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#Verificamos: Estudo do CDC não relaciona transmissão do HIV à vacinação contra Covid-19

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
28.out.2021 | 17h00 |

Circula pelo WhatsApp uma mensagem segundo a qual o vírus HIV teria sido encontrado em um percentual 17 vezes maior entre aqueles que se vacinaram contra a Covid-19. O texto defende que a imunização está relacionada à transmissão do vírus causador da aids, aumentando a chance de ocorrer uma infecção. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“Isso é GRAVE !
HIV, o vírus da AIDS, foi encontrado em muitas pessoas que tomaram a “picada” para covid !
Naquela amostra, o percentual de pessoas que testaram positivo para HIV é 17 vezes maior que a média nacional nos EUA.
Isso reforça a suspeita de que o Sars-Cov-2 tenha sido fabricado por engenharia genética, com a inserção de parte do DNA do HIV.
[Link para o site Civilian Intelligence Network]
Texto que circula em grupos de WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O site canadense Civilian Intelligence Network, que divulga teorias da conspiração, apresenta uma interpretação enganosa de um artigo publicado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). O trabalho não estabelece, em nenhum momento, uma relação causal entre o HIV e a vacinação contra a Covid-19. O estudo diz que parte dos participantes observados pelos pesquisadores já vivia previamente com o vírus HIV. 

O artigo “Outbreak of SARS-CoV-2 Infections, Including Covid-19 Vaccine Breakthrough Infections, Associated with Large Public Gatherings” foi produzido por cientistas do estado de Massachusetts e publicado em 6 de agosto na revista Morbidity and Mortality Weekly Report, editada pelo CDC. O estudo avaliava os efeitos da realização de grandes eventos, entre 3 e 17 de julho, sobre a transmissão da Covid-19 em uma cidade.

Na ocasião, os pesquisadores detectaram uma alta taxa de transmissão da variante delta, mesmo entre totalmente imunizados, que foi responsável por 89% dos 469 casos da doença relacionados aos eventos. Diante do risco potencial de transmissão do vírus, o trabalho recomendava reforçar os cuidados exigidos dos presentes a grandes reuniões públicas.

Em um determinado trecho do artigo, os cientistas informaram que, cruzando dados do sistema estadual de vigilância de HIV, verificou-se que 30 (ou 6%) dos 469 casos detectados de Covid-19 foram entre pessoas vivendo com o HIV – ou seja, elas já tinham esse vírus antes de pegar o novo coronavírus. O trabalho ressalta que nenhuma delas necessitou de hospitalização após o contato com o Sars-CoV-2.

A partir desse dado descontextualizado, o site canadense diz suspeitar que a vacina contra a Covid-19 seria a responsável por disseminar o HIV, lembrando que, segundo dados oficiais, 0,36% dos norte-americanos vivem com o vírus. “Por que há uma taxa de 6% de HIV positivo nesta pesquisa? Uma taxa que é 17 vezes superior à média nacional?”, questiona o texto, sugerindo assim uma suposta relação entre a imunização contra a Covid-19 e a transmissão do HIV. Entretanto, não existe qualquer base, nem no estudo citado, nem entre a comunidade científica, para estabelecer essa relação.

O HIV é transmitido por meio da troca de fluidos corporais como sangue, leite materno, sêmen e secreções vaginais, de acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Ao receber a vacina contra a Covid-19 por meio de uma seringa não utilizada, não há qualquer risco de contrair o HIV e, consequentemente, desenvolver a aids.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), é “teoricamente possível” que pessoas vivendo com o HIV produzam uma resposta imune mais fraca a partir da vacinação contra a Covid-19 — e isso poderia explicar a presença maior dessa população no estudo de Massachusetts. No entanto, a OMS afirma que ainda não há evidências suficientes para confirmar essa teoria. Diante dessa possibilidade, o Ministério da Saúde recomendou uma dose de reforço para a população vivendo com HIV/aids no país. 

Bolsonaro

Em sua transmissão semanal na quinta-feira (21), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) compartilhou uma informação falsa, também desmentida pela Lupa, de que relatórios do governo do Reino Unido teriam sugerido que vacinados contra a Covid-19 estão desenvolvendo a aids. Entidades e especialistas condenaram a fala do mandatário.

Por meio de nota, o Comitê de HIV/aids da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) declarou que “não se conhece nenhuma relação entre qualquer vacina contra a Covid-19 e o desenvolvimento de síndrome da imunodeficiência adquirida [aids]”, repudiando qualquer desinformação que mencione essa “associação inexistente”.

Já o Comitê Extraordinário de Monitoramento Covid da Associação Médica Brasileira (AMB) chamou de “inaceitável” e “irresponsável” a relação feita pelo presidente, “que certamente pode ocasionar mortes evitáveis entre os brasileiros por acometimento da Covid-19”. 

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Maurício Moraes

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