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#Verificamos: PT não publicou ‘plano de dominação comunista’ em 2015

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
05.nov.2021 | 16h00 |

Circula pelo WhatsApp uma mensagem segundo a qual o PT teria publicado um “plano de dominação comunista” em 2015. O texto destaca doze pontos que teriam sido requisitados pela sigla, como a realização de uma Constituinte socialista e a garantia de imunidade penal a militantes de movimentos sociais. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“O PT divulga abertamente, em seu site, plano de Dominação Comunista no País. Parece um absurdo o documento onde abertamente o PT declara suas intenções de Golpe comunista no país. […] Parece piada, parece invenção da oposição, mas está abertamente no site do PT, para quem quiser ver. Isso é URGENTE, peço a todos que compartilhem com o máximo de pessoas possíveis, pois pode ser nossa última chance de impedir que o nosso país se torne uma nova miserável Venezuela!”
Trechos de texto que circula em grupos de WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Na verdade, o documento de 165 páginas publicado em 2015 pelo PT é um compilado de teses que nortearam as discussões do 5º Congresso Nacional da sigla, realizado em junho daquele ano na cidade de Salvador (BA). Os textos tinham como finalidade sugerir, e não orientar, quais seriam os rumos do partido, não se tratando, assim, de um “plano de dominação comunista”. Além disso, a maior parte dos pontos mencionados na mensagem que circula pelo WhatsApp não existe nas teses ou recebeu uma interpretação distorcida.

O documento citado não está mais disponível no site do PT, mas uma cópia pode ser acessada por meio da plataforma Wayback Machine, que arquiva versões antigas de páginas da internet. O link em que o arquivo estava hospedado indica que sua publicação original ocorreu em abril de 2015, cerca de dois meses antes do congresso. Cada uma das sete teses representava a visão de diferentes correntes ideológicas do partido

De acordo com o site do PT, o objetivo dos congressos é tomar “decisões programáticas ou estratégicas” de longo prazo que precisam ser seguidas pela sigla. “É neles [nos congressos] que o partido deve discutir e deliberar questões como sua visão de socialismo, de democracia, os caminhos para alcançá-los e as formas de construir o partido”, diz o site. Para esse fim, diferentes grupos internos enviaram suas visões para sugerir os rumos que a sigla deveria tomar a partir de então.

Ao final do evento de 2015 foi publicada a “Carta de Salvador”, elaborada a partir dos debates realizados no congresso. Nenhum dos pontos elencados pela mensagem analisada aparece nesse documento — que, de fato, representa oficialmente a visão do partido.

Além disso, mesmo ao analisar os pontos citados na mensagem que teriam sido requisitados nas teses, a maioria deles não constava no documento ou foi distorcida. Não há nenhuma menção, por exemplo, à suposta imunidade “para agir sem serem presos” que seria dada a militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Um trecho da tese da chapa “Virar à Esquerda! Reatar com o Socialismo!” apenas fala genericamente em “Constituir um governo apoiado nas organizações populares, na CUT, no MST, entre outras”. O MTST sequer é citado ao longo das 165 páginas.

No documento também não existe a proposta de promover uma nova Constituinte “socialista”. Três teses defendiam a realização de uma Constituinte exclusivamente para promover uma reforma política como resposta ao contexto de manifestações contra a então presidente Dilma Rousseff (PT).

De fato, a cassação do mandato do então deputado federal Jair Bolsonaro é citada na tese da tendência “Articulação de Esquerda”, mas em meio a uma contextualização. “Neste congresso conservador e sob a presidência de Eduardo Cunha, temas como a reforma política, a lei da mídia democrática, a punição dos crimes da ditadura militar, o combate à corrupção e mesmo a cassação do deputado Jair Bolsonaro só terão chance de êxito se houver intensa pressão social”, dizia o texto. O fato não é mencionado na tese, mas em dezembro do ano anterior, PT, PCdoB, PSB e PSOL haviam protocolado uma representação contra Bolsonaro no Conselho de Ética da Câmara após o deputado dizer no plenário da Casa que não estupraria a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) “porque ela não merece”.

Sete dos doze itens elencados na mensagem partiram de um único trecho da tese da chapa “Virar à Esquerda! Reatar com o Socialismo!”. Nele, o grupo reproduzia uma carta aberta anterior, que havia sido escrita pela “Esquerda Marxista” do partido após a reeleição de Dilma em 2014. Entre as sugestões então lançadas estava a de “estatizar a Rede Globo”, por ter supostamente sido construída “sob o manto da ditadura e com dinheiro público”, e fazer o mesmo com emissoras de rádio e TV religiosas, já que a concessão é pública “e os serviços públicos devem ser laicos e democráticos”, defendia o texto. A anulação das condenações do julgamento do Mensalão e a reestatização de empresas e serviços públicos privatizados também aparecem nesse trecho. A própria tese aponta, no entanto, que nada disso ocorreu, uma vez que Lula e Dilma teriam escolhido “outro caminho”, acusando a então presidente de aprofundar sua “submissão ao mercado”.

Uma versão parecida dessa mensagem circulou em 2018. Na ocasião, as informações foram verificadas por Estadão Verifica e Comprova.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Maurício Moraes

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