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#Verificamos: É falso que vacina da Covid-19 aumentou abortos e causa AVCs em pilotos de avião

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
24.nov.2021 | 16h19 |

Circula no WhatsApp um vídeo de uma fala da médica Maria Emilia Gadelha Serra no 2º Congresso Conservador Liberdade e Democracia, que aconteceu em Florianópolis no dia 14 de novembro de 2021. Na gravação, de mais de 4 minutos, ela alerta para o que chama de “problema de segurança nacional” por conta de supostos graves efeitos adversos das vacinas contra a Covid-19.

Entre as complicações dos imunizantes, Serra menciona abortos e Acidente Vascular Cerebral (AVC) de pilotos de avião. Além disso, a médica explica que estados norte-americanos já estariam se preparando para a quantidade de mortes decorrentes dos efeitos adversos, aprovando leis com técnicas para “dissolver os corpos”. Algumas das afirmações feitas por Serra já foram desmentidas em outra verificação, como a capacidade de o alumínio presente nos imunizantes causar danos – o que é falso. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“As mulheres estão abortando [após receberem a vacina contra a Covid-19] (…)”

Frase em vídeo que circula no WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O risco de aborto não está previsto nas bulas das vacinas da Pfizer e Coronavac, as únicas indicadas para serem aplicadas em grávidas. Em nota por e-mail, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) reitera a importância da vacinação de gestantes e afirma que as vacinas contra a Covid-19 são seguras e bem toleradas pelo grupo, mas que, de acordo com as evidências, há opções que são mais indicadas. A vacinação contra a Covid-19 em gestantes também está prevista no Plano Nacional de Imunização do Ministério da Saúde. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também informou, por e-mail, que “não há indicação ou dados que apontem um aumento na ocorrência de abortos como resultado de reações a vacinas.”. 

Até o momento, os estudos publicados sobre o tema mostram que há uma frequência equivalente de aborto entre grávidas que receberam a vacina contra a Covid-19 e aquelas que não se imunizaram. Pesquisa conduzida pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, publicada em junho deste ano, analisou dados de três sistemas federais que monitoram a segurança da vacina. Foram contatadas 3.958 pessoas cerca de três meses após terem recebido a vacina da Pfizer ou da Moderna. A equipe descobriu 104 abortos de 827 gestações concluídas, o que significa uma taxa de aborto espontâneo de 12,6%, comparável à taxa média de aborto espontâneo na população em geral. A Lupa já checou uma peça de desinformação que citava esse mesmo estudo. 

Mais tarde, os autores do estudo reconheceram um erro. Entre as 827 participantes com gravidez completa, 700 receberam sua primeira dose de vacina no terceiro trimestre. Porém, essas participantes deveriam ter sido excluídas do cálculo porque já haviam passado da 20ª semana de gravidez quando receberam a vacinação. “O risco de aborto espontâneo deve ser determinado com base no grupo de participantes que receberam a vacinação antes da semana 20 e foram acompanhados até a semana 20 ou tiveram uma perda de gravidez anterior”, explicam os autores. No dia 14 de outubro, outro estudo foi publicado com dados atualizados sobre 2.456 grávidas. Constatou-se que o risco cumulativo de aborto espontâneo para aquelas com 6 a 20 semanas de gravidez era de 14,1%, o que ainda é comparável à taxa média de aborto na população em geral.

Procurada pela Lupa, a médica disponibilizou o link de um artigo, publicado no dia 1º de novembro, sobre um relatório de cientistas da Universidade de Auckland que supostamente mostra um “grave erro” no estudo do CDC de junho, citado anteriormente, sobre vacinação contra a Covid-19 e abortos espontâneos. Segundo o relatório, a taxa de aborto espontâneo foi de sete a oito vezes maior do que o estudo do CDC apresentou. Os autores excluíram 700 pessoas que foram vacinadas após 20 semanas de gravidez, o período de corte que define o aborto espontâneo, resultando em apenas 127 gestações concluídas. Nessa lógica, a taxa de aborto seria de 82%,104 abortos espontâneos de 127 gestações.

O Politifact verificou o conteúdo e constatou que o relatório citado pela médica deturpa os dados do estudo do CDC, excluindo a maioria da amostra para produzir taxas inflacionadas de aborto. O relatório ainda não considera o novo estudo publicado pelo CDC em outubro, que também revela que não há aumento do risco de aborto espontâneo após a vacinação contra a Covid-19, mesmo que analisando dados de pessoas grávidas de 6 a menos de 20 semanas de gestação. 

Serra também defendeu a sua afirmação com uma pesquisa dos Estados Unidos publicada no jornal científico Jama. Nela, a equipe utilizou dados do Vaccine Safety Datalink, um projeto de colaboração entre o CDC e nove organizações de saúde que tem o objetivo de monitorar a segurança das vacinas. A conclusão do estudo foi a de que os índices de aborto espontâneo em gestantes que receberam a vacina foi de 8,6%, enquanto entre aquelas que não receberam foi também de 8%, valores muito próximos. Portanto, não é possível afirmar que houve um risco mais elevado de aborto por conta da aplicação da vacina da Covid-19, ao contrário do que indicou a médica em sua fala.

 


 

“(…) os pilotos vacinados estão tendo AVCs, a segurança de voo da malha aérea brasileira comercial e militar pode estar em risco”

Frase em vídeo que circula no WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Procurada pela reportagem, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) disse, por e-mail, que desconhece a informação apresentada pela médica. Já a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) informou, também por e-mail, que “não existe nenhum registro de casos de AVC vinculados à vacina” entre as suas associadas. A assessoria de imprensa do Comando da Aeronáutica informou por e-mail que “não existem relatos de pilotos militares sofrendo AVC e nem risco conhecido à segurança de voo da malha aérea brasileira devido ao uso de imunizantes contra a Covid-19”.

Por e-mail, o Sindicato Nacional dos Aeronautas explicou que, por conta da falta de estudos sobre os efeitos colaterais das vacinas especificamente em relação aos aeronautas, fez questionamentos sobre o assunto à Sociedade Brasileira de Medicina Aeroespacial (SBMA). Em resposta, a instituição afirmou que “é unânime a opinião de órgãos regulatórios de pesquisadores e cientistas que os benefícios da vacinação são muito superiores aos eventos adversos”. Ainda, a SBMA ressaltou que as vacinas contra a Covid-19 em uso no Brasil e no mundo “são seguras e eficazes” e que “são recomendadas como fundamentais no controle da pandemia por todas as sociedades científicas”.

Procurada, Serra respondeu “sobre os casos de adoecimentos de pilotos, consulte os materiais norte-americanos, também em inglês”, mas não indicou em quais materiais baseou sua afirmação. 

No início de novembro, a Lupa checou um conteúdo que afirmava que as vacinas contra a Covid-19 estavam causando AVC. Os primeiros casos relatados de AVC após a vacinação contra a Covid-19 foram causados por trombose, aponta carta publicada em maio deste ano no British Medical Journal. Os pesquisadores analisaram apenas três episódios desse tipo em jovens adultos que, após receberem a vacina da AstraZeneca, tiveram a Síndrome de Trombose com Trombocitopenia induzida pelo imunizante e apresentaram AVC isquêmico.

O professor Hugh Markus, do Departamento de Neurociências Clínicas da Universidade de Cambridge, comentou sobre os casos e atentou que é importante lembrar que esses eventos adversos são raros, e muito menos comuns do que o risco de trombose venosa cerebral e AVC isquêmico associado à infecção pela própria Covid-19. 

A Anvisa também alerta que são raros os casos de trombose em combinação com trombocitopenia. Esse tipo de problema só ocorreu com vacinas contra a Covid-19 com vetor de adenovírus e já está previsto nas bulas dos imunizantes da AstraZeneca e da Janssen, que usam essa tecnologia. Esse evento adverso após a vacinação contra a Covid-19 teve incidência de 1 caso a cada 100 mil doses aplicadas, o que corresponde a 0,001% dos imunizados dentro de um período de 30 dias após a vacinação, aponta o Ministério da Saúde em nota técnica.

Sobre a possibilidade de a vacina contra Covid-19 causar AVCs, a Anvisa informou que “somente uma investigação de um caso concreto poderia apontar de forma objetiva as possíveis causas do AVC, já que pode ser consequência de um outro quadro de saúde”.

 


 

“21 estados norte-americanos aprovaram leis para dissolver os corpos. A expectativa é a de que morra tanta gente, que não vai dar tempo de ficar enterrando ou fazendo cremação. Eles aprovaram técnicas de hidrólise alcalina, você coloca o corpo num tanque, ele vira uma uma pasta que pode ser descartada ou usada como fertilizante”. 

Frase em vídeo que circula no WhatsApp

VERDADEIRO, MAS

A informação analisada pela Lupa é verdadeira, mas a aprovação de muitas das leis que autorizam a hidrólise alcalina ocorreu antes da pandemia. Minnesota foi o primeiro estado dos Estados Unidos a aprovar o método, ainda em 2003. California, Colorado, Georgia, Idaho, Illinois, Kansas, Maine, Nevada, North Carolina, Oregon, Utah, Vermonte e Wyoming são alguns dos estados que legalizaram a hidrólise alcalina antes do início da pandemia da Covid-19.

A hidrólise alcalina é um processo químico que usa uma solução de água e hidróxido de potássio ou hidróxido de sódio para reduzir um corpo a componentes líquidos e ósseos. Esse método é diferente da compostagem, em que o corpo se decompõe naturalmente até virar um húmus que pode ser utilizado como fertilizante. Ambas as técnicas são vistas como alternativas ambientalmente corretas se comparadas à cremação ou ao sepultamento.

Nos Estados Unidos, a compostagem de corpos humanos é legal nos estados de Washington e Colorado, e passará a ser legal em Oregon no próximo verão estadunidense. No primeiro estado a legalizar esse método, Washington, a lei foi aprovada antes da pandemia, em maio de 2019. Segundo o US News & World Report, legisladores estão considerando um projeto de lei para legalizar a compostagem corporal em Massachusetts. Projetos de lei semelhantes chegaram às câmaras estaduais da Califórnia e de Nova York, mas não foram adiante. 

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Maurício Moraes

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A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
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A informação está comprovadamente incorreta
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