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#Verificamos: Site distorce pesquisa da Embrapa para vender falso remédio para inflamações na próstata

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
24.jan.2022 | 18h15 |

Circula no WhatsApp uma notícia, supostamente publicada no portal G1, de que um “super tomate” desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) ajuda a reduzir “três vezes mais rápido” a próstata aumentada. De acordo com a publicação, esse tomate, chamado BRS Zamir, rico em licopeno, seria a base de um medicamento chamado Prostazil, indicado para tratar problemas de próstata. O texto sugere que homens abandonem tratamentos convencionais e afirma que urologistas estariam recomendando esse fármaco, que teria sido aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para combater e eliminar todos os sintomas da doença. Por fim, o conteúdo afirma que o suplemento reduz em até 41,1% a inflamação da próstata. O site indica vários links para comprar o medicamento. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“Pesquisa Genética Desenvolve o Super Tomate Capaz de Ajudar a Reduzir 3 Vezes mais Rápido a Próstata Aumentada

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPE) Foi responsável pelo desenvolvimento desse Super tomate chamado BRS Zamir”

Texto em site cujo link circula no WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Embora a Embrapa tenha, de fato, desenvolvido um tipo de tomate chamado BRS Zamir, não há nenhuma pesquisa que comprove que esse vegetal ajude a reduzir em até três vezes a próstata aumentada — doença comum em  homens acima de 50 anos cujos sintomas são dificuldade e dor para urinar, entre outros. O conteúdo simula uma página do portal G1, que nunca fez qualquer reportagem sobre essa suposta propriedade do tomate, para vender um suplemento alimentar com licopeno chamado Prostazil. Esse suplemento não tem nenhum registro ou autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e não é reconhecido pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU)

O BRS Zamir é um híbrido de tomate cereja e grape. Segundo a Embrapa, esse vegetal é fruto de uma tecnologia desenvolvida pela instituição e é caracterizado, entre outros pontos, pelo elevado teor de licopeno, pigmento responsável pela cor vermelha-alaranjada de alguns alimentos. Embora o licopeno seja conhecido pela ação antioxidante, não há comprovação científica de que tenha algum benefício para os sintomas prostáticos.  

De acordo com o chefe geral da unidade Embrapa Hortaliças, Warley Nascimento, os principais atributos desse tomate, batizado de “supertomate”, são a alta produtividade, a resistência a doenças e, além da doçura, comum aos tomates tipo grape, o fato de ser bastante vermelho e rico em licopeno.

“Nossa pesquisa para aí. Desenvolvemos um cultivar com alto teor de licopeno e, em termos nutricionais, isso é muito bom, ou seja, consumindo uma pequena quantidade desse tomate você tem os nutrientes necessários. Mas vale ressaltar que desenvolvemos material para agricultura brasileira, para que os vegetais sejam produtivos, resistentes a pragas e nutritivos”, disse Nascimento.

Ele ressaltou que, embora os pesquisadores da Embrapa saibam que o licopeno, como antioxidante, pode ter algum efeito benéfico para prevenir câncer, inclusive de próstata, a instituição não tem nenhum estudo que confirme isso. Isso tampouco é o foco da empresa. “Para atestar, são necessárias muitas pesquisas. Esse conteúdo é de ma fé, colocou a foto do pesquisador da Embrapa e usou isso como marketing”, concluiu. 

A página que cita a pesquisa da Embrapa para endossar o fármaco é uma imitação do portal G1. A primeira evidência de que se trata de um site falso é o endereço, que começa com as palavras “t-startnatural” — em vez de g1.globo, como no site verdadeiro. Há outros elementos, como erro de grafia da Embrapa — está escrito “EMBRAPE”, inteiramente em letras maiúsculas, com “E” no final. Todas as palavras estão grafadas com letras maiúsculas no início, o que não é o padrão do site — que grafa com maiúscula somente a primeira palavra da frase e os nomes próprios. Além disso, não foi localizada nenhuma reportagem com esse título no portal de notícias.


“(…) Urologistas estão recomendando o uso do medicamento a base do tomate BRS ZAMIR para combater e eliminar todos os sintomas da próstata aumentada. (…)”

Texto em site cujo link circula no WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) informou que o licopeno, encontrado em grande quantidade no tomate BRS Zamir, não é prescrito ou recomendado a pacientes. De acordo com a entidade, esse antioxidante ficou conhecido como possível agente para melhorar os sintomas prostáticos há cerca de 20 anos, quando foi observado que, em uma região da Itália, onde se consome muito o molho de tomate com azeite, há pouca incidência de câncer de próstata. 

“No entanto, já foi testado em vários estudos e na prática clínica, mas o resultado foi bastante modesto”, explicou o coordenador do Departamento de Uro-Oncologia da SBU, Ubirajara Ferreira. Segundo o especialista, os medicamentos indicados para tratar a próstata aumentada são à base de dutasterida, finasterida e alfabloqueadores — e não licopeno.


“(…) O PROSTAZIL reduz em até 41,1% a inflamação da próstata, fazendo o canal da uretra voltar ao normal.

Texto em site cujo link circula no WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não existe nenhuma pesquisa que cite um medicamento ou suplemento chamado Prostazil e que comprove que ele reduza em até 41,1% a inflamação na próstata. Como explicado acima, não existe nenhum estudo que comprove que o licopeno, antioxidante citado como um dos ativos do suplemento, seja eficaz para prevenir ou tratar doenças na próstata. A SBU não reconhece essa fórmula e nem recomenda suplementos ou medicamentos à base de licopeno para tratar ou prevenir doenças na próstata. 


“Estudo liderado pela Anvisa mostra a eficácia dos medicamentos mais vendidos no Brasil para próstata”

Texto em site cujo link circula no WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não existe nenhum fármaco chamado Prostazil na lista de medicamentos e nem na lista de suplementos alimentares autorizados pela Anvisa. Com exceção de probióticos e enzimas, suplementos alimentares em geral são dispensados de registro junto à Anvisa. Contudo, segundo informou a agência por email, as fórmulas isentas de registro devem ser regularizadas junto a algum órgão local de Vigilância Sanitária “mediante protocolo do Comunicado de Início de Fabricação”, conforme determina a Resolução nº 23 de 2000. Um representante do canal de vendas via WhatsApp do Prostazil não informou, até a publicação desta reportagem, o número desse protocolo.

A página que simula o G1 direciona leitores para até três sites promocionais diferentes do mesmo medicamento. Um deles, cujo endereço começa apenas a palavra “prostazil”, consta a informação de que “a Anvisa atesta a segurança” e que é aprovado pelo órgão. Mais abaixo, informa que “passou por diversos testes da Anvisa”. Outro site promocional, cujo endereço começa com “prostazilcaps”, informa que o suplemento é “reconhecido pela Anvisa”.  

A própria Anvisa confirmou, no entanto, que, após consultas aos bancos de dados, o medicamento não está registrado nem notificado. “Há indicativos, no rótulo, de que o produto estaria enquadrado como suplemento alimentar. Entretanto, como o mesmo é indicado para uma finalidade terapêutica ou medicamentosa, este enquadramento está incorreto”, diz a nota. 

Isso porque, ao anunciar que o Prostazil “acaba com a próstata inflamada” e “previne o câncer da próstata”, as páginas promocionais violam a regra da Anvisa de que suplementos alimentares não podem ter indicações terapêuticas ou medicamentosas (Artigo 17 da Resolução de Diretoria Colegiada da Anvisa de 2018). Isso significa que tanto no rótulo ou nos materiais de propaganda e divulgação essas fórmulas não devem alegar propriedades preventivas, de tratamento e de cura de doenças.

Além disso, as páginas não informam o nome de um laboratório ou de um técnico responsável pela fórmula. A empresa responsável pela comercialização, que aparece na parte inferior de uma das páginas promocionais, está cadastrada como MFP Marketing Digital. O site oficial dessa empresa informa que o negócio oferece “solução ideal para desenvolver sua marca de encapsulado”. Em uma busca na plataforma Reclame Aqui, que registra reclamações de usuários, há registros não respondidos de consumidores indicando que compraram medicamentos e não receberam.

A Lupa entrou em contato com o fabricante por meio do número de WhatsApp disponível nas páginas promocionais do medicamento indicadas no site falso. O responsável explicou que a forma de trabalho com o Prostazil é “formato de vendas online” por meio de “afiliados que ganham comissão pela venda do produto”. Sobre o conteúdo que relaciona o tomate BRS Zamir ao Prostazil em uma página falsa do G1 para promover a fórmula, informou que o “anúncio sobre a Embrapa” foi criado por “um dos parceiros afiliados, que não possui nenhum vínculo com a empresa”. Por fim, informou que “a empresa esclarece que não compartilha e não concorda com tais afirmações” e que “não estava ciente de tais anúncios”. 

Após ser questionado sobre a fonte das pesquisas de eficácia e sobre o registro do protocolo de autorização da Anvisa, o responsável parou de responder.

Em nota, a Anvisa informou que, embora não tenham sido identificadas, até o momento, denúncia ou investigação relacionadas ao site Prostazil, “serão adotadas as medidas cabíveis para apuração e responsabilização pelas eventuais infrações sanitárias que possam vir a ser evidenciadas no processo investigativo, nos termos do Decreto-Lei 986/1969 e da Lei 6.437/1977”.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Chico Marés

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