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#Verificamos: Estudo alemão não prova que uso de máscaras causa problemas de saúde em crianças

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
27.out.2021 | 16h40 |

Circula pelo WhatsApp um texto segundo o qual um estudo alemão teria descoberto que o uso de máscaras prejudica crianças, levando a supostos 24 problemas de saúde como dores de cabeça, dificuldades de concentração e fadiga. Mais de 25 mil crianças em idade escolar teriam sido observadas no levantamento. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“Estudo Alemão Descobre Que Máscaras Prejudicam Crianças em Idade Escolar Física, Psicológica e Comportamental”
Título de texto do site Anonymous Incision que circula em grupos de WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O estudo alemão citado pelo texto que circula nas redes sociais foi publicado em formato pré-print, ou seja, ainda precisa passar pela revisão de outros cientistas para ter seus resultados validados. Dessa forma, a partir da citada pesquisa, não é possível chegar a qualquer conclusão sobre o assunto. Além disso, a própria plataforma em que o trabalho foi divulgado apontou falhas na metodologia adotada pelos pesquisadores, o que impossibilitaria demonstrar uma relação causal entre o uso das máscaras e os efeitos adversos relatados.

O texto analisado, de 12 de fevereiro, reproduz as conclusões do estudo “Corona children studies ‘Co-Ki’: First results of a Germany-wide registry on mouth and nose covering (mask) in children”, publicado em 18 de dezembro de 2020 na plataforma Research Square, voltada a trabalhos em formato pré-print. Pesquisadores da Universidade de Witten/Herdecke, da Alemanha, informaram ter criado um questionário online no qual pais, médicos e pedagogos poderiam informar efeitos adversos observados em crianças após o uso de máscaras. Até a divulgação da primeira versão do artigo, os responsáveis por mais de 25 mil crianças haviam enviado suas observações. 68% deles relataram “prejuízos” com o uso de proteção. Os sintomas mais citados foram irritação, dor de cabeça e dificuldade de concentração, segundo o estudo.

Entretanto, em uma data entre 14 e 27 de abril, uma “nota editorial” passou a ser exibida no corpo do artigo. “Devido a múltiplas limitações, este estudo não é capaz de demonstrar uma relação causal entre o uso de máscaras e os efeitos adversos relatados nas crianças”, ressaltou a plataforma. Os editores apontaram problemas no trabalho como o viés de amostragem dos respondentes e a falta de um grupo de controle. Também afirmaram que o uso de máscaras, em conjunto com outras medidas de prevenção, reduz significativamente a propagação da Covid-19 e é considerado seguro para crianças com idade superior a 2 anos.

Além disso, um aviso padrão já é exibido junto aos trabalhos disponíveis na plataforma, reforçando a necessidade de serem submetidos à revisão de outros cientistas. “A publicação de um artigo em formato pré-print neste servidor não deve ser interpretada como um endosso de sua validade ou adequação para divulgação como informação estabelecida ou para orientar a prática clínica”, reforça a Research Square.

Em um guia publicado em agosto de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda a utilização de máscaras por crianças de até 5 anos em função da dificuldade de garantir que ocorra de modo correto. Entre 6 e 11 anos, os especialistas da entidade defendem que seu uso deve ser avaliado de acordo com fatores como a intensidade da transmissão da Covid-19 na área em que se encontram. A partir dos 12 anos, as orientações são as mesmas que as direcionadas a adultos, diz a OMS.

O Ministério da Saúde tem uma diretriz mais rigorosa, orientando a utilização da proteção a partir dos 2 anos de idade.

O artigo alemão foi citado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em sua transmissão semanal no dia 25 de fevereiro. Na ocasião, o mandatário disse que não iria entrar em detalhes do estudo porque “tudo deságua em críticas” sobre ele, e que aguardava uma pesquisa mais aprofundada sobre o uso de máscaras produzido por “pessoas competentes”.

Essa informação também foi verificada pela AFP Checamos.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Maurício Moraes

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FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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