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#Verificamos: Médica distorce informações ao relacionar vasculite a vacinação contra a Covid-19

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
07.dez.2021 | 17h27 |

Circula no WhatsApp um vídeo no qual a médica Maria Emilia Gadelha Serra mostra estudos que supostamente comprovam que as vacinas contra a Covid-19 estão levando pessoas à morte. Na apresentação, a médica mostra resultados de autópsias de pessoas vacinadas com lesões em diversos órgãos, causados, segundo ela, por inflamações nas paredes dos vasos sanguíneos, as chamadas vasculites ou endolites. Além disso, Serra ainda comenta sobre o suposto aumento de risco de miocardite por conta da vacina em pessoas de 0 a 19 anos. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“Esse foi o primeiro trabalho de estudo post mortem em pacientes vacinados contra a Covid. Vejam, lesões em praticamente todos os órgãos estudados. Mucosa olfatória, nariz, língua, pulmões, cérebro, traqueia, miocárdio, coração e rins” 

Frase em vídeo que circula em grupos de WhatsApp 

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O estudo citado no vídeo foi publicado em abril deste ano na revista International Journal of Infectious Diseases, intitulado “The first case of postmortem study in a patient vaccinated against SARS-CoV-2” (“O primeiro caso de estudo post mortem em um paciente vacinado contra SARS-CoV-2”, em tradução livre). O documento relata o caso de um homem de 86 anos, morador de uma casa de repouso, que recebeu a primeira dose da vacina contra a Covid-19 e morreu quatro semanas depois de insuficiência renal e respiratória aguda. Diferentemente do que afirmou a médica brasileira, o documento não conclui que o paciente teve lesões nos órgãos e morte provocadas por complicações causadas pela vacina contra o Sars-CoV-2.

Embora os autores recomendem análises mais abrangentes dos dados da autópsia para entender melhor os possíveis efeitos adversos letais e quaisquer mortes associadas à vacinação, em nenhum momento eles concluem que o homem citado no estudo morreu em consequência do imunizante. 

O estudo, liderado pelo pesquisador Torsten Hansen, do Instituto de Patologia do Hospital Universitário OWL da Universidade de Bielefeld, na Alemanha, detalha que o idoso testou positivo para a Covid-19, apesar de não ter apresentado sintomas da doença. Segundo eles, foram detectados sinais do vírus em alguns órgãos. Os autores supõem que ele tenha sido infectado no hospital onde estava internado para tratar uma diarreia — que pode ter sido causada por uma colite isquêmica (doença inflamatória do intestino). 

A pesquisa indicou que o histórico médico do paciente incluía hipertensão arterial sistêmica, insuficiência venosa crônica, demência e carcinoma de próstata. Por fim, a análise apontou que os resultados podem sugerir que a primeira dose da vacina induz imunogenicidade (quando uma substância induz a produção de anticorpos no organismo, podendo ser desejada ou indesejada), mas não imunidade estéril, ou seja, há resposta imune contra a Covid-19 após a primeira dose, mas ainda é possível contrair a doença, como já foi alertado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). 

“Como nosso paciente morreu aproximadamente dois dias após o primeiro resultado positivo do teste Sars-CoV-2, supomos que os dados de mapeamento molecular refletem em um estágio inicial da infecção viral. Um estágio inicial da infecção também pode explicar por que regiões diferentes, como o bulbo olfatório e o fígado, não foram (ainda) afetadas pela disseminação sistêmica viral. (…) Não há sinais típicos de dano alveolar difuso nos pulmões, mas identificamos broncopneumonia aguda extensa, possivelmente de origem bacteriana. Concluímos que o paciente morreu de broncopneumonia e insuficiência renal aguda”, diz o texto. 

Interpretações equivocadas desse estudo passaram a ser compartilhadas na internet depois que o blogueiro e apresentador Hal Turner, conhecido por divulgar teorias da conspiração e defender a supremacia branca, publicou um conteúdo intitulado “Bomba-relógio global”. No texto, ele comenta o estudo, enfatiza que não é médico ou pesquisador e erra ao concluir que o que levou o paciente à morte foi a vacina. Esse conteúdo foi desmentido por um dos autores do estudo, Torsten Hanse, para a agência FactCheck.org

Procurada pela Lupa, Maria Emilia Gadelha Serra não respondeu até a publicação desta reportagem.


“Esse foi uma das autópsias, esse é um coágulo, um crânio aberto, vejam o tamanho do coágulo, uma hemorragia cerebral causada numa menina de 16 anos (…). Um outro caso, participei de uma autópsia em Brasília, são os seios venosos cerebrais, as veias dos cérebros ficam apoiadas em uma estrutura óssea, vejam esse tronco saindo desse seio venoso, isso é uma senhora de 52 anos, AstraZeneca. Isso acontece por quê? Isso acontece tanto com AstraZeneca, com Coronavac, com Pfizer, com Janssen, por quê? Porque essas vacinas, ditas vacinas que não são vacinas, (…), elas simplesmente desencadeiam uma inflamação da parede dos vasos, isso causa a chamada vasculite, ou endotelite, e naturalmente acontece um processo inflamatório e toda essa sequência de danos que podem e com frequência estão causando a morte” 

Frase em vídeo que circula em grupos de WhatsApp 

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. De acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), não existe nenhuma causalidade confirmada entre as vacinas contra a Covid-19 e a ocorrência de vasculite, doença caracterizada pela inflamação dos vasos sanguíneos. Por e-mail, a entidade ressaltou que todas as vacinas aprovadas no Brasil cumpriram todas as etapas de pesquisa clínica necessárias para o desenvolvimento de novas tecnologias e foram aprovadas pela Anvisa. 

No Brasil, o Painel de Notificações de Farmacovigilância da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que reúne dados sobre efeitos adversos de vacinas e medicamentos, tem registradas apenas duas notificações de vasculite associadas às vacinas contra o Sars-CoV-2. Apesar da notificação, esses casos são apenas suspeitos, ou seja, foram cadastrados por cidadãos e precisam ser investigados para que se descubra se há alguma comprovação de causalidade. 

Segundo a pediatra Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), o fato de um sangramento ter sido encontrado durante uma autópsia não necessariamente quer dizer que ele foi causado pela vacina. “Carece de ciência em 100%. É preciso estatística de casos de pessoas vacinadas e não vacinadas que, após a morte, passaram por autópsia. E aí se pode comparar a incidência de tipos de lesões. É comum, por exemplo, uma pessoa se sentir bem e descobrir que tem pequenos sangramentos. Isso não está ligado à vacina”, explicou. 

Para a médica, o argumento apresentado no vídeo não comprova relação de causalidade entre as vacinas e a hemorragia cerebral . “Não há nenhum dado que comprove. Na ciência, para ter essa relação causal, precisa de mais informações e dados. Apenas a imagem da autópsia não comprova”, disse, por telefone.

Já em junho deste ano, a Comissão de Doenças Endêmicas e Infecciosas da SBR havia publicado em sua página um alerta informando que doenças reumáticas, entre elas artrite reumatoide, miopatias inflamatórias e vasculites, não representavam contraindicação específica para receber qualquer vacina. Por e-mail, a entidade reforçou que os eventos adversos possivelmente relacionados aos imunizantes têm sido monitorados por um rigoroso processo de farmacovigilância. “Até o momento, esses eventos foram raros e os benefícios superam os riscos, até mesmo por pareceres publicados pelos órgãos regulatórios, como OMS, Organização Pan-americana de Saúde (Opas), Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dentre outras referências mundiais”, informou à Lupa. A SBR também frisou que a imunização “é, indiscutivelmente, a medida mais eficaz no combate à pandemia”.


“Eu trouxe essa estatística aqui, para mostrar para vocês o risco de óbito [por Covid-19] da faixa etária de 0 a 19 anos, segundo o professor John Ioannidis, da Universidade de Stanford, é de 2,7 pessoas em 100 mil habitantes. O risco de miocardite, em outro estudo, mostrou que é de 16,2 em 100 mil habitantes. Ou seja, você troca o risco de seu filho nessa faixa etária, 0 a 19, de estar ali, em menos de 3 pessoas, para 16 pessoas” 

Frase em vídeo que circula em grupos de WhatsApp 

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Segundo especialistas ouvidos pela Lupa, a comparação dos riscos de miocardite (inflamação do músculo cardíaco) em crianças vacinadas e não vacinadas não é apropriada, uma vez que a comunidade médica e órgãos internacionais, como a norte-americana FDA, convergem no entendimento, a partir de levantamentos oficiais, de que pessoas imunizadas têm menos chances de desenvolver esse problema do que as pessoas que foram infectadas pelo Sars-CoV-2. Ainda que alguns casos dessa inflamação após as vacinas de RNA mensageiro venham sendo estudados, os benefícios da proteção ainda são maiores

Em agosto deste ano, o CDC dos Estados Unidos publicou o resultado de um levantamento sobre a associação entre Covid-19 e miocardite a partir de dados hospitalares. O estudo concluiu que pacientes infectados pelo vírus tinham quase 16 vezes mais risco de miocardite em comparação com pacientes sadios. Diante desse resultado, os autores endossaram a recomendação da vacina em razão das evidências de que os riscos de desenvolver a inflamação eram maiores em pessoas que tiveram Covid. 

Em julho, o CDC publicou um relatório sobre casos de inflamação observados em pessoas que receberam vacinas de mRNA (Pfizer e Moderna) nos Estados Unidos. De 484 casos suspeitos de miocardite e pericardite após vacinação em pessoas com menos de 30 anos reportados entre 1º de maio e 11 de junho deste ano, apenas 323 tiveram o diagnóstico confirmado. Ao todo, 309 foram hospitalizados – desses, havia informação sobre 304, sendo que 95% foram liberados e não houve mortes. Com isso, o Comitê Consultivo em Práticas de Imunização do órgão concluiu que os benefícios da vacinação superam os riscos de miocardite, embora recomende que esses casos sejam acompanhados de perto. 

No Brasil, o penúltimo boletim epidemiológico do Ministério da Saúde sobre o novo coronavírus informou que foram identificados 90 casos de efeitos adversos com alguma menção a miocardite ou pericardite. Dentre esses casos, foram registrados sete óbitos. Nenhuma dessas mortes, no entanto, foi comprovadamente causada por miocardite decorrente da vacina (página 96). 

Em setembro, o Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis da Secretaria de Vigilância em Saúde, ligada ao Ministério da Saúde, publicou uma nota técnica sobre os casos e evidenciou que o risco/benefício da vacina é altamente favorável. “Os episódios de miocardite/pericardite, com provável associação à vacina ocorreram de forma leve e com boa evolução clínica”, informou o documento.

Procurada pela Lupa, a pediatra Isabella Ballalai afirmou que existem várias investigações sobre miocardite em pessoas que tomaram a vacina da Pfizer — não apenas em jovens. A maioria é em homens de 26 anos em média. “As notificações desses eventos são acompanhadas tanto pela FDA como pela OMS e órgãos regulatórios de vários países. Os relatórios mostram que a incidência é baixa, ou seja, menor do que a incidência causada pela própria doença”, afirmou. Segundo Ballalai, existe na comunidade médica o consenso de que o risco versus benefício é menor. “O risco de não vacinar supera o risco de um evento adverso ainda considerado raro. É um evento que a gente observa e orienta os médicos a reconhecer e a tratar”, disse. 

Vale pontuar que, em julho, a Associação Americana do Coração publicou um artigo no qual apontou que os vírus são a causa mais comum de miocardite em crianças. O documento foi veiculado como um alerta diante do aumento de casos em pacientes que tiveram Covid-19.


“Esse outro pesquisador, o Toby Rogers, é um economista político que vem estudando essa dinâmica e levantou na literatura um estudo muito revisado e ele chegou a essa conclusão muito séria: para salvar 1 criança de morrer pela Covid, outras 117 crianças morrerão por conta da vacina”. 

Frase em vídeo que circula em grupos de WhatsApp 

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O conteúdo citado pela médica é, na verdade, um artigo — e não a conclusão de um estudo publicado em revista científica e revisado por pares — escrito por Toby Rogers, um economista conhecido pelo posicionamento antivacina. No texto, Rogers embasa a afirmação de que mais crianças morreriam do que seriam de fato salvas pelas vacinas em uma cálculo feito a partir da métrica conhecida como NNV (number needed to vaccinate ou número necessário para vacina, em tradução livre), eventualmente usada para avaliar o benefício da imunização, e relatórios do Sistema de Notificação de Eventos Adversos de Vacinas (Vaers, na sigla em inglês) dos Estados Unidos. 

Os dados do Vaers, contudo, não podem ser usados como evidência ou embasar cálculos estatísticos sobre a vacina. Isso porque as informações disponíveis no sistema são de relatos pessoais não verificados, ou seja, qualquer cidadão pode compartilhar uma experiência com a vacina no site, mas isso não significa que o evento adverso relatado tenha sido comprovadamente causado pelo imunizante.  

Já a métrica citada por Rogers, a NNV, foi usada de forma equivocada para calcular benefícios versus o risco da vacina. De acordo com o Centro de Medicina Baseada em Evidência, da Universidade de Oxford, este conceito é oriundo de outra métrica, a NNT (number need to treat ou número a tratar, em tradução livre), que diz respeito ao número de pessoas que precisam ser tratadas para evitar um desfecho ruim específico, como a morte: “Se um medicamento tem um NNT de 5, por exemplo, significa que você precisa tratar cinco pessoas com essa fórmula para prevenir um resultado negativo adicional”. Seguindo a mesma lógica, o NNV refere-se ao número de pessoas que precisam ser vacinadas para evitar um desfecho ruim

Uma das formas de calcular o NNV é dividindo 1 com a ARR, sigla em inglês para o conceito de Redução Absoluta de Risco. Essa métrica, por sua vez, diz respeito à diferença (absoluta) dos riscos de um evento entre a população exposta e não exposta. O cálculo feito por Rogers, no entanto, foi dividir o número total de crianças de 5 a 11 anos nos Estados Unidos (28.384.878) por um número resultante de outra fórmula feita por ele, baseada nos dados do relatório da FDA acerca dos testes da vacina da Pfizer em crianças

De acordo com o portal Health Feedback, plataforma que reúne cientistas de todo o mundo para explicar conceitos médicos e científicos, a conclusão do economista é incorreta porque é baseada em uma métrica calculada incorretamente.

A pediatra Isabella Ballalai ressaltou, ainda, que poucos lugares no mundo começaram a vacinar crianças e, mesmo assim, passou muito pouco tempo para uma avaliação. “Desconheço relatos de mortes de crianças provocadas pelos imunizantes. O que temos de concreto com a vacinação é um controle da doença em muitos países. Não tivemos aumento de morte nem de miocardite por causa disso”, disse.

Editado por: Maurício Moraes

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