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#Verificamos: É falso que Pfizer adicionou trometamina à vacina contra Covid-19 para tratar ataque cardíaco

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
12.jan.2022 | 19h10 |

Circula pelo WhatsApp um vídeo em que um homem diz, em inglês, que a farmacêutica Pfizer adicionou “secretamente” uma substância, a trometamina, à sua vacina contra a Covid-19 destinada às crianças. De acordo com o conteúdo, a trometamina seria supostamente um afinador de sangue “muito perigoso”, utilizado no tratamento de pacientes em ataque cardíaco. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“A Pfizer secretamente adicionou uma droga para tratar ataque no coração às vacinas contra a Covid-19 das crianças, mas por quê? Eles disseram que, ao invés de usar solução salina como tampão, que é colocado em basicamente toda vacina, eles estão usando isso [a trometamina] como tampão — e [essa substância] não é listada como tampão. É um muito perigoso e muito forte afinador do sangue.”
Trecho de fala em vídeo que circula em grupos de WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A adição da trometamina à formulação da vacina da Pfizer não foi realizada de forma “secreta”, já que a alteração foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e consta na bula do produto. Além disso, especialistas afirmam se tratar de um tampão comum, largamente utilizado na indústria farmacêutica para manter as propriedades de medicamentos. De acordo com a Pfizer, a inclusão da substância aumenta a resistência e a duração do imunizante.

A bula atualizada da vacina contra a Covid-19 produzido pela Pfizer, disponível no site da farmacêutica, cita a trometamina e o cloridrato de trometamina como componentes do produto. Ambos aparecem descritos como “excipientes”, ou seja, substâncias sem poder terapêutico que têm o objetivo de garantir a estabilidade e as propriedades farmacológicas de um medicamento. A trometamina é citada na bula do imunizante desde dezembro de 2021, quando a Anvisa aprovou um parecer autorizando a mudança em sua formulação.

No caso das vacinas, a trometamina atua como um estabilizante, que evita variações bruscas em seu pH. “É um tampão muito comum, usado corriqueiramente em diversos ensaios bioquímicos e moleculares. Está presente para permitir que o princípio ativo possa se manter ativo e exercer o seu papel”, explica a professora do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Ana Paula Herrmann.

A alteração também ocorreu nos Estados Unidos, onde a Food and Drug Administration (FDA), em outubro, explicou a mudança de formulação no documento que é mostrado no vídeo. “Para fornecer uma vacina com um perfil de estabilidade aprimorado, a vacina Pfizer-BioNTech Covid-19 para uso em crianças de 5-11 anos de idade usa tampão de trometamina (Tris) em vez de solução salina tamponada com fosfato (PBS) como na formulação anterior”, afirma o relatório.

A adição da trometamina aumenta a resistência do imunizante em comparação à formulação anterior e não está relacionada ao tratamento de supostos efeitos colaterais, avalia Sergio Surugi de Siqueira, professor do curso de Farmácia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). “Eles resolveram mudar porque esse tampão é melhor, dá mais durabilidade. Você consegue armazenar a vacina em condições mais amenas e por mais tempo”, ressalta.

Siqueira cita a utilização da trometamina em outra vacina contra a Covid-19, a da Moderna, e no imunizante contra o vírus ebola como exemplos de utilização prévia do componente. A substância também é empregada em algumas soluções injetáveis de insulina, voltadas a diabéticos. “Nessa dosagem, a trometamina não tem nenhum efeito no sentido de prevenir ou causar eventos adversos. Essa é uma modificação de fórmula que não traz nenhum tipo de risco adicional à vacina que já está sendo usada”, diz o professor.

‘Ataque cardíaco’

Ao contrário do que afirma o vídeo analisado, o tratamento de ataques cardíacos não consta entre os usos terapêuticos previstos para a trometamina. O Hazardous Substances Data Bank, ligado ao Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NHI), cita apenas a prevenção e a correção da acidose metabólica, quando há acidez excessiva no sangue, associada a cirurgias cardíacas.

Ataques cardíacos também não estão listados entre os possíveis efeitos adversos da vacina da Pfizer. A bula informa que casos “muito raros” de miocardite e pericardite, que são inflamações relacionadas ao coração, foram relatados após uso do imunizante, especialmente entre homens mais jovens, depois da segunda dose e em até 14 dias da vacinação. Entretanto, o documento ressalta que geralmente são casos leves e que os indivíduos tendem a se recuperar em um curto período de tempo.

Atualização às 13h30 de 14 de janeiro de 2022: Por meio de nota, o escritório brasileiro da Pfizer declarou que a trometamina não possui poder terapêutico e foi adicionada ao imunizante com a finalidade de preservar o RNA mensageiro, garantindo uma resistência maior à degradação desse componente. “O que significa que a vacina pediátrica pode ser armazenada de 2 a 8°C em refrigeradores comumente disponíveis por até 10 semanas”, informou a farmacêutica.

Essa informação também foi verificada por AFP Checamos e Boatos.org.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Chico Marés

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