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Foto: Alan Santos/PR
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Em lives e redes sociais, Bolsonaro usa dados enganosos do Caged e critica IBGE

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
14.dez.2021 | 18h20 |

A despeito do elevado índice de desocupação e da queda da renda média dos brasileiros, o presidente Jair Bolsonaro (PL) tem comemorado sistematicamente os dados sobre geração de emprego do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), vinculado ao Ministério da Economia. Um levantamento feito pela Lupa mostrou que o mandatário fez pelo menos 10 menções ao Caged em suas transmissões semanais desde que chegou ao Planalto. No Facebook, foram pelo menos 14 ocasiões entre 2019 e o começo de novembro de 2021. Duas revisões desse cadastro, contudo, divulgadas em um intervalo de um mês, mostraram que os dados inicialmente publicados não eram condizentes com a realidade.

O Caged refere-se apenas ao mercado formal, ou seja, deixa de fora a parcela de 40% da população que vive sem carteira assinada. Além disso, desde 2020 a nova metodologia adotada para o indicador inflou números, segundo especialistas, porque passou a incluir mais pessoas na contagem que antes não entravam, como trabalhadores temporários (para atuar somente na temporada de verão, por exemplo). Na prática, o novo sistema começou a abranger os dados do antigo Caged, do eSocial (registro que inclui bolsistas, agentes públicos e dirigentes sindicais, entre outros) e do Empregador Web (onde se registram os pedidos de seguro-desemprego).

Em uma busca por termos como “Caged”, “IBGE”, “desemprego” e “emprego” no Facebook do presidente, em pelo menos cinco ocasiões somente este ano Bolsonaro não só evidenciou o saldo positivo do indicador como também atacou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em razão da taxa elevada de desemprego apontada pela Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua — que este ano chegou a 14,6%. Em 1º de abril, por exemplo, Bolsonaro chegou a sugerir que a metodologia do instituto fosse revista e chamou o dado de “falso e mentiroso”.

As citações tiveram, em geral, tom de propaganda do que seriam os bons ventos da economia brasileira em sua gestão. Só em 2021, ele recorreu aos dados do cadastro em cinco ocasiões. Na última delas, em 28 de outubro, o presidente afirmou que foram 2,5 milhões de empregos criados desde o começo de seu governo. Na ocasião, ele apresentou o saldo positivo do Caged – ou seja, a diferença entre admissões e demissões — referente a 2019 e a 2020 (640 mil e 142 mil, respectivamente, segundo Bolsonaro) — sem levar em consideração que, após a mudança de metodologia do cadastro, a comparação das séries anuais passou a ser inadequada, uma vez que a base de informações passou a ter fontes diferentes. 

Apenas cinco dias depois da divulgação do saldo de empregos até então positivo feita pelo mandatário, o próprio Caged divulgou uma revisão dos dados de demissões e o índice sobre criação de empregos formais no Brasil caiu pela metade em 2020. Em vez dos 142 mil anunciados por Bolsonaro, teriam sido abertas 75.883 vagas a mais — 46,8% a menos que o propagandeado. Em 30 de novembro, o governo fez uma nova revisão e o saldo passou a ser negativo: em 2020, foram perdidos 191,5 mil postos formais de trabalho — e não criados 75.883, como havia indicado a primeira revisão. Na live realizada em 2 de dezembro, depois do anúncio da revisão, Bolsonaro não comentou o assunto. 

O Novo Caged e a Pnad

O Caged foi criado em 1965 (Lei 4.923), quando foi instituída a obrigatoriedade das informações sobre admissões, desligamentos e transferências das empresas no país. Em 2019, esse indicador passou a ter novos procedimentos para declaração de dados e a gerar as estatísticas do emprego formal, por meio de informações captadas dos sistemas eSocial, Caged e Empregador Web. Com isso, passou a incluir dados como vínculos temporários e estágios — antes não computados. 


A Pnad Contínua, por outro lado, reúne indicadores mais abrangentes da força de trabalho, incluindo o mercado formal e informal. O professor titular do curso de Economia e do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Lauro Mattei, enfatiza que a principal diferença é que o Caged não é uma pesquisa, e sim uma declaração. “O Caged é uma declaração de empresários. E muitos sonegam informação por questões de tributação, ou seja, os dados desse cadastro nem sempre apresentam a realidade”, explicou, por telefone. O próprio site do Caged informa que, embora a maior parte das empresas sejam obrigadas a declarar, muitas deixaram de prestar informações de desligamentos. 


De acordo com o pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre) Daniel Duque, o Caged calcula as contratações e demissões de trabalhadores com carteira assinada e mede quantos foram contratados e demitidos em um determinado período. “Já a Pnad é mais abrangente. As perguntas da pesquisa, por exemplo, consideram se a pessoa gostaria ou não de estar empregada e se fez alguma coisa para isso”, disse Duque. 

 Críticas do governo contra o IBGE

Embora não seja incomum entre chefes do Executivo o truque de apresentar dados que favoreçam o próprio governo, a novidade, na atual gestão, é a escolha de questionar as informações que porventura sejam negativas — como é o caso dos índices de desemprego do IBGE. No final de novembro, o instituto divulgou os dados da Pnad Contínua do terceiro trimestre de 2021 e a taxa de desemprego atingiu 12,6%. Houve uma queda 1,6 ponto percentual na comparação com o segundo trimestre de 2021, mas ainda assim continua alto o número de pessoas em busca de emprego: 13,5 milhões.

Em 2021, Jair Bolsonaro questionou a metodologia do IBGE em pelo menos quatro vezes, nas quais enalteceu a geração de empregos apresentada pelo saldo do Caged em suas lives. No dia 23 de setembro, por exemplo, ele chegou a indagar: “Como é que você explica? Eu tenho falado que terminamos 2020, o ano da pandemia (…) com mais empregados formais que em 2019. E como é que o emprego sumiu?” Além dele, o ministro da Economia, Paulo Guedes, também já criticou publicamente a metodologia do IBGE

Bolsonaro recorreu, no entanto, aos dados da Pnad sobre desemprego para criticar governadores e prefeitos que adotaram políticas de distanciamento social durante a pandemia. Em 30 de abril de 2020, por exemplo, ele alertou em uma transmissão ao vivo sobre o alto número de desocupados e sugeriu que a culpa seria das medidas de isolamento.

Formais, informais e queda da renda

Em julho deste ano, o IBGE divulgou que a taxa de informalidade no mercado de trabalho subiu para 40%, o equivalente a 34,7 milhões de trabalhadores sem carteira assinada. Para o professor titular do curso de Economia e do Programa de Pós-Graduação em Administração da UFSC, Lauro Mattei, essa informação é importante de ser colocada em perspectiva. “O Caged tem dados apenas do emprego formal e isso corresponde a 60% da população. Essa informação precisa ficar clara. Bolsonaro sabe que o saldo do Caged não corresponde ao mercado como um todo”, enfatizou.

Para o pesquisador, que também coordena o Núcleo de Estudo de Economia Catarinense (Necat/UFSC), uma outra observação relevante é que a renda média mensal está em queda. “O desemprego estava 14,2% e agora, 12,6%. Está caindo, mas ainda assim é uma taxa alta. O que acontece é que a renda — que é uma correspondência, afinal, tem muita gente disponível no mercado — cai. As estimativas da Pnad mostram que a renda está chegando ao patamar de 2012. Isso é um péssimo resultado, porque a renda está caindo mais que o desemprego. Isso se chama precarização do mercado de trabalho”, alertou.

Em 30 de novembro, os registros da Pnad Contínua indicaram que a renda média do trabalho recuou e atingiu o menor valor para o terceiro trimestre na série histórica do IBGE. 

No terceiro trimestre, o rendimento real habitual das pessoas ocupadas foi estimado em R$ 2.459. O menor valor para o período de julho a setembro tinha sido registrado em 2012, quando a Pnad começou. À época, a renda foi de R$ 2.462.

Existe ainda outra questão que precisa ser mencionada e que não integra o Caged, segundo o professor da UFSC: o número de pessoas subocupadas (pessoas que gostariam de trabalhar 40 horas semanais, mas trabalham menos tempo). Em setembro, esse índice correspondia a 7,7 milhões de trabalhadores. “Isso tem um efeito direto na renda, porque essa pessoa vai trabalhar menos horas do que poderia ou gostaria e, consequentemente, vai ganhar menos”.

Editado por: Maurício Moraes

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