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#Verificamos: É falso que Bolsonaro distribuiu tratores que seriam doados por Dilma para a África

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
29.out.2021 | 12h43 |

Circula nas redes sociais um vídeo que mostra tratores sendo transportados por uma carreta em um posto de combustíveis. O homem que narra as imagens diz que as máquinas teriam sido compradas pelo governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) para serem doadas a países africanos. Segundo ele, a compra não foi entregue na época. O homem diz ainda que “auditores” do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) teriam descoberto o caso e feito a empresa entregar “1.200 máquinas zero” – as quais estariam sendo distribuídas para os estados brasileiros, a maioria no Nordeste. Por meio do projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Essas máquinas [agrícolas], o governo Dilma comprou para levar para a África. Não conseguiu enviar e não falou nada. A empresa não entregou. O pessoal, os auditores do Bolsonaro, descobriu e fez a empresa entregar 1.200 máquinas zero, que estão sendo distribuídas para o Brasil, a maioria para o Nordeste”. 

Narração de vídeo publicado no Facebook que, até as 10h45 de 29 de outubro de 2021, tinha 183 compartilhamentos

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não há referências na imprensa sobre doações de máquinas agrícolas para a África durante o governo de Dilma Rousseff, como é possível ver nas pesquisas feitas pelo Google (aqui e aqui). Em nota enviada por e-mail, a assessoria de imprensa da ex-presidente informou que o seu governo nunca comprou tratores para esse fim. Não existem, também, menções a uma suposta auditoria que teria sido feita no governo de Bolsonaro com esse assunto.

No vídeo, os tratores filmados são da marca XCMG Brasil Indústria. Porém, de acordo com o Portal da Transparência, o primeiro contrato estabelecido com a empresa foi em novembro de 2016, data em que Dilma não era mais presidente – ela havia sofrido impeachment e Michel Temer (MDB) ocupava o cargo. O contrato é referente à aquisição de uma pá carregadeira pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf).

A suposta auditoria citada pelo vídeo também não foi encontrada na pesquisa de relatórios da Controladoria-Geral da União (CGU). A reportagem usou a palavra-chave “XCMG” e filtrou a busca com o período de publicação que coincide com a gestão de Bolsonaro até hoje. 

Procurada pela Lupa, a XCMG não respondeu ao e-mail. A empresa é uma das envolvidas no caso do “tratoraço”, como apurou o Estadão em agosto deste ano. A XCMG vendeu máquinas com sobrepreço de R$ 130 milhões à administração direta do Ministério do Desenvolvimento Regional, segundo auditoria da CGU. Depois, um acordo foi feito com o governo para que a empresa devolvesse a diferença do valor.

Pela busca avançada do Diário Oficial da União (DOU), a checagem também não identificou registros de aquisição de máquinas da marca pelo governo federal entre os anos de 2011 e 2016, período dos mandatos de Dilma. Também não foram encontradas menções a doações de tratores para a África. Nas pesquisas, foram utilizados os termos “XCMG” e “doação África”.

A referência mais próxima do que sugere o vídeo foi encontrada no DOU nº 228 de 30 de novembro de 2015, página 10. Trata-se de um extrato de contrato de um acordo de parceria entre Embrapa Mandioca e Fruticultura, Fundação Arthur Bernardes e Instituto Internacional de Agricultura Tropical (International Institute of Agriculture – IITA) para o projeto “Melhoramento de banana para pequenos agricultores da região dos grandes lagos da África”. 

Segundo o DOU, a parceria envolvia oferta de serviços de pesquisa agropecuária e transferência de tecnologia. Porém, o patrocinador principal do projeto foi a Fundação Bill e Melinda Gates, que fez uma doação ao IITA. De acordo com o extrato de contrato, a renovação anual do projeto esteve condicionada à disponibilidade de fundos do patrocinador, e não a recursos federais.

A Embrapa informou por e-mail que participação do Brasil no projeto tinha como objetivo desenvolver diploides de bananeiras que seriam enviadas para a África, a fim de serem utilizadas no programa de melhoramento de bananeira do IITA na região dos Grandes Lagos daquele continente, que envolve Uganda e Tanzânia. 

Contudo, os recursos do projeto foram usados exclusivamente no Brasil para a compra de reagentes, adubos, fertilizantes, equipamentos de laboratório, computadores e contratação de pessoal, explica a Embrapa. A instituição desconhece a suposta iniciativa de tratores que seriam enviados a países africanos. 

Procurados pela Lupa, o Ministério do Desenvolvimento Regional e a CGU não responderam até a publicação desta checagem. 

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Maurício Moraes

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