinto mês consecutivo, foi o estado que mais desmatou, sendo responsável por 39% da destruição da floresta em setembro, o que corresponde a 474 km².

Por meio de sua assessoria de imprensa, Virgílio reconheceu o erro. Em nota enviada pelo WhatsApp, ele afirmou que o MapBiomas é uma fonte confiável e que acredita que os dados da organização estejam corretos. “Mesmo assim, é pesado, é cruel. O que fizeram com o Pará foi um crime, a situação é muito grave”, disse.


“[O Amazonas] é dono da maior cobertura florestal de Floresta Amazônica (…) Nós temos 95%”

Arthur Virgílio Neto, ex-prefeito de Manaus e ex-senador, em debate das prévias do PSDB realizado por O Globo e Valor Econômico em 19 de outubro de 2021

VERDADEIRO

Assim como afirma o ex-senador, o Amazonas tem, de fato, a maior cobertura florestal da Floresta Amazônica, com 94,1%. Os dados estão disponíveis do MapBiomas Brasil e consistem no ano de 2020, último da atualização. 


“O Brasil vive uma orgia de arrombamento da economia, do fiscal. Mais de R$ 1 trilhão de déficit primário”

Arthur Virgílio Neto, ex-prefeito de Manaus e ex-senador, em debate das prévias do PSDB realizado por O Globo e Valor Econômico em 19 de outubro de 2021

EXAGERADO

No ano de 2020, o governo central (Tesouro Nacional, Banco Central e Previdência Social) registrou R$ 743,1 bilhões de déficit primário. No mesmo ano, o que teve registro de mais de R$ 1 trilhão de rombo no setor público foi o déficit nominal. Dados divulgados pelo Banco Central mostram que, no acumulado dos 12 meses encerrados em outubro de 2020, o déficit nominal do país somou R$ 1,011 trilhão, o que equivale a 13,95% do Produto Interno Bruto (PIB).

Em finanças, um déficit é entendido quando as despesas excedem as receitas. A diferença entre o déficit primário e o nominal é que o primeiro não leva em conta os custos de juros da dívida adquirida. Já o déficit nominal é o somatório do déficit primário mais o gasto com os juros da dívida.

No último balanço divulgado pelo Ministério da Economia, o governo central registrou R$ 9,9 bilhões de déficit primário no mês de agosto deste ano. Esse valor representa uma redução de 90,6% em relação ao déficit de R$ 96,1 bilhões do mesmo mês no ano passado.

Segundo dados do Banco Central, o déficit nominal do setor público alcançou R$ 46,5 bilhões em agosto deste ano. Em 2020, esse valor foi de R$ 34,3 bilhões no mesmo mês. O aumento foi influenciado pelas altas do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e da taxa Selic no período.

Por meio de sua assessoria de imprensa, Virgílio afirmou, em mensagem enviada pelo WhatsApp, que coloca em “dúvida completa” os números sobre o déficit divulgados pelo governo Bolsonaro. “Posso estar errado? Um pouquinho, porque o déficit primário, eu fui ver, era R$ 776 bilhões em 2020. E eu não vi nenhuma melhora, ao contrário, só vi a situação da economia brasileira piorar. E no acumulado até outubro de 2020 o déficit nominal foi era de R$ 1,06 trilhão. Então, me permita discordar”, disse.

Editado por: Maurício Moraes

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