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Verificamos: É falso que medicamentos contra Covid-19 da Pfizer e MSD têm a mesma ação da ivermectina

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
14.jan.2022 | 15h36 |

Circula nas redes sociais que os medicamentos contra a Covid-19 desenvolvidos pelas farmacêuticas Pfizer (Paxlovid) e MSD (Molnupiravir) têm ação igual à da Ivermectina. O post cita como fonte uma entrevista publicada no site da Revista Oeste. O Paxlovid foi aprovado para uso emergencial nos Estados Unidos pela Food and Drug Administration (FDA) em 22 de dezembro. Já o Molnupiravir teve autorização para uso em 23 de dezembro. No Brasil, as duas fórmulas ainda não foram aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa​:

“BOLSONARO SEMPRE TEVE RAZÃO

Medicamentos da Pfizer e MSD têm ação igual à da ivermectina, afirma especialista.”

Texto em post no Instagram que até as 15h do dia 13 de janeiro de 2022, tinha sido curtido por 513 pessoas 

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O Paxlovid, desenvolvido pela Pfizer, e o Molnupiravir, do laboratório MSD, não agem no organismo da mesma forma que a ivermectina no combate à Covid-19. Os dois fármacos têm compostos com estruturas químicas e mecanismos de ação diferentes. 

O Paxlovid é um antiviral que atua como um inibidor de protease, uma enzima presente no coronavírus necessária para que ele se replique. Essa fórmula tem uma ação direta contra o Sars-CoV-2 e teve eficácia comprovada em ensaios clínicos randomizados controlados. Esse fármaco foi desenvolvido a partir da combinação de duas moléculas (nirmatrelvir + ritonavir). Por email, a assessoria de comunicação da Pfizer explicou que essas moléculas pertencem à classe dos inibidores de protease e, como explicado acima, atuam inibindo a enzima usada pelo vírus para se replicar. A fórmula do ritonavir já era um antirretroviral utilizado há décadas para tratamento de infecção pelo HIV. “Ela ajuda a retardar o metabolismo do nirmatrelvir, fazendo com que esse último permaneça ativo no corpo, em concentrações mais elevadas, por maiores períodos de tempo, e assim auxiliando no combate ao vírus”, informou. 

O Molnupiravir, por sua vez, desenvolvido pela MSD, age introduzindo erros no código genético do Sars-CoV-2, impedindo, dessa forma, a replicação do vírus. Essa ação não tem nenhuma semelhança com a ivermectina. Por email, a assessoria de comunicação da MSD no Brasil explicou que o antiviral “causa um dano irreversível na sequência genética do vírus” e que a “molécula ativa de ambas as medicações não possuem qualquer semelhança”, ou seja, possuem mecanismos de ações e propósitos diferentes para tratar seus respectivos alvos infecciosos. Essa fórmula passou por ensaios clínicos randomizados de fase 3, que concluíram que o fármaco reduziu o risco de hospitalização ou morte em adultos não vacinados que contraíram o vírus. 

Já a ivermectina é um vermífugo conhecido pela ação contra parasitas, como sarna, piolho e lombriga, por meio da paralisação da musculatura desses vermes. O medicamento possui múltiplos mecanismos de ação e, embora tenha sido exaustivamente testado como possível antiviral em estudos in vitro, ou seja, fora de um organismo vivo, o benefício contra o Sars-CoV-2 em pesquisas com seres humanos não foi suficiente para combater a doença.

Nos estudos realizados com a ivermectina in vitro, o antiparasitário demonstrou a possibilidade de impedir a importação de algumas proteínas de transporte de materiais intracelulares do vírus. Contudo, avaliações posteriores indicaram que, para o efeito esperado, seria necessário uma dose muito maior do que a permitida para uso em humanos.

Embora tenham sido feitos testes para avaliar a ação da ivermectina na protease do novo coronavírus, isso não quer dizer que essas pesquisas resultaram em benefício comprovado. Um estudo publicado em janeiro de 2021 na revista Nature tentou identificar e analisar inibidores da principal protease do novo coronavírus (3CLPro) como potenciais agentes anti-Sars-CoV-2. Entre os inibidores testados estavam fármacos como ombitasvir, paritaprevir e ivermectina, entre outros. Embora a ivermectina tenha bloqueado mais de 85% da atividade da protease 3CLPro, o estudo foi feito in silico, ou seja, foi uma simulação computacional. 

Procurado pela Lupa, o professor e pesquisador Alfeu Zanotto Filho, do Departamento de Farmacologia da Universidade de Santa Catarina (UFSC), explicou que, no começo da pandemia, se estudou a possibilidade de a ivermectina ser reposicionada — nome dado à estratégia de testar fármacos já existentes até a descoberta de um novo — para atuar contra a proteína do coronavírus. “No início, pesquisadores tentaram vários inibidores de protease que se usam para HIV, por exemplo, que estaria mais próximo do Sars-CoV-2 do que a ivermectina. E não foi possível, porque as proteínas são diferentes”, explicou, por telefone.

Em dezembro de 2021, uma extensa revisão sobre os estudos acerca dos mecanismos de ação da ivermectina contra Sars-CoV-2 publicada também pela Nature concluiu que, ainda que tenham sido relatadas atividades antivirais da ivermectina contra o novo coronavírus (maioria em estudos in vitro ou in silico), ainda não ficou evidente se essas atividades de fato desempenham um papel na prevenção e tratamento da doença. 

Para a professora do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Ana Paula Herrmann, a principal diferença — e a que realmente importa — é a eficácia clínica. “No caso dos antivirais específicos (Paxlovid e Molnupiravir), a evidência aponta que o tamanho de efeito do benefício clínico é significativo, diferente da ivermectina e hidroxicloroquina”, pontuou a pesquisadora. 

De acordo com a atualização mais recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre as opções terapêuticas para tratar a Covid-19, publicada em 11 de janeiro, os estudos feitos com ivermectina até o momento resultaram em “certeza muito baixa de evidência” dos benefícios. O documento (pág 68) analisou 33 estudos clínicos randomizados e controlados em todo o mundo. 

Mecanismos de ação citados são estudos pré-clínicos

Os estudos sobre mecanismos de ação da ivermectina citados no site da Revista Oeste — fonte citada no post —  em geral são estudos pré-clínicos, ou seja, estudos in vitro (fora de um ser vivo) e in silico (simulações de bioinformática). De acordo com a professora do Departamento de Farmacologia da UFRGS, Ana Paula Herrmann, mostrar que determinada molécula interage com determinado alvo (mecanismo de ação) é algo distante de mostrar que determinada molécula é eficaz na clínica para tratar pacientes acometidos por determinada condição.

“A maioria das moléculas com eficácia nesses ensaios pré-clínicos acaba não sendo eficaz em pessoas, que são sistemas muito mais complexos. No caso de uma infecção viral aguda, como é o caso da Covid-19, para ser eficaz contra o vírus um fármaco precisa ter alta afinidade pelo seu alvo farmacológico (ou seja, não adianta ser eficaz apenas em concentrações tão altas que sejam inviáveis ou que acabem acarretando em outros efeitos não desejados)”, explicou, por WhatsApp.

A professora também ressalta que o processo viral que o fármaco tem como alvo precisa ser essencial para a multiplicação do vírus. “O antiviral desenvolvido pela Pfizer tem alta especificidade e afinidade por uma enzima viral (protease) importante no processo de multiplicação do Sars–CoV-2 e demonstrou eficácia em ensaios clínicos randomizados controlados”, disse. “Isso é muito diferente de um eventual ensaio in silico que tenha demonstrado que a ivermectina poderia se ligar à mesma protease, tanto é que os ensaios clínicos randomizados para ivermectina (excluindo os problemáticos e fabricados/falsificados) não demonstram um benefício no tratamento da Covid”, concluiu.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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